Reflexões

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.

Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)

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junho 15, 2013

SÃO PAULO, 13 DE JUNHO DE 2013


(*) Tiago Marconi, cineasta


Fazia tempo que eu não ia a uma manifestação. Ontem passei o dia tentado a ir ao quarto ato  contra o aumento da tarifa de ônibus, nem tanto pela causa da tarifa, obviamente legítima (nunca fui a uma manifestação do MPL antes), mas pela dimensão que o protesto tomou na  terça-feira, pelo simples ato de tomar as ruas por uma causa legítima, o que não deveria sequer ser uma questão num estado democrático de direito. Depois de resistir bastante por ter outras coisas para fazer, acabei convencido a ir. Era bem possível que eu não conseguisse trabalhar e ficasse lendo notícias da manifestação, portanto valia mais pegar o metrô e ver a cara da coisa acontecendo do que ler os relatos dos outros.

Na estação República, encontrei uma velha conhecida de infância, amiga de adolescência, da minha idade (31) e certamente veterana de manifestações, com cara  desconfortável, não de um medo imediato, mas de um sentimento ruim. Carregava um tripé e, ao lado do marido (que fez questão de chamar de companheiro), disse que tinha dois filhos para criar e para eu ter cuidado. Eu só sabia de um filho mas nem consegui perguntar nada. O que seria uma conversa besta e gostosa entre velhos conhecidos que provavelmente não voltarão a se encontrar tão cedo foi interrompida pela tensão da cidade. Eles tinham que ir, eu também, encontrar outra amiga. No Teatro Municipal, tudo estava lindo, como continuou até a Consolação, onde a PM foi pra cima (e é sempre assim, hoje até o Elio Gaspari escreveu, mas é sempre assim).  Estava meio claro que aconteceria. Saímos do meio da confusão, atravessei a Consolação, cheirando meu vinagrinho num lenço do centenário do Corinthians, e fui andando entre os carros parados na Caio Prado.

Os carros  parados. A ironia, essa espécie de deusa pagã, colocou o engarrafamento recorde do ano entre o protesto de terça e o de quinta, numa quarta-feira ordeira e pacata na megalópole (nem Corinthians teve). A reivindicação do direito de ir e vir para legitimar a repressão, portanto, provoca imediato riso em qualquer paulistano minimamente sensível a ironia, a despeito de viés ideológico. Sem contar que é simples assim: numa democracia, pessoas têm o direito de  se juntar e fazer passeata por qualquer motivo e os carros devem esperar.

Discussão de direitos à parte, o fato é que o pau comia. Subimos a Augusta, até que percebi que o longo quarteirão entre a Marquês de Paranaguá e a Dona Antônia de Queirós estava muito cheio de manifestantes, carros e ônibus, e é fundamental ter para onde correr, desviamos para a Frei Caneca, com a idéia de ir para a Paulista. Quando vimos que o Choque bloqueava a Frei Caneca, pensei em subir pela Peixoto Gomide, mas acabamos resolvendo voltar pro Centro. Na Augusta, vinha o Choque, na Haddock Lobo, vinha o Choque, na Bela Cintra, não sei mas imagino, na Consolação, vinha o Choque. Paramos na Angélica. Descemos pro Centro, para a casa da minha amiga, de lá para um bar na Santa Cecília, encontrar outros amigos que estavam na manifestação. Isso já eram dez horas da noite. As bombas na Consolação foram às sete. Saindo do metrô, os funcionários estavam fechando a porta, pessoas corriam pra entrar (populares correndo sempre melhoram a história), subimos, vimos uma turma de uns 30 ou 40 manifestantes, gritando, indo em direção ao metrô, mas com todo jeito de quem simplesmente ia embora. Se eu tiver algum leitor de fora de SP: a Santa Cecília não tinha nada a ver com o trajeto da passeata, pensando no Centro como um mapa múndi, seria como sair da Europa pro Brasil e acabar nos EUA. Optamos por dar a volta na igreja e não passar na muvuca, decisão muito sábia, pois quando saíamos  do Largo da Santa Cecília, 5 viaturas Blazer passaram no sentido dela e, já na esquina da Frederico Abranches com a Dona Veridiana, passamos por PMs que avançavam resolutos e gritavam entre si "cadê a 12?", "quem está com a 12?".  Assustado, não parei para ver o que aconteceu com os manifestantes que ficaram entre as portas fechadas  do metrô Santa Cecília e os quase 40 PMs. Andamos um pouco mais até o bar, onde ficamos ouvindo por mais quase uma hora os helicópteros rondando nossas cabeças.

