Reflexões

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.

Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)

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agosto 22, 2009

Um terceiro deus, By Saramago

Creio que as teses de Huntington sobre o “choque de civilizações”, atacadas por uns e celebradas por outros aquando do seu aparecimento, mereceriam agora um estudo mais atento e menos apaixonado. Temo-nos habituado à ideia de que a cultura é uma espécie de panaceia universal e de que os intercâmbios culturais são o melhor caminho para a solução dos conflitos. Sou menos optimista. Creio que só uma manifesta e activa vontade de paz poderia abrir a porta a esse fluxo cultural multidireccional, sem ânimo de domínio de qualquer das suas partes. Essa vontade talvez exista por aí, mas não os meios para a concretizar. Cristianismo e islamismo continuam a comportar-se como inconciliáveis irmãos inimigos incapazes de chegar ao desejado pacto de não agressão que talvez trouxesse alguma paz ao mundo. Ora, já que inventámos Deus e Alá, com os desastrosos resultados conhecidos, a solução talvez estivesse em criar um terceiro deus com poderes suficientes para obrigar os impertinentes desavindos a depor as armas e deixar a humanidade em paz. E que depois esse terceiro deus nos fizesse o favor de retirar-se do cenário onde se vem desenrolando a tragédia de um inventor, o homem, escravizado pela sua própria criação, deus. O mais provável, porém, é que isto não tenha remédio e que as civilizações continuem a chocar-se umas com as outras.

África, By Saramago

Em África, disse alguém, os mortos são negros e as armas são brancas. Seria difícil encontrar uma síntese mais perfeita da sucessão de desastres que foi e continua a ser, desde há séculos, a existência no continente africano. O lugar do mundo onde se crê que a humanidade nasceu não era certamente o paraíso terrestre quando os primeiros “descobridores” europeus ali desembarcaram (ao contrário do que diz o mito bíblico. Adão não foi expulso do éden, simplesmente nunca nele entrou), mas, com a chegada do homem branco abriram-se de par em par, para os negros, as portas do inferno. Essas portas continuam implacavelmente abertas, gerações e gerações de africanos têm sido lançados à fogueira perante a mal disfarçada indiferença ou a impudente cumplicidade da opinião pública mundial. Um milhão de negros mortos pela guerra, pela fome ou por doenças que poderiam ter sido curadas, pesará sempre na balança de qualquer país dominador e ocupará menos espaço nos noticiários que as quinze vítimas de um serial killer. Sabemos que o horror, em todas as suas manifestações, as mais cruéis, as mais atrozes e infames, varre e assombra todos os dias, como uma maldição, o nosso desgraçado planeta, mas África parece ter-se tornado no seu espaço preferido, no seu laboratório experimental, o lugar onde o horror mais à vontade se sente para cometer ofensas que julgaríamos inconcebíveis, como se as populações africanas tivessem sido assinaladas ao nascer com um destino de cobaias, sobre as quais, por definição, todas as violências seriam permitidas, todas as torturas justificadas, todos os crimes absolvidos. Contra o que ingenuamente muitos se obstinam em crer não haverá um tribunal de Deus ou da História para julgar as atrocidades cometidas por homens sobre outros homens. O futuro, sempre tão disponível para decretar essa modalidade de amnistia geral que é o esquecimento disfarçado de perdão, também é hábil em homologar, tácita ou explicitamente, quando tal convenha aos novos arranjos económicos, militares ou políticos, a impunidade por toda a vida aos autores directos e indirectos das mais monstruosas acções contra a carne e o espírito. É um erro entregar ao futuro o encargo de julgar os responsáveis pelo sofrimento das vítimas de agora, porque esse futuro não deixará de fazer também as suas vítimas e igualmente não resistirá à tentação de pospor para um outro futuro ainda mais longínquo o mirífico momento da justiça universal em que muitos de nós fingimos acreditar como a maneira mais fácil, e também a mais hipócrita, de eludir responsabilidades que só a nós nos cabem, a este presente que somos. Pode-se compreender que alguém se desculpe alegando: “Não sabia”, mas é inaceitável que digamos: “Prefiro não saber”. O funcionamento do mundo deixou de ser o completo mistério que foi, as alavancas do mal encontram-se à vista de todos, para as mãos que as manejam já não há luvas bastantes que lhes escondam as manchas de sangue. Deveria portanto ser fácil a qualquer um escolher entre o lado da verdade e o lado da mentira, entre o respeito humano e o desprezo pelo outro, entre os que são pela vida e os que estão contra ela. Infelizmente as coisas nem sempre se passam assim. O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses. Em tais casos não podemos desejar senão que a consciência nos venha sacudir urgentemente por um braço e nos pergunte à queima-roupa: “Aonde vais? Que fazes? Quem julgas tu que és?”. Uma insurreição das consciências livres é o que necessitaríamos. Será ainda possível?

