Reflexões

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.

Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)

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março 28, 2008

Max Altman: "Inconformados, desolados, consternados"

Foi deflagrada a paz em Santo Domingo pela cúpula do Grupo do Rio. A Folha de S. Paulo, seus colunistas da página 2 e repórteres da editoria Mundo não se conformam. A linha editorial é que os problemas nas fronteiras – que, por sinal, datam de décadas – persistem, são graves, as ações das Farc transbordam as fronteiras, são apoiadas e financiadas por Venezuela e Equador, e o comportamento militarista de Chávez pode ser o estopim de uma confrontação bélica.

Por Max Altman

Exagero? Leiam esse trecho do editorial deste domingo, 9: “O caudilho [Chávez] já havia classificado como legitimamente "bolivariana” a delinqüência sanguinária das Farc. No decorrer da crise, suas ameaças e bravatas encaminhavam-se no rumo de insuflar as hostilidades contra o governo colombiano, cujas ligações com a administração George W. Bush perturbam seu projeto de hegemonia na região.” O esquema de pensamento é simples: “guerra preventiva” contra o terrorismo das Farc e quem as abriga. E se algum aliado bolivariano dos delinqüentes sanguinários e hostil ao governo colombiano quiser impor sua hegemonia na região, chamemos o Bush para resolver a questão.

O Estado de S. Paulo, seus editorialistas, especialistas em armamento e estratégia militar, experts escolhidos a dedo, estão desolados. Insistem em dizer que uma organização criminosa, as Farc ‘por supuesto’, dedica-se há décadas à desestabilização do regime democrático colombiano – nenhuma menção ao paramilitarismo nem ao genocídio político da União Patriótica – e seria necessário um esforço internacional conjunto para uma definitiva vitória contra as Farc. Nenhum país de nossa região e país algum do resto do mundo se ofereceu a este esforço. Exceção: os Estados Unidos do presidente Bush. Hipérbole? Leiam esse excerto do editorial do domingo, 9: “As causas da crise continuam intocadas. Elas se resumem ao apoio que os atuais governos da Venezuela e do Equador têm dado às Farc – o caudilho Hugo Chávez, porque o governo de Álvaro Uribe é um obstáculo a seu projeto de transformar os Andes num quisto socialista, e Rafael Correa, porque anda a reboque de Chávez.” Quisto socialista, ‘that’s the question’.

A Rede Globo, seus apresentadores e âncoras, os estrategas militares, ex-embaixadores em Washington dos tempos da submissão, catedráticos, uma espécie de pitonisas, de relações internacionais e de Direito Internacional, estão consternados. Diante das câmeras exigiam nada menos que o extermínio das Farc e o enfrentamento bélico de quem se atrever a ajudá-las, em nome do ‘direito à perseguição’. Nada de soberania que este é um conceito ultrapassado, e quem a pôs por terra foram os insurgentes, os rebeldes, os guerrilheiros, modernamente chamados genericamente de terroristas.

Inconformados, desolados e consternados – e defendendo as mesmas posições - estão os grandes veículos de comunicação televisivos e rádios-eletrônicos dos diversos países, independente da atitude de seus governos. Foxnews, CNN, El Tiempo de Bogotá, El País de Madrid, El Nacional de Caracas, El Deber de Santa Cruz, La Nación de Buenos Aires, El Mercúrio de Santiago, Diário Hoy de Quito, e por aí vai.

Quem pôde acompanhar pela Telesur a transmissão integral da sessão do dia 7 de março da Cúpula do Clube do Rio assistiu – diante das imagens não cabe a menor dúvida – ao presidente dominicano Leonel Fernández propor, logo após a intervenção do presidente Chávez, e citando nominalmente ao chefe de Estado venezuelano, que os litigantes se dessem as mãos e encerrassem a crise. Foi aí que se viu o presidente Uribe, que por sinal defendeu com competência e ardor as suas posições, dizer que não era homem de egos e levantar-se para seguir em direção a Correa, depois a Chávez e depois a Ortega para os apertos de mão e abraços. Só depois desta cena é que uma comissão de presidentes pôde redigir a declaração de Santo Domingo que reafirmou o respeito à inviolabilidade da soberania de um país, que deu garantias de que ações como esta não se vão repetir, que recebeu da Colômbia desculpas formais pelo episódio e que registrou que os países devem se opor aos grupos irregulares.

A repercussão do episódio não demorou a surgir. O presidente do Peru, Alan Garcia, figadal adversário de Chávez, reconheceu que o presidente venezuelano foi um dos protagonistas do bom acordo e aproximação dos presidentes do Equador e da Colômbia. O chanceler dominicano, Carlos Troncoso, disse que Chávez se comportou como verdadeiro pacifista. Mais longe foi o secretário-geral da OEA, Insulza, ao afirmar que a intervenção do presidente Chávez foi bastante decisiva e tremendamente construtiva. Recordou que Chávez havia dito coisas muito duras nos dias anteriores, porém nesta oportunidade fez um pronunciamento extenso, ponderado, reflexivo, muito conciliador e acredita que isto teve um papel muito importante.

No dia seguinte, tendo ao lado a mãe de Ingrid Betancourt, Chávez roga pela televisão a Marulanda deixar livre esta refém e reafirma que continua disposto a continuar ajudando na libertação de todos os seqüestrados e pela paz na Colômbia. Em outro momento, ordenou que os 10 batalhões deslocados para a fronteira regressassem aos seus quartéis, que fossem restabelecidas as relações com o vizinho país e que o comércio na fronteira com a Colômbia fosse imediatamente normalizado, a ponto do ministro da Fazenda de Bogotá, Oscar Zuluaga, ter declarado que “os fluxos comerciais de 6 bilhões de dólares com a Venezuela e 3,5 bi com o Equador ao ano são realidades que se devem normalizar rapidamente. Serão imediatos os resultados econômicos após os acordos entre os presidentes Uribe, Chávez e Correa.

Convém ressaltar a proposta do presidente Rafael Correa, após a tensão dos dias de crise, de criar um novo organismo continental, sem os Estados Unidos. “Um dos problemas de que a OEA pudesse avançar mais rápido é que os Estados Unidos queriam bloquear todas as tentativas de resolver a questão em favor do Equador. Em um só dia em Santo Domingo se resolveu a crise e vejam a OEA quanto tempo vai tomar”.

Pela primeira vez na história da OEA, que tem sede em Washington, a participação dos Estados Unidos foi rigorosamente marginal. Em Santo Domingo, num ambiente latino-americano, em meio à discussão franca e direta, uma solução pacífica ao conflito foi encontrada. Trata-se de uma vitória histórica dos países da América Latina, de sua soberania e autodeterminação, da paz entre povos irmãos, um marco a clamar ‘somos os donos de nosso nariz’, de insubmissão aos tradicionais desígnios de ingerência e intervenção do Império norte-americano e uma derrota da doutrina Bush de tentar internar em nossa região os conceitos de “guerra preventiva”, do “direito à legítima defesa”, do “assassinato seletivo”.

A continuidade das relações entre Colômbia, Venezuela e Equador, bem como entre os demais países de nossa América Latina, depende agora do fiel cumprimento da Declaração da XX Cúpula do Grupo do Rio. A constituição de um grupo de países amigos para concretizar a paz e colocar estas relações no melhor lugar, do ponto de vista político,social, cultural, econômico e diplomático, viria bem a calhar. Os nossos povos e nações somos fraternais, queremos a paz. Desejamos mais além da integração, a união e tudo o que possa trazer de progresso e avanço social.

In www.vermelho.org.br

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