Reflexões

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.

Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)

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setembro 27, 2009

A crise do Senado era para desestabilizar o governo, Por Glauco Faria e Renato Rovai

Na entrevista a seguir, Berzoini relembra a crise de 2005, avalia a relação do PT com o governo e reflete a respeito dos desafios que Dilma Rousseff e o partido terão nas eleições de 2010. Também analisa o impacto da internet no processo eleitoral e critica o comportamento do senador Eduardo Suplicy. “Um partido político precisa ter coesão, não acredito em carreira solo.”


Fórum – Para começar, faça uma avaliação do momento em que o senhor assumiu a presidência do PT, no auge de uma grande crise partidária?
Ricardo Berzoini –
Assumi em outubro de 2005, em meio àquela grande crise. Naquele momento tinha certeza de que estávamos enfrentando a maior crise da história do partido, que teríamos um grande desafio para organizar uma resistência para enfrentar a oposição partidária e midiática, que queriam desconstruir a trajetória do PT. O Tarso Genro foi indicado para presidente, eu para secretário-geral, o José Pimentel para tesoureiro e o Humberto Costa para comunicação.

Fórum – Aquela nova direção começou com sinais de crise, não? O Tarso tinha uma visão de refundação do partido...
Berzoini –
Eu não tinha problemas com a palavra refundação, se fosse na visão de reforçar nossos fundamentos. Disse mais de uma vez. Sei que havia polêmicas dentro do partido, pois essa palavra tinha diferentes leituras. Só que o Tarso naquele momento tinha uma visão de refundação para reformular a correlação de forças, e isso, somado a uma sabatina dele na Folha [hiperlink – na sabatina, realizada em agosto de 2005, Tarso Genros fez várias críticas ao partido, o que causou mal-estar em diversos membros. Entre outras declarações, afirmou que "se o PT se fosse uma empresa, teria que fechar, no mínimo, abrir uma concordata" por conta da crise política], mais outros pronunciamentos, fizeram com que perdesse força para liderar o processo. Era necessário lidar com a realidade e a correlação de forças interna, que era fruto da vida real. A ala majoritária tinha bases fortes nos movimentos sociais, em vários setores, não era uma coisa artificial. Naquele momento, o Tarso, lamentavelmente, disse que não tinha condições de assumir a candidatura a presidência pelo nosso grupo. Houve, então, uma reunião e meu nome foi indicado, mas não por unanimidade. Mas de qualquer forma minha candidatura acabou se consolidando no processo e ganhamos a presidência fazendo 42% do diretório. Mas é preciso dizer que eu não reivindicava ser o candidato e deixei isso bem claro. Aceitei o desafio como uma tarefa.

Fórum – O Tarso não aceitava participar de uma chapa em que o ex-ministro José Dirceu estivesse. Como foi essa história?
Berzoini –
A verdade é que havia um entendimento do próprio José Dirceu de não participar daquele processo, para evitar o oportunismo de certos setores. Eu, pessoalmente, tinha tratado disso com ele. Mas o Tarso deu uma entrevista em Brasília em que falou que era uma exigência dele a não participação do Zé. Quando leu isso, o Zé Dirceu decidiu que, como ultimato, não aceitava a condição.

Fórum – Existe uma história de que numa reunião do então Campo Majoritário quando ia ser votada da permanência ou não do Zé na chapa ele falou que se aquilo ocorresse iria na semana seguinte para a oposição?
Berzoini –
Isso nunca aconteceu.

Fórum – Mas muitos ameaçaram sair e outros saíram do partido à época...
Berzoini –
Tinha gente que já estava para sair do PT. Mas de qualquer forma passamos meses com pessoas em dúvida se deveriam ficar ou não no partido e alguns decidiram sair. A verdade é que havia uma perplexidade generalizada, poucos assumiram uma postura de enfrentamento ao cerco que fizeram ao PT. Era decisivo defender o nosso patrimônio político, fazer nossa defesa histórica frente aos partidos de oposição, inclusive da oposição midiática, que tentavam acabar com o PT. Naquele momento, não tenho dúvidas de que houve a intenção por parte da oposição de derrubar o presidente. Mas quando o Lula começou a ir para as ruas e falar com a população, eles tiveram dúvidas sobre o impacto que aquele tipo de ação teria na sociedade. A oposição percebeu que o Lula era um líder popular e que eles não tinham um líder popular. Ou seja, aquela tentativa de golpe poderia levar a uma grande incerteza política no país. Aí apostaram no desgaste do presidente e do PT e acharam que iam ganhar dessa forma as eleições de 2006


