Mais tarde, Delmer Membreño foi abandonado no quilômetro 34 da estrada que liga Tegucigalpa ao estado de Olancho. "Senti muito medo, achei que morreria”, diz.
"Não há estrada real para a ciência e só têm possibilidade de chegar aos seus cumes luminosos aqueles que não temem cansar-se a subir as suas escarpadas veredas" (Karl Marx - 1872)
Reflexões
"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.
Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)
setembro 30, 2009
Honduras urgente
Mais tarde, Delmer Membreño foi abandonado no quilômetro 34 da estrada que liga Tegucigalpa ao estado de Olancho. "Senti muito medo, achei que morreria”, diz.
¡HONDURAS URGENTE!

Desde el Foro Latinoamericano de Políticas Educativas (FLAPE) expresamos nuestro más fuerte repudio a la dictadura militar y, en solidaridad con el pueblo hondureño queremos difundir un comunicado enviado el día viernes 25 de Septiembre. Los nombres de los compañeros que lo enviaron fueron quitados por cuestiones de seguridad:
DE XXXX
Amigas, amigos:
Me encuentro en un edificio cercano a la Embajada de Brasil junto a 30 compañeras y compañeros, la mayoría integrantes de Artistas del Frente Nacional Contra el Golpe de Estado.
Nos avocamos a este lugar para descansar, manteniendo la conciencia de que de un momento a otro el ejército y la policía entrarían al perímetro donde alrededor de 5,000 personas nos encontrábamos para darle protección al Presidente Manuel Zelaya.
Atacaron a las 5:45 am con fusilería y lacrimógenas. Mataron a un número indeterminado de compañeros de la primera barricada al final del Puente Guancaste. Rodearon y atacaron la barricada del puente de La Reforma.
Haciendo cálculos aproximados, el operativo contó con alrededor de 1,000 efectivos policiales y militares.
Arrinconaron y golpearon. 18 heridos graves en el Hospital Escuela. Siguen persiguiendo en el Barrio Morazán y en le Barrio Guadalupe a los bravos estudiantes que anoche organizaron las precarias barricadas.
En este momento son las 8:00 am. Frente a la Embajada de Brasil han colocado un altoparlante con el himno nacional a todo volumen mientras catean las casas aledañas a la Embajada. Lanzaron bombas lacrimógenas dentro de la Embajada. El Presidente continúa en su interior amenazado por los golpistas que ya argumentaron a través de los medios sus razones "legales" para proceder al allanamientos.
Miles de personas que se dirigían hacia Tegucigalpa han sido retenidas en los alrededores de la ciudad. La ciudad está completamente vacía, fantasmal. El toque de queda fue extendido para todo el día.
La represión contra los manifestantes indefensos fue brutal. En varias ocasiones Radio Globo y Canal 36 han sido sacados del aire.
Cientos de presos.
Estamos aislados.
Aquí estamos el núcleo principal de los organizadores de los grandes eventos culturales en resistencia: poetas, cantautores, músicos, fotógrafos, cineastas, pintores y pintoras... humanos.
De XXX
Estamos SECUESTRADOS... NUEVAMENTE REPRIMIDOS:
Llevamos 17 horas de toque de queda. Y seguimos hasta las 6 de la tarde de hoy martes.
(no dudamos que lo extiendan... igual paso en el departamento de El Paraíso hace dos meses)
Los MILITARES y los POLICIAS han invadido la privacidad de los vecinos al par de la EMBAJADA DE BRASIL.
La policía y los militares...han quebrado los vidrios de los carros y motos de las personas de la resistencia, están quemando sus carros (ellos los habían dejado ahí, como retenes)
Se habla de tres muertos, heridos (a los heridos que se trasladaron a los hospitales... los militares los están sacando de los hospitales)
A los atrapados los llevan al estadio Chochi Sosa. ( lo mismo hizo Pinochet)
Desde FLAPE entendemos que hay que mantener un permanente estado de alerta, de vigilancia y de denuncia en relación con las situaciones que atentan contra la vida democrática de los pueblos, impidiendo que éstas se naturalicen.
Links:
setembro 28, 2009
Carta de Honduras
Nos llegan nuevos reportes de heridos y quebrados por los golpes.