Em África, disse alguém, os mortos são negros e as armas são brancas. Seria difícil encontrar uma síntese mais perfeita da sucessão de desastres que f

agosto 15, 2009

Saúde pública: entre porcos e cavalos

A primeira pandemia de influenza no século XXI, declarada pela OMS (Organização Mundial de Saúde), tem realmente assustado muitas pessoas pelo mundo afora. No Brasil, a desconfiança e a falta de informação generalizam-se.

Poucos dados comparativos em relação aos demais tipos gripes são divulgados, e quando são, o fato repercute pouco. Por exemplo: há duas semanas foi noticiado que no ano de 2008 morreram 17 pessoas por dia em São Paulo de outros tipos de gripe e ninguém se amedrontou! O que nos leva à desconfiança em relação ao pânico criado em torno do vírus influenza A H1N1: o que estará por trás das manchetes da mídia e da histeria global?

Tendo sido detectada inicialmente nos EUA e no México, a chamada gripe suína se espalhou pelo globo, mobilizando autoridades sanitárias e amedrontando grande parte da população mundial. Recorrentemente, ora aqui e outra ali, o medo evolui para o pânico irracional, que é hoje planetário. De modo que se torna indispensável racionalmente tentar entender melhor esses fatos. Senão, vejamos!

Tornou-se senso comum entre nós que o único remédio para a tal gripe é o hoje mundialmente conhecido Tamiflu, cujo princípio ativo é o fosfato de oseltamivir e sua patente pertence a uma indústria farmacêutica, a Roche, a qual, para a sua felicidade e de seus acionistas, não está tendo condições estruturais para atender à imensurável demanda. Tanto que recente comunicado a Roche disse em nota que “A produção de Tamiflu foi aumentada para alcançar um resultado máximo de 36 milhões de kits por mês, equivalente a 400 milhões de kits de tratamento (4 bilhões de cápsulas) por ano.

Contudo, o que é pouco divulgado é que a empresa que patenteou o tão desejado Tamiflu, em 1996, foi a companhia farmacêutica norte-americana Gilead Sciences. Um ano depois, Donald Rumsfeld, que era integrante da direção da empresa desde 1968, foi nomeado seu presidente, posto ocupado até 2001, quando assumiu a Secretaria de Defesa do Governo Bush. O mesmo governo que em 2005 destinou mais de um bilhão de dólares para a produção de mais 20 milhões de doses de Tamiflu, sob o argumento de defender a saúde do povo americano.

De fato, a saúde pública virou um grande negócio, que foi otimizado com a pandemia causada pelo influenza A H1N1. Para não ficar atrás, o Brasil repete a vergonhosa prática politiqueira de privilegiar as elites com os recursos públicos.

Em época de pandemia, com o número de mortes no país crescendo, soube-se que o evento AOIHS (Athina Onassis International Horse Show) 2009, uma competição que reúne a fina flor da elite mundial, recebeu verba pública. Entre os números divulgados se fala em R$ 9.000.000,00.

Considerando que o SUS teria condições de fazer o exame de sangue de reação em cadeia de polimerase – conhecido como PCR, do inglês, polymerase chain reaction -para detectar o virus H1N1 a um custo aproximado de R$ 20,00, poderíamos utilizar esse dinheiro para fazer simplesmente 450.000 exames, o que permitiria um estudo epidemiológico adequado para nortear as ações públicas para controle da pandemia em nosso país.