Fórum – Fazendo uma avaliação daquela situação, quais os acertos e os erros do PT e do governo?
Berzoini –
Digo o que disse na época. Ao PT não é permitido fazer o que os outros fazem. Ali se abre um grande debate sobre o financiamento de campanha no Brasil, como se financia campanhas, quem financia, porque financia, como financia. Isso nunca havia sido discutido profundamente nem pela grande mídia, nem pelo povo. No início do governo, a aposta da direita neoliberal era de que PT não teria quadros para dirigir o país e de que a oposição seria chamada para arrumar a casa. Mas em 2004 e 2005, o governo já iniciava processo de decolagem do crescimento econômico, gerou 1,5 milhão de empregos com carteira assinada em um ano, o Bolsa-Família foi implantado, o Luz para Todos avançava, o Prouni chegando. Nós estávamos construindo um caminho para mostrar que era possível governar de forma diferente. Aí vem a história fictícia do mensalão. O PT errou na reprodução de práticas características do governo anterior nos modelos de financiamento, mas não teve nada de mensalão. Quando conseguimos reagir, mudamos o jogo. Vamos falar da ética e da legalidade. A ética da política brasileira, até 2005, era de que a contabilização dos recursos de campanha ficava em segundo plano. Essa era a lógica. A outra coisa é você discutir como um partido de esquerda se financia. Se não tem financiamento público de campanha não podemos dizer que não aceitamos recursos de ninguém. Então, qual a relação que se deve ter com o empresariado? Tem que buscar recursos dentro da legalidade. O problema foi criar uma dependência sistêmica de um determinado esquema de financiamento, que foi gestado no PSDB mineiro, no caso, o Marcos Valério.


Fórum - A questão do financiamento de campanha está resolvida no partido?
Berzoini –
Não, não está resolvida. Por uma razão muito simples: não existe financiamento público. As campanhas são caras de uma maneira geral e não sei por que há uma resistência tão grande no Congresso em colocar um teto para os gastos. Na televisão, por exemplo, a coisa virou um leilão de marqueteiros. Tem que ter estrutura de informática, de contabilidade, de advogados, deslocamento do candidato...

Fórum – Mudar isso não tem relação com a reforma política? Qual a sua posição quanto ao voto em lista?
Berzoini –
A posição do PT é o voto em lista puro, financiamento público de campanha e fidelidade partidária rigorosa, não só para quem tem mandato. Quem sair do partido, com mandato ou não, tem ficar um tempo sem poder se candidatar a cargo nenhum. Esse negócio de sair do partido para se candidatar é romper com o conceito de fidelidade.

Fórum – Por que o voto em lista?
Berzoini –
Porque acaba com a fulanização na política. Passa-se a votar na proposta partidária.

Fórum – E o voto distrital?
Berzoini –
Com o voto distrital, o deputado pensa que precisa de só uma coisa para se reeleger, cuidar bem das emendas que favoreçam a região dele. Se no sistema proporcional já é assim, imagine em um sistema regionalizado. Não estou fazendo uma crítica moral, é uma crítica ao sistema, pois o deputado deixa de ser programático, de pensar em temas e passa a ser só um despachante para aprovar emendas.

Fórum – Você defende o unicameralismo?
Berzoini –
Defendo. Nossa federação é enviesada. O Senado, se é para existir, tem que tratar apenas de assuntos relativos aos estados, questões tributárias, meio ambiente, coisas que envolvam a representação estadual. As questões federativas devem ficar só na Câmara.

Fórum – E a atual crise no Senado?
Berzoini –
O que aconteceu no Senado foi uma grande crise midiática criada pela oposição para desestabilizar o processo político brasileiro, não tem nada a ver com o Sarney. Ele é a bola da vez, tanto que a mídia é complacente com o Artur Virgílio, com o Heráclito Fortes, com o jatinho do Tasso Jereissati. A oposição não tem discurso na economia, nas políticas sociais, na política externa. Apostou na crise financeira mundial, ironizou quando o Lula falou em marolinha, e agora DEM, PSDB e PPS estão se afogando na marolinha. Daí, só resta produzir crises no parlamento. A nota que eu mandei à bancada do PT é clara: não conciliamos com irregularidades, mas não aceitamos o joguinho de uma oposição que sempre se lambuzou nas irregularidades do Senado, como demonstraram várias denúncias, inclusive contra o líder do PSDB. O que eles queriam era desestabilizar o governo.

Fórum – Mas, o PT também não é um pouco complacente com alguns senadores? Não deveria fazer mais o papel de denúncia?
Berzoini –
É claro que algumas pessoas que foram denunciadas têm questões morais que podem ser questionadas. Mas o que se estabeleceu foi uma manobra para tirar o Sarney e colocar um tucano na presidência, e não investigar mais nada. Seria o cúmulo da ingenuidade ou hipocrisia acreditar que o PSDB e o DEM, a esta altura, resolveram dar lições de ética no Senado.