Tegucigalpa, 23 de septiembre 2009
FEMINISTAS EN RESISTENCIA
setembro 27, 2009
Honduras: uma tripla luta de alcance mundial
O retorno do presidente Manuel Zelaya a Honduras e o apoio que recebeu do governo brasileiro colocam vários cenários em movimento na região. Além de elevar a tensão do conflito interno hondurenho, a iniciativa expõe a disputa entre o Brasil e a maioria dos governos latinoamericanos, por um lado, e o Departamento de Estado dos EUA e o Pentágono, por outro. E a terceira frente de conflito se dá entre a extrema direita norte-americana e o governo do presidente Barack Obama.In Carta Maior.
"América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo"
Agentes de Israel estariam colaborando com golpistas de Honduras
Esses agentes do serviço secreto israelense teriam decidido sobre o corte de água, luz e entrada de suprimentos na casa. E também estariam fornecendo equipamentos para pressão psicológica de dentro para fora da embaixada.
Um desses aparelhos é um produtor de frequência que faz um barulho ensurdecedor e estaria causando um grande incômodo para os que estão dentro da casa.
A avaliação é de que será difícil tanto para Zelaya quanto para os outros que estão na embaixada suportar a pressão por muito tempo.
Trata-se de uma denúncia gravíssima e que precisa ser apurada e investigada pelo governo brasileiro.
Do Blog de Rovai
A crise do Senado era para desestabilizar o governo, Por Glauco Faria e Renato Rovai
Fórum – Para começar, faça uma avaliação do momento em que o senhor assumiu a presidência do PT, no auge de uma grande crise partidária?
Ricardo Berzoini – Assumi em outubro de 2005, em meio àquela grande crise. Naquele momento tinha certeza de que estávamos enfrentando a maior crise da história do partido, que teríamos um grande desafio para organizar uma resistência para enfrentar a oposição partidária e midiática, que queriam desconstruir a trajetória do PT. O Tarso Genro foi indicado para presidente, eu para secretário-geral, o José Pimentel para tesoureiro e o Humberto Costa para comunicação.
Fórum – Aquela nova direção começou com sinais de crise, não? O Tarso tinha uma visão de refundação do partido...
Berzoini – Eu não tinha problemas com a palavra refundação, se fosse na visão de reforçar nossos fundamentos. Disse mais de uma vez. Sei que havia polêmicas dentro do partido, pois essa palavra tinha diferentes leituras. Só que o Tarso naquele momento tinha uma visão de refundação para reformular a correlação de forças, e isso, somado a uma sabatina dele na Folha [hiperlink – na sabatina, realizada em agosto de 2005, Tarso Genros fez várias críticas ao partido, o que causou mal-estar em diversos membros. Entre outras declarações, afirmou que "se o PT se fosse uma empresa, teria que fechar, no mínimo, abrir uma concordata" por conta da crise política], mais outros pronunciamentos, fizeram com que perdesse força para liderar o processo. Era necessário lidar com a realidade e a correlação de forças interna, que era fruto da vida real. A ala majoritária tinha bases fortes nos movimentos sociais, em vários setores, não era uma coisa artificial. Naquele momento, o Tarso, lamentavelmente, disse que não tinha condições de assumir a candidatura a presidência pelo nosso grupo. Houve, então, uma reunião e meu nome foi indicado, mas não por unanimidade. Mas de qualquer forma minha candidatura acabou se consolidando no processo e ganhamos a presidência fazendo 42% do diretório. Mas é preciso dizer que eu não reivindicava ser o candidato e deixei isso bem claro. Aceitei o desafio como uma tarefa.
Fórum – O Tarso não aceitava participar de uma chapa em que o ex-ministro José Dirceu estivesse. Como foi essa história?
Berzoini – A verdade é que havia um entendimento do próprio José Dirceu de não participar daquele processo, para evitar o oportunismo de certos setores. Eu, pessoalmente, tinha tratado disso com ele. Mas o Tarso deu uma entrevista em Brasília em que falou que era uma exigência dele a não participação do Zé. Quando leu isso, o Zé Dirceu decidiu que, como ultimato, não aceitava a condição.
Fórum – Existe uma história de que numa reunião do então Campo Majoritário quando ia ser votada da permanência ou não do Zé na chapa ele falou que se aquilo ocorresse iria na semana seguinte para a oposição?
Berzoini – Isso nunca aconteceu.
Fórum – Mas muitos ameaçaram sair e outros saíram do partido à época...