Por que não se faz isso? Porque os governantes parecem ter um estranho fetiche por cavalos. Já dizia o presidente João Figueiredo que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Talvez ele apenas seguisse o Imperador Romano Calígula, que nomeou seu cavalo Incitatus como senador. Uma escolha que, diante da situação atual do Senado, poderia até ser considerada sensata. Não admira, portanto, que governos federal, estaduais e municipais prefiram acolher cavalos ao invés de socorrer o povo.

Temos assim, duas injustiças. A injustiça maior, sofrida pelo povo, tanto por governantes que gastam mal recursos que poderiam salvar vidas em favor do divertimento de abastados, como por autoridades públicas que se omitem em fiscalizar e coibir essa festa mórbida. E, reconheçamos, a injustiça menor sofrida pelo porco, que nessa história empresta indevidamente o nome à gripe e tem usurpada, mais uma vez, sua exclusividade em chafurdar no lodo.

Marcos Francisco Martins – filósofo e doutor em Educação

Liris Delma de Lima e Silva Azevedo – médica e mestre em Educação

Onde é mesmo que fica o Brasil?

O artigo é de Flávio Aguiar.

Ruína de Yeda e omissão da imprensa

O artigo é de Luiz Antonio Magalhães.

agosto 10, 2009

Para refletir

Uma vez numa época distante , que podia ser agora, um velho Senhor resolveu por despeito , inventar , que um vizinho que ele detestava , era ladrão.

Tanto repetiu esse boato que o vizinho foi preso.

Depois de findas as investigações , concluiu-se que o vizinho era inocente e este processou o velho Senhor.

No tribunal e em sua defesa , o velho Senhor disse , que um pequeno boato não podia provocar tanto mal que justificasse um castigo.

O juiz ouviu e disse-lhe:

- Escreva um boato num papel , quando terminar , rasgue-o em bocadinhos muito pequeninos e jogue-os perto da sua casa.

Amanhã darei a sentença.

O Senhor obedeceu e no dia seguinte voltou ao tribunal.

O Juiz disse:

- Antes de ouvir a sentença , o Senhor terá que apanhar todos os bocadinhos do papel que ontem rasgou e jogou fora perto de casa.

O velho
Senhor respondeu:

- Não posso fazer isso , o vento já os espalhou por todo o lado , não sei onde foram parar.

Então o Juiz disse:

-Igual aos pedacinhos de papel que voaram e não se sabe onde estão, são as palavras falsas de um boato, que ao andarem de boca em boca , como arrastadas pelo vento , podem destruir uma vida, a honra de alguém , a ponto de não podermos nunca mais consertar o dano feito.

Quando não pudermos falar bem de alguém , manda a prudência que não se diga nada.

As palavras tal como as pedras são armas de arremesso que depois de atiradas jamais se pode remediar o estrago.

Quando não temos o senso de pensarmos antes de falar , seremos escravos das nossas palavras.

Somos Reis do que calamos e somos escravos do que dizemos.

agosto 07, 2009

Itaipú: Paraguai quer usar recursos para desenvolver o país

Os interesses econômicos que sustentam o golpe em Honduras

Carta Maior

A geopolítica e a geoeconomia das nações no início do século XXI

As transformações geoeconômicas e as reconfigurações geopolíticas deste início de século XXI explicitam a natureza do poder capitalista em geral, mas não evidenciam a derrocada do poder norte-americano em particular. Essa é uma das teses centrais do livro "O mito do colapso americano" (Record), de José Luís Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano, que consagra uma década e meia de reflexões críticas sobre as transformações nas relações entre poder e dinheiro, Estados e moedas, no capitalismo contemporâneo.
A resenha é de William Vella Nozaki.

MP Federal pede afastamento da governadora Yeda Crusius

O Ministério Público Federal protocolou nesta quarta-feira, junto à Justiça Federal, uma ação civil de improbidade administrativa contra a governadora Yeda Crusius (PSDB), o marido desta e mais sete pessoas, entre elas, um deputado federal, dois estaduais e o atual presidente Tribunal de Contas do Estado do RS. Pesam sobre eles acusações de enriquecimento ilícito, dano ao erário e infração de princípios administrativos, crimes relacionados à fraude que desviou cerca de R$ 44 milhões do Detran gaúcho. O MP Federal pede, entre outras coias, o afastamento da governadora e o bloqueio de bens da mesma.
Carta Maior

Ilha das flores

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