Fórum – O Conselho de Ética do Senado cumpre o seu papel? Deve ser extinto?
Berzoini –
É ingenuidade pensar que um órgão interno do parlamento não sofre interferências políticas, seja para absolver, seja para condenar .Veja a cassação do Zé Dirceu. Foi um ato totalmente político, sem nenhuma prova.

Fórum – O que o partido precisa fazer para retomar o protagonismo em certos setores, como a juventude, e pensar novos rumos?
Berzoini –
Existia um mito de que o PT era hegemônico em certos setores, mas o partido sempre foi minoria no Brasil. O Lula conseguiu consolidar uma maioria para ser presidente, com alianças e só em 2002. Na juventude intelectualizada houve uma migração. No esquerdismo, há opções, como PSOL, e o PSTU. Alguns descambaram para a direita. O PT cresceu muito na juventude popular, entre os jovens que quando conseguem ir para a faculdade, é com o Prouni ou nos novos campi do Nordeste, identificamos essa migração. O PT hoje está muito mais forte no imaginário social.

Fórum – Você percebe que, na mudança de perfil, apesar de haver um aumento na preferência, o militante do PT está mais acomodado, ou seja, não tem mais o militante que vai para a rua que hoje está sendo substituído pela militância paga?
Berzoini –
Quando o partido vai para a grande disputa e começa a ser uma alternativa real de poder, há uma tentação muito grande de reproduzir os métodos tradicionais da política. Pessoalmente, tenho resistência ao assalariamento de militância, que na verdade nem é militância, são pessoas contratadas para cumprir funções de propaganda. Nós precisamos fazer o elogio da militância e da participação popular. E não é verdade que isso não exista mais. Existe. A presença do militante que faz campanha por vontade política é indispensável. Num partido de esquerda, o maior desafio é não permitir que o poder de empregar seja determinante na opção política.

Fórum – O senhor falou “em um partido de esquerda”, o PT ainda é um partido de esquerda?
Berzoini -
Claro, toda a nossa perspectiva baseia-se no horizonte de uma sociedade socialista democrática, na qual valorizem-se o papel do Estado e da democracia participativa, e que trate a economia como um meio para produção de riquezas. No nosso entendimento a democracia é o caminho para garantir a máxima distribuição dessa riqueza e dos direitos sociais fundamentais.

Fórum – Mudando um pouco de assunto, dentro do cenário político, que papel podem exercer as novas tecnologias, como os blogues, o Twitter etc.?
Berzoini –
O Twitter é um espaço para pequenas reflexões, indicações e até provocações, mas não pode ser um porta-voz. A internet é um grande espaço, não só na política, pois ela avança inexoravelmente. Mas, vamos lembrar, política não se faz só na internet, se faz na ocupação do espaço público, com os debates presenciais e as demonstrações de rua.

Fórum – Na sua experiência como presidente do PT, como avalia a relação com os conglomerados midiáticos? E como a ação política pode mudar o cenário midiático?
Berzoini –
Quando eu tinha uns dez, onze anos, comecei a me interessar por política e fui ler um desses jornalões. Meu pai me disse: “quer ler, pode ler, mas lembre-se que o jornal tem dono, que tem seus interesses”. Como se sabe, os meios pertencem a poucas famílias no Brasil. Lamentavelmente, a esquerda brasileira, e eu me coloco nisso, não conseguiu construir uma alternativa aos veículos tradicionais. Não é só por falta de vontade, mas a questão econômica é difícil. Quanto à relação com a mídia, o grau de preconceito, de deformação da notícia, é enorme, Quem fizer um levantamento vai notar facilmente a diferença de tratamento em relação ao Fernando Henrique e ao o Lula. Mas o Lula desenvolveu uma estratégia de comunicação com a população e, mesmo na mídia pautada, ele consegue transmitir o seu recado. O PT nem tanto. Mas, na internet, os petistas militantes têm conseguido desenvolver um espaço fantástico.

Fórum - Tirando a internet, os avanços em relação à democratização da comunicação no período deste governo foram poucos. O senhor também avalia que faltou enfrentar os oligopólios do setor?
Berzoini –
A grande capacidade política do governo Lula foi lidar com isso de maneira suave. O PT buscou, no processo político, fazer a interação nessa área, mas isso, realmente, é um grande assunto nacional que talvez seja superado no médio prazo.