Berzoini – Tinha gente que já estava para sair do PT. Mas de qualquer forma passamos meses com pessoas em dúvida se deveriam ficar ou não no partido e alguns decidiram sair. A verdade é que havia uma perplexidade generalizada, poucos assumiram uma postura de enfrentamento ao cerco que fizeram ao PT. Era decisivo defender o nosso patrimônio político, fazer nossa defesa histórica frente aos partidos de oposição, inclusive da oposição midiática, que tentavam acabar com o PT. Naquele momento, não tenho dúvidas de que houve a intenção por parte da oposição de derrubar o presidente. Mas quando o Lula começou a ir para as ruas e falar com a população, eles tiveram dúvidas sobre o impacto que aquele tipo de ação teria na sociedade. A oposição percebeu que o Lula era um líder popular e que eles não tinham um líder popular. Ou seja, aquela tentativa de golpe poderia levar a uma grande incerteza política no país. Aí apostaram no desgaste do presidente e do PT e acharam que iam ganhar dessa forma as eleições de 2006
Fórum – Fazendo uma avaliação daquela situação, quais os acertos e os erros do PT e do governo?
Berzoini – Digo o que disse na época. Ao PT não é permitido fazer o que os outros fazem. Ali se abre um grande debate sobre o financiamento de campanha no Brasil, como se financia campanhas, quem financia, porque financia, como financia. Isso nunca havia sido discutido profundamente nem pela grande mídia, nem pelo povo. No início do governo, a aposta da direita neoliberal era de que PT não teria quadros para dirigir o país e de que a oposição seria chamada para arrumar a casa. Mas em 2004 e 2005, o governo já iniciava processo de decolagem do crescimento econômico, gerou 1,5 milhão de empregos com carteira assinada em um ano, o Bolsa-Família foi implantado, o Luz para Todos avançava, o Prouni chegando. Nós estávamos construindo um caminho para mostrar que era possível governar de forma diferente. Aí vem a história fictícia do mensalão. O PT errou na reprodução de práticas características do governo anterior nos modelos de financiamento, mas não teve nada de mensalão. Quando conseguimos reagir, mudamos o jogo. Vamos falar da ética e da legalidade. A ética da política brasileira, até 2005, era de que a contabilização dos recursos de campanha ficava em segundo plano. Essa era a lógica. A outra coisa é você discutir como um partido de esquerda se financia. Se não tem financiamento público de campanha não podemos dizer que não aceitamos recursos de ninguém. Então, qual a relação que se deve ter com o empresariado? Tem que buscar recursos dentro da legalidade. O problema foi criar uma dependência sistêmica de um determinado esquema de financiamento, que foi gestado no PSDB mineiro, no caso, o Marcos Valério.
Fórum - A questão do financiamento de campanha está resolvida no partido?
Berzoini – Não, não está resolvida. Por uma razão muito simples: não existe financiamento público. As campanhas são caras de uma maneira geral e não sei por que há uma resistência tão grande no Congresso em colocar um teto para os gastos. Na televisão, por exemplo, a coisa virou um leilão de marqueteiros. Tem que ter estrutura de informática, de contabilidade, de advogados, deslocamento do candidato...
Fórum – Mudar isso não tem relação com a reforma política? Qual a sua posição quanto ao voto em lista?
Berzoini – A posição do PT é o voto em lista puro, financiamento público de campanha e fidelidade partidária rigorosa, não só para quem tem mandato. Quem sair do partido, com mandato ou não, tem ficar um tempo sem poder se candidatar a cargo nenhum. Esse negócio de sair do partido para se candidatar é romper com o conceito de fidelidade.
Fórum – Por que o voto em lista?
Berzoini – Porque acaba com a fulanização na política. Passa-se a votar na proposta partidária.
Fórum – E o voto distrital?
Berzoini – Com o voto distrital, o deputado pensa que precisa de só uma coisa para se reeleger, cuidar bem das emendas que favoreçam a região dele. Se no sistema proporcional já é assim, imagine em um sistema regionalizado. Não estou fazendo uma crítica moral, é uma crítica ao sistema, pois o deputado deixa de ser programático, de pensar em temas e passa a ser só um despachante para aprovar emendas.
Fórum – Você defende o unicameralismo?
Berzoini – Defendo. Nossa federação é enviesada. O Senado, se é para existir, tem que tratar apenas de assuntos relativos aos estados, questões tributárias, meio ambiente, coisas que envolvam a representação estadual. As questões federativas devem ficar só na Câmara.
Fórum – E a atual crise no Senado?