Fui em algumas manifestações desde 2000, com bomba de gás, sem bomba de gás, com correria, sem correria, com uma quantidade desproporcional de policiais, sem quantidade desproporcional de policiais. Vi abusos policiais e sadismo descarado em estádios de futebol. Vi o despejo de uma ocupação de terra, talvez a situação mais triste que presenciei. Mas nunca tinha visto nada parecido com hoje em termos de aparato policial, de duração de uma operação tão grande. Imagino que os policiais devam estar comemorando porque realmente foi impressionante o preparo para bloquear todos os possíveis acessos à Paulista (mas o povo chegou, claro, o povo é o povo) e a disposição para mandar bomba e bala de borracha e porrada com o cassetete em quem apenas estava na rua (manifestante, repórter, transeunte). Devem estar rindo de terem podido prender gente por porte de vinagre.

Dois argumentos contra esses protestos – que aparecem costumeiramente quando tratamos de quaisquer protestos – têm me incomodado. O primeiro é o da depredação de patrimônio público e privado. Numa turma de 10 mil pessoas, a chance de ter quem se comporte como moleque, sendo ou não, é sempre grande, mas é uma minoria ínfima, como se pode ver pelos pequenos estragos que causam. Vidros de estação, vidros de banco (enquanto você lê "vidro de banco", ele já recuperou o prejuízo só nos juros), lixeiras. Seria legal fazer um cálculo (não sou a pessoa para isso) somando o custo de uma operação militar desse porte e dessa duração, mais o custo de atendimento aos feridos nos hospitais públicos, mais os estragos causados pela PM (alguém que sigo no twitter viu a bomba deles entrar no ônibus que foi "queimado por manifestantes"). Se o problema é dinheiro, patrimônio, e eu obviamente não acho que seja, vamos comparar os custos. Mais importante que isso, no entanto, é o fato de que a repressão nunca se restringe a quem comete excessos.

O outro argumento me diz respeito pessoalmente. A tentativa de deslegitimação de um movimento porque os manifestantes são de classe média. Primeiro porque não acho que seja totalmente verdade (e, até onde sei, não existem dados a respeito). E ainda que fosse, nenhum dos supostos privilegiados está ali lutando por seus próprios privilégios, as reivindicações são para todos. Ou alguém acha que evitar o aumento da passagem de ônibus contraria os interesses de quem é pobre e mora longe? O questionamento da violência arbitrária e ilegal tampouco é uma pauta que diga respeito exclusivamente à classe média, pelo contrário. Quando ela acontece nesta parte da cidade, a repercussão é enorme, inclusive.

O terror generalizado de ontem em pleno miolo da metrópole é mais uma chance para pensarmos no papel que atribuímos, enquanto sociedade, a uma polícia militar, essa instituição que carrega o golpe de 64 em seu brasão. Tivemos essa chance no massacre conhecido por Operação Castelinho e na matança de jovens na periferia em reação aos ataques do PCC em 2006, por exemplo (ambas sob o mesmo governador) – situações de execução de criminosos e inocentes, em geral de origem pobre. Se é preciso que a truculência se dê desse lado da ponte para termos essa nova oportunidade, isso mostra que nossos problemas são muito maiores do que a PM simplesmente. Mas, ainda assim, oportunidade, quando aparece, se deve aproveitar.


Nos vemos segunda, dia 17, às 17h, no Largo da Batata. Porque a praça é do povo.

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