Reflexões

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.

Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)

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novembro 22, 2008

Obama e a mídia: quanta bobagem dita!

Meu Deus, quanta bobagem vi na mídia sobre a vitória de Obama. Que finalmente se tornou realidade o sonho de Martin Luther King e até que a vitória de Obama sepultou o racismo nos Estados Unidos. Houve a exaltação da democracia americana e não faltou quem comparasse Obama a Lula, os dois pobres que fizeram sucesso. Para boa parte da mídia, Obama é o verdadeiro salvador, aquele que vai pôr ordem na casa. Infelizmente, o sonho de Martin Luther King ainda não se realizou, o racismo está longe de terminar na América, a democracia americana não tem nada de democracia verdadeira, os mercados não acham Obama o salvador (as bolsas caíram ontem) e Barak tem muito pouco do presidente Lula.

Tenho de dar a mão à palmatória: a mídia brasileira esteve entre as melhores, embora também tenha falado muita besteira (se bem que ainda falta a Veja, com as suas pérolas). O The New York Times, que apoiou Obama, ficou com a medalha de ouro. Entre outras, o colunista Thomas L. Friedman disse ontem, em artigo, que a vitória de Barak decretou o fim da Guerra Civil que, no século 19, de cunho abolicionista, ainda não era questão resolvida na América. Outros, entre os quais nossos analistas políticos, como Merval Pereira, fizeram coro a isso e também exaltaram a democracia americana, que, segundo ele, provou ser a única verdadeira e onde tudo e possível. Bobagens da mídia que não se sustentam.

O racismo está mais do que vivo, vai incomodar muito ainda, e a democracia americana é uma ficção presente apenas no imaginário popular. A maioria branca votou em Obama porque quer se livrar dessa desgraça que viu cair sobre sua cabeça, com a crise financeira, ameaçando usurpar-lhe aquilo que ela tem de mais precioso, os bens e suas propriedades. Quando viu que o branco McCain era continuação de Bush, o americano branco, assaltado nos bolsos, não hesitou em apostar todas as fichas num negro, naquele momento a única esperança de salvá-lo.

Não há um branco nos Estados Unidos que, ao estar se afogando, hesite em agarrar a mão de um negro que lhe seja estendida para salvá-lo. Nessa hora, não existe preconceito racial. Foi assim que a América Branca agarrou-se a Obama: para se salvar. Em resumo, não foi Obama quem venceu a eleição, mas sim a Cruzada AntiBush, que quer salvar a América da crise. Os Estados Unidos vão continuar sendo, por muito tempo, o país mais preconceituoso do planeta.

Afinal, fora Bush quem deixara a coisa chegar a esse ponto, principalmente porque não entende nada de economia e não soube nem mesmo acender o pisca-alerta quando preciso. Permitiu que baladas financeiras corressem soltas em plena luz do dia, cego para o que estava acontecendo. E o capitalismo norte-americano entrou então em colapso, não vai ser nada fácil resolver a parada.

Está claro que, se Obama não der conta do recado e não salvar a pele do americano, será execrado duplamente, por ser negro e incompetente. Você ainda tem dúvida?

E Obama não tem nada de Lula. Se há alguma semelhança nas carreiras, ela está no que acaba de acontecer na recente eleição municipal de São Paulo, em que tivemos a derrota de Marta Suplicy. Da mesma forma que não foi Obama quem ganhou, mas sim a Cruzada AntiBush, também não foi Gilberto Kassab quem ganhou em São Paulo, mas sim a rejeição a Lula e ao PT.

Não no ABC, mas na Capital, existe um antipetismo desenfreado. Os patrões das grandes indústrias do ABC, bem como os executivos de primeiro e segundo escalão (enfim, a classe dominante), moram em Sampa, com seus carrões, apartamentos e casas de luxo. E sempre odiaram Lula por ele ter feito as célebres greves que desestabilizaram a produção, nos anos 70 e 80. Desde aquela época, Lula é mais odiado do que amado pelos paulistanos. Já os trabalhadores do ABC moram mais no ABC, onde o apoio a Lula é muito grande, a rejeição é bem menor.

Na verdade, Lula é o pai do grande movimento sindical dos anos 70, que encheu muito o saco das classes dominantes. O preconceito emergiu justamente daí. Como têm a grande mídia a seu lado, as classes dominantes disseminaram entre os paulistanos, em que predomina a classe média, a idéia de que Lula, socialista e ainda por cima nordestino, desestabilizou o setor industrial do ABC com suas greves. Como essa faixa é altamente preconceituosa, forjou-se um antipetismo, ou melhor, um anti-lulismo que acabou se tornando crônico na Capital e até hoje é muito forte.

De repente, entra em cena uma sexóloga que, rica e burguesa, prometia esvaziar esse antipetismo: Marta Suplicy. Para chegar lá, precisava fazer uma brilhante administração na Prefeitura, sepultando finalmente o preconceito contra Lula. Mas, sem dinheiro para fazer obras e ingênua em matéria de política, instituiu o imposto do lixo. E, arrogante, começou a falar muita abobrinha, tornando-se antipática, até chegar ao indefectível “relaxe e goze”, durante a crise no setor aéreo. Resumo da ópera: em vez de diluir o antipetismo na Capital, acirrou-o ainda mais.

Aí, Marta volta para tentar a reeleição e toma de lavada. Não foi Gilberto Kassab quem ganhou e acabou guindado a político de primeira linha, com pretensões a se tornar presidenciável. Foi o antipetismo que a população paulistana tornou vitorioso mais uma vez nas urnas, tanto que o apoio rasgado de Lula a Marta, principalmente no segundo turno, só ajudou a derrubar ainda mais a candidatura dela. Por que Alckmin nem chegou perto? Porque o paulistano tem raiva dele, por não ter dado nem pro cheiro, contra Lula, na última eleição presidencial. Alckmin simplesmente deixou de atender ao maior anseio da maioria da população paulistana, que era ver Lula longe do poder.

Enfim, é só nisso que Obama e Lula se assemelham. Ele não foi o primeiro negro que se tornou presidente dos EUA, foi o branco Bush que saiu escorraçado dela, da mesma forma que não foi Kassab o vitorioso, mas sim o petismo que se viu banido de São Paulo, até quando não sei. É preciso aceitar isto: o sonho de Luther King ainda não se realizou. Realizar-se-á só no dia em que, no pau-a-pau, um negro bater um branco e chegar à presidência dos EUA, sem crise para ajudar.

E agora Obama tem essa difícil missão de salvar o capitalismo americano sem arranhar o restante do mundo. Quero ver como vai se sair dessa. Era o meu candidato (também sou cidadão estadunidense), mas, qualquer que fosse, branco ou negro, teria esse mesmo rojão pela frente, uma parada pra lá de indigesta. Abraços a todos, Tom Capri.

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