Berzoini – O que aconteceu no Senado foi uma grande crise midiática criada pela oposição para desestabilizar o processo político brasileiro, não tem nada a ver com o Sarney. Ele é a bola da vez, tanto que a mídia é complacente com o Artur Virgílio, com o Heráclito Fortes, com o jatinho do Tasso Jereissati. A oposição não tem discurso na economia, nas políticas sociais, na política externa. Apostou na crise financeira mundial, ironizou quando o Lula falou em marolinha, e agora DEM, PSDB e PPS estão se afogando na marolinha. Daí, só resta produzir crises no parlamento. A nota que eu mandei à bancada do PT é clara: não conciliamos com irregularidades, mas não aceitamos o joguinho de uma oposição que sempre se lambuzou nas irregularidades do Senado, como demonstraram várias denúncias, inclusive contra o líder do PSDB. O que eles queriam era desestabilizar o governo.
Fórum – Mas, o PT também não é um pouco complacente com alguns senadores? Não deveria fazer mais o papel de denúncia?
Berzoini – É claro que algumas pessoas que foram denunciadas têm questões morais que podem ser questionadas. Mas o que se estabeleceu foi uma manobra para tirar o Sarney e colocar um tucano na presidência, e não investigar mais nada. Seria o cúmulo da ingenuidade ou hipocrisia acreditar que o PSDB e o DEM, a esta altura, resolveram dar lições de ética no Senado.
Fórum – O Conselho de Ética do Senado cumpre o seu papel? Deve ser extinto?
Berzoini – É ingenuidade pensar que um órgão interno do parlamento não sofre interferências políticas, seja para absolver, seja para condenar .Veja a cassação do Zé Dirceu. Foi um ato totalmente político, sem nenhuma prova.
Fórum – O que o partido precisa fazer para retomar o protagonismo em certos setores, como a juventude, e pensar novos rumos?
Berzoini – Existia um mito de que o PT era hegemônico em certos setores, mas o partido sempre foi minoria no Brasil. O Lula conseguiu consolidar uma maioria para ser presidente, com alianças e só em 2002. Na juventude intelectualizada houve uma migração. No esquerdismo, há opções, como PSOL, e o PSTU. Alguns descambaram para a direita. O PT cresceu muito na juventude popular, entre os jovens que quando conseguem ir para a faculdade, é com o Prouni ou nos novos campi do Nordeste, identificamos essa migração. O PT hoje está muito mais forte no imaginário social.
Fórum – Você percebe que, na mudança de perfil, apesar de haver um aumento na preferência, o militante do PT está mais acomodado, ou seja, não tem mais o militante que vai para a rua que hoje está sendo substituído pela militância paga?
Berzoini – Quando o partido vai para a grande disputa e começa a ser uma alternativa real de poder, há uma tentação muito grande de reproduzir os métodos tradicionais da política. Pessoalmente, tenho resistência ao assalariamento de militância, que na verdade nem é militância, são pessoas contratadas para cumprir funções de propaganda. Nós precisamos fazer o elogio da militância e da participação popular. E não é verdade que isso não exista mais. Existe. A presença do militante que faz campanha por vontade política é indispensável. Num partido de esquerda, o maior desafio é não permitir que o poder de empregar seja determinante na opção política.
Fórum – O senhor falou “em um partido de esquerda”, o PT ainda é um partido de esquerda?
Berzoini - Claro, toda a nossa perspectiva baseia-se no horizonte de uma sociedade socialista democrática, na qual valorizem-se o papel do Estado e da democracia participativa, e que trate a economia como um meio para produção de riquezas. No nosso entendimento a democracia é o caminho para garantir a máxima distribuição dessa riqueza e dos direitos sociais fundamentais.
Fórum – Mudando um pouco de assunto, dentro do cenário político, que papel podem exercer as novas tecnologias, como os blogues, o Twitter etc.?
Berzoini – O Twitter é um espaço para pequenas reflexões, indicações e até provocações, mas não pode ser um porta-voz. A internet é um grande espaço, não só na política, pois ela avança inexoravelmente. Mas, vamos lembrar, política não se faz só na internet, se faz na ocupação do espaço público, com os debates presenciais e as demonstrações de rua.
Fórum – Na sua experiência como presidente do PT, como avalia a relação com os conglomerados midiáticos? E como a ação política pode mudar o cenário midiático?
