Reflexões

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.

Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)

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fevereiro 27, 2008

Rosário: Reflexões sobre Cuba e a Mídia

Conheci cineastas cubanos num festival de cinema latino-americano em Toulouse, que me deram informações bastante interessantes sobre o país. Disseram-me que, com o fim da União Soviética, as liberdades civis de Cuba melhoraram muito. Revelaram-me que um dos problemas graves por lá é que não há internet banda larga, pois os EUA não permitiam a construção de um cabo até a ilha. Mas parece que Chávez estaria investindo num cabo vindo do sul, que resolveria esse problema.
Já escrevi muito sobre Cuba. Tenho respeito pela ilha e sua resistência. Quem estuda a história de Fidel Castro sabe que não foi ele quem derrubou a democracia no país. Foi Fulgêncio Batista, patrocinado e apoiado militarmente pelos EUA. Isso tudo está registrado nos arquivos oficiais do próprio governo americano. Fidel podia abrir o país à democracia? Ãh? Não foram os EUA que ajudaram a derrubar a democracia no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, México, Nicarágua? Por quê cargas d'água não derrubariam a democracia em Cuba e implantariam outro ditador sanguinário, corrupto, que além de não permitir nenhum tipo de liberdade democrática, manteria os cubanos na miséria, com mortalidade infantil, analfabetismo, e morrendo de doenças tropicais.
Se existe um inimigo da democracia na América Latina, não é Cuba. São os Estados Unidos, que patrocinaram tantos golpes contra a democracia. Mas não tenho nenhuma visão maniqueísta sobre os EUA, que são um país com uma história maravilhosa e uma cultura fantástica, com auto-críticos mais corajosos e francos que qualquer crítico estrangeiro. Seus defeitos, todavia, são tão grandiosos quanto suas qualidades. Pensar que Bukówski, logo ele, foi vigiado e quase perseguido pela CIA, nos faz duvidar da tal liberdade americana. Pensar na morte de John Lenon, dos Kennedy, de Martin Luther King, mortos por uma extrema-direita hidrófoba, também é importante para termos uma perspectiva melhor desta liberdade. Sem contar na estranha morte de Hendrix, Joplin e Morrison, aos 27 anos - prefiro não comentar teorias conspiratórias segundo as quais teriam sido assassinados.
Cuba não é perfeita, mas os EUA também não o são. Cada país tem sua concepção de liberdade. Para o Brasil, liberdade era dar golpe militar e deixar crianças morrendo de fome nas ruas, enquanto Chico Buarque compunha canções em Roma. Para os EUA, liberdade era assassinar o presidente Kennedy e derrubar governos democráticos na América Latina - para empossar ditadores sanguinários que torturavam e matavam pessoas, fechavam congressos e exerciam censura absoluta sobre os meios de comunicação. Cuba também não fugiu a essa dialética macabra. A liberdade que escolheu foi a liberdade possível.
Arnaldo Jabor agora nos repete sobre o sonho socialista dos jovens endinheirados de Ipanema - que acreditavam num mundo perfeito, róseo, sem corrupção, com mulheres lindas abrindo as pernas sem culpas e jornais e editoras distribuindo empregos bem pagos para todos os escritores do país. Todo mundo viraria escritor ou cineasta ou músico. Mas eu não tenho culpa se o sonho bonito e idiota de Jabor (se é que era verdade que ele era tão bobinho assim) se esfarelou na realidade da vida.
Com o fim do socialismo europeu e russo, os hidrófobos anti-comunistas fizeram uma barulheira tão grande que não era possível refletir sobre os acontecimentos. Fim do socialismo! Esse foi o refrão mais repetido por toda parte. Até hoje. Surgem releituras da história que atribuem ao comunismo barbáries, mortes e torturas sem a mínima cientificidade. É o mesmo maniqueísmo e paranóia que também observamos em setores do esquerdismo, que identificam inimigos, espiões da CIA e fascismo em toda parte.
Sempre o mesmo cipoal ideológico, no qual todos se embrenham e permanecem ali, amarrados, paralisados, vociferando contra a TV Globo, de um lado, e contra o esquerdismo das redações, de outro. Um dia desses escrevo uma ficção política na qual Olavo de Carvalho e Heloísa Helena passam três meses trancados numa casa. Viram amantes na primeira semana, é claro, e passam a rir de seus extremismos.
Não se pode confundir ideologia com venalidade. A Veja não se tornou o esgoto que é porque adotou uma linha mais conservadora, e sim pelo declínio da qualidade de suas reportagens e pela absoluta falta de ética jornalística. Os artigos de Nassif sobre a Veja mostram isso. Veja vem se escondendo sob o manto de revista de oposição, como se isso lhe blindasse contra qualquer crítica. Da mesma forma, alguns pseudo-colunistas ou jornalistas se atribuem super-poderes para chantagear, caluniar, mentir e difamar, protegidos pela áurea de serem "anti-petistas". Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Como diria Juvenal Antena: justamente esse é o ponto-fraco desses caras. Acham-se tão fortes, mas esqueceram de combinar com os russos. Repetem tanto que o povo brasileiro é burro, que acabam acreditando nisso.
Mas o povo brasileiro não é tão burro assim não. Temos nossos traumas, nossos problemas, nossas mazelas, nossas heranças coloniais. É muito chique dizer que os europeus são melhores que nós, mais éticos, mais trabalhadores, etc. Mas nós nunca invadimos outros países, nunca fizemos guerras mundiais nem exterminamos judeus. Apesar do trauma provocado pela escravidão, que denegriu tão profundamente a dignidade do trabalho, somos um dos países que mais cresceram no mundo nas últimas décadas, construindo cidades, indústrias, estradas, modernos parques agrícolas.
Leia o texto completo do Miguel do Rosário no blog Óleo do Diabo.
por André Lux

3 comentários:

wilson rezende disse...

Texto interessante.

jobofevi disse...

Muito esclarecedor! Seu blog é bem didático. Mostra a face real da história que os livros escondem.Boa noite amigo.

mario disse...

Hj li seu Blog, parabens esta muito bom... vou acompanhar de agora em diante.
Mario

Ilha das flores