Fórum – Como o senhor acha que deve ser construído o programa do projeto político Dilma, de um terceiro mandato para o PT?
Berzoini –
Com a apropriação do patrimônio extraordinário do governo Lula. E nesse sentido a Dilma é ótima, pois ela está no centro do governo. Política de valorização salarial, programas de transferência de renda, o Luz para Todos, Prouni, o PAC, realizações que, inclusive muitos petistas, não acreditavam que aconteceriam.
Mas não se ganha eleição somente dizendo “eu fiz isso”. A agenda de 2006 continua atual. O programa do Lula era desenvolvimento nacional com distribuição de renda e educação de qualidade. Para mim, o centro do programa tem que ser a revolução educacional. Não com a visão funcionalista de alguns políticos e economistas que dizem que temos que preparar somente mão-de-obra para o mercado. Precisamos preparar o cidadão para o Brasil que nós queremos. Esse cidadão tem que ter visão humanista, do estado democrático de Direito e capacidade de aprendizado permanente para ter a cabeça para as tecnologias do século 21. A dimensão ambiental também é fundamental. O Brasil tem que ser o país mais verde do mundo, mas não fazer só o preservacionismo, mas seguir no sentido do desenvolvimento sustentável. A terceira questão é o padrão de financiamento do projeto. Tem que ter um sistema financeiro capaz de financiar novos investimentos, com poupança interna, e não depender só de investimentos externos. Precisamos de reservas para enfrentar a agressividade do sistema financeiro.

Fórum – Como o senhor vê a saída da Marina Silva do PT? E com a possível candidatura dela, como vai ser trabalhada a questão da sustentabilidade pelo partido, já que foi fundamentalmente nessa questão que ela e a Dilma tiveram enfrentamentos no governo?
Berzoini –
Primeiro, é preciso ressaltar que a Marina fez um debate decente no partido, dialogou com muita gente. Tive uma reunião muito respeitosa com ela e ela tomou a decisão que vocês conhecem. E eu respeito, apesar de não concordar. O PT é um espaço privilegiado para fazer o debate que ela quer. Se ela ficasse, teria muito mais a ganhar no objetivo de realizar o debate. Ela poderia ser candidata a presidente do partido, por exemplo, e poderia disputar prévias com essa agenda. O PT está sempre preparado para prévias, o Suplicy disputou com o Lula em 2002. Difícil dizer, agora, como será o processo eleitoral. Espero que ela esteja ao lado do PT em muitos momentos. Mas é óbvio que pode haver enfrentamentos. No governo, a Marina achou que estava emparedada pela questão do desenvolvimento. O que defendo é que façamos uma síntese dessas duas vertentes para avançar o máximo possível na questão da sustentabilidade.

Fórum – Para 2010, o PT tem necessariamente que fazer aliança com o PMDB? E até onde pode pagar o custo dessa aliança? A crise no Senado é um custo?
Berzoini –
O que acho é que nós temos que mostrar para o povo que a aliança é para governar o país. Uma aliança que já governa e quer continuar um projeto de desenvolvimento. Na política, se paga preço o tempo todo. Digo com todas as letras: a mídia descobriu, depois de 50 anos, o patrimonialismo no Senado. E só fez isso no governo Lula. O DEM está na primeira secretaria em 10 dos 14 anos que estão caracterizados como o pior da história do Senado e a mídia não aponta o dedo para o DEM. A questão da aliança tem que ser tratada com muito carinho. Digo que é preciso ter nervos de aço e coração preparado. O PMDB tem representatividade institucional na Câmara e no Senado, tem capilaridade. Mas, por outro lado, o PSB, que é nosso aliado, tem três governadores. Eles também têm legitimidade para pleitear o lugar de vice na chapa.


Fórum – O PT tem candidato para governador em São Paulo?
Berzoini –
Tem várias opções, Discordo daqueles que dizem que tem que sair de Palocci, Mercadante ou Marta. Nas pesquisas, Mercadante e Marta são os mais fortes. Emídio, Palocci e Haddad se equivalem. Acho que o Ciro estaria disposto a concorrer se a candidatura vier a fazer parte de um projeto nacional. Em São Paulo, a questão que está colocada é esta: ou é alguém do PT ou é o Ciro.

Fórum – O que você achou da atitude do Suplicy no Senado em relação ao Sarney, o episódio do cartão vermelho?
Berzoini -
Um partido político precisa ter coesão, não acredito em carreira solo. Fizemos um grande esforço para enfrentar a crise no Senado e a partir do momento que uma pessoa, sabendo disso, toma uma atitude assim, mostra que não foi uma atitude que respeita o coletivo, foi uma atitude de carreira solo. Não é meu modo de fazer política, que é coletivo. E meu coletivo chama-se PT.

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