Berzoini – Quando eu tinha uns dez, onze anos, comecei a me interessar por política e fui ler um desses jornalões. Meu pai me disse: “quer ler, pode ler, mas lembre-se que o jornal tem dono, que tem seus interesses”. Como se sabe, os meios pertencem a poucas famílias no Brasil. Lamentavelmente, a esquerda brasileira, e eu me coloco nisso, não conseguiu construir uma alternativa aos veículos tradicionais. Não é só por falta de vontade, mas a questão econômica é difícil. Quanto à relação com a mídia, o grau de preconceito, de deformação da notícia, é enorme, Quem fizer um levantamento vai notar facilmente a diferença de tratamento em relação ao Fernando Henrique e ao o Lula. Mas o Lula desenvolveu uma estratégia de comunicação com a população e, mesmo na mídia pautada, ele consegue transmitir o seu recado. O PT nem tanto. Mas, na internet, os petistas militantes têm conseguido desenvolver um espaço fantástico.
Fórum - Tirando a internet, os avanços em relação à democratização da comunicação no período deste governo foram poucos. O senhor também avalia que faltou enfrentar os oligopólios do setor?
Berzoini – A grande capacidade política do governo Lula foi lidar com isso de maneira suave. O PT buscou, no processo político, fazer a interação nessa área, mas isso, realmente, é um grande assunto nacional que talvez seja superado no médio prazo.
Fórum – Como o senhor acha que deve ser construído o programa do projeto político Dilma, de um terceiro mandato para o PT?
Berzoini – Com a apropriação do patrimônio extraordinário do governo Lula. E nesse sentido a Dilma é ótima, pois ela está no centro do governo. Política de valorização salarial, programas de transferência de renda, o Luz para Todos, Prouni, o PAC, realizações que, inclusive muitos petistas, não acreditavam que aconteceriam.
Mas não se ganha eleição somente dizendo “eu fiz isso”. A agenda de 2006 continua atual. O programa do Lula era desenvolvimento nacional com distribuição de renda e educação de qualidade. Para mim, o centro do programa tem que ser a revolução educacional. Não com a visão funcionalista de alguns políticos e economistas que dizem que temos que preparar somente mão-de-obra para o mercado. Precisamos preparar o cidadão para o Brasil que nós queremos. Esse cidadão tem que ter visão humanista, do estado democrático de Direito e capacidade de aprendizado permanente para ter a cabeça para as tecnologias do século 21. A dimensão ambiental também é fundamental. O Brasil tem que ser o país mais verde do mundo, mas não fazer só o preservacionismo, mas seguir no sentido do desenvolvimento sustentável. A terceira questão é o padrão de financiamento do projeto. Tem que ter um sistema financeiro capaz de financiar novos investimentos, com poupança interna, e não depender só de investimentos externos. Precisamos de reservas para enfrentar a agressividade do sistema financeiro.
Fórum – Como o senhor vê a saída da Marina Silva do PT? E com a possível candidatura dela, como vai ser trabalhada a questão da sustentabilidade pelo partido, já que foi fundamentalmente nessa questão que ela e a Dilma tiveram enfrentamentos no governo?
Berzoini – Primeiro, é preciso ressaltar que a Marina fez um debate decente no partido, dialogou com muita gente. Tive uma reunião muito respeitosa com ela e ela tomou a decisão que vocês conhecem. E eu respeito, apesar de não concordar. O PT é um espaço privilegiado para fazer o debate que ela quer. Se ela ficasse, teria muito mais a ganhar no objetivo de realizar o debate. Ela poderia ser candidata a presidente do partido, por exemplo, e poderia disputar prévias com essa agenda. O PT está sempre preparado para prévias, o Suplicy disputou com o Lula em 2002. Difícil dizer, agora, como será o processo eleitoral. Espero que ela esteja ao lado do PT em muitos momentos. Mas é óbvio que pode haver enfrentamentos. No governo, a Marina achou que estava emparedada pela questão do desenvolvimento. O que defendo é que façamos uma síntese dessas duas vertentes para avançar o máximo possível na questão da sustentabilidade.
Fórum – Para 2010, o PT tem necessariamente que fazer aliança com o PMDB? E até onde pode pagar o custo dessa aliança? A crise no Senado é um custo?
Berzoini – O que acho é que nós temos que mostrar para o povo que a aliança é para governar o país. Uma aliança que já governa e quer continuar um projeto de desenvolvimento. Na política, se paga preço o tempo todo. Digo com todas as letras: a mídia descobriu, depois de 50 anos, o patrimonialismo no Senado. E só fez isso no governo Lula. O DEM está na primeira secretaria em 10 dos 14 anos que estão caracterizados como o pior da história do Senado e a mídia não aponta o dedo para o DEM. A questão da aliança tem que ser tratada com muito carinho. Digo que é preciso ter nervos de aço e coração preparado. O PMDB tem representatividade institucional na Câmara e no Senado, tem capilaridade. Mas, por outro lado, o PSB, que é nosso aliado, tem três governadores. Eles também têm legitimidade para pleitear o lugar de vice na chapa.
Fórum – O PT tem candidato para governador em São Paulo?
Berzoini – Tem várias opções, Discordo daqueles que dizem que tem que sair de Palocci, Mercadante ou Marta. Nas pesquisas, Mercadante e Marta são os mais fortes. Emídio, Palocci e Haddad se equivalem. Acho que o Ciro estaria disposto a concorrer se a candidatura vier a fazer parte de um projeto nacional. Em São Paulo, a questão que está colocada é esta: ou é alguém do PT ou é o Ciro.
Fórum – O que você achou da atitude do Suplicy no Senado em relação ao Sarney, o episódio do cartão vermelho?
Berzoini - Um partido político precisa ter coesão, não acredito em carreira solo. Fizemos um grande esforço para enfrentar a crise no Senado e a partir do momento que uma pessoa, sabendo disso, toma uma atitude assim, mostra que não foi uma atitude que respeita o coletivo, foi uma atitude de carreira solo. Não é meu modo de fazer política, que é coletivo. E meu coletivo chama-se PT.
setembro 23, 2009
Nova lei de comunicação argentina compra briga contra monopólios
In Carta Maior.
A direita não tem candidato?
O artigo é de Rogério Mattos Costa.
In Carta Maior.
Universo em expansão: o poder, o capital e as guerras
O artigo é de José Luís Fiori, publicado no n° 5 do Jornal de Resenhas.
In Carta Maior.
Manifesto em defesa da Democracia e do MST
nesse mundo em que o trabalho está em extinção.
legitimam-se porque fazem História,
num mundo que já proclamou o fim da História.
(“Notícias dos sobreviventes”, Eldorado dos Carajás, 1996).
Contra a criminalização do MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA!
Pelo cumprimento das normas constitucionais que definem as terras destinadas à Reforma Agrária!
Pela adoção imediata dos novos critérios de produtividade para fins de Reforma Agrária!
Plínio de Arruda Sampaio, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária - ABRA, ex-Deputado Federal Constituinte pelo PT-SP (1985-1991) e ex-consultor da FAO
Osvaldo Russo, estatístico, ex-presidente do INCRA (1993-1994), diretor da ABRA e coordenador do núcleo agrário nacional do PT
Hamilton Pereira, o Pedro Tierra, 61, é poeta e membro do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo
Antônio Cândido, crítico literário, USP
Leandro Konder, filósofo, PUC-RJ
István Mészáros, Hungria, filósofo
Eduardo Galeano, Uruguai, escritor
Outros intelectuais, artistas etc.
setembro 17, 2009
Primeiro 11/09 sem Bush e Cheney

Duas guerras sem final à vista e milhões de cadáveres depois (entre eles os de mais de 5 mil soldados americanos mortos, 4343 no Iraque e 824 no Afeganistão), os Estados Unidos de Barack Obama tentam distanciar-se ao menos da histeria belicista disseminada pela dupla Bush-Cheney. Como desta vez o ritual anual na área do WTC foi bem comportado, pode-se ainda fingir que não persistem as teimosas especulações paranóicas sobre suposta cumplicidade do governo anterior.
O artigo é de Argemiro Ferreira. In Carta Maior.
Serra e PSDB defendem "princípios éticos" de Yeda
Manifesto assinado pelo governador de São Paulo e por lideranças nacionais do PSDB dá total solidariedade à governadora do Rio Grande do Sul, acusada pelo Ministério Público Federal de integrar uma quadrilha que estaria instalada no aparelho de Estado. Documento destaca longa trajetória política de Yeda, "construída com competêncis e respeito a princípios éticos". Neste momento, governadora gaúcha é alvo de um processo de impeachment na Assembléia Legislativa. CPI investiga fraude que pode ter desviado mais de 340 milhões dos cofres públicos. In Carta Maior.
Guatemala, By José Saramago
Mas este caso não é um simples episódio de baixa corrupção. O acosso de que, desde há dois anos, tem sido alvo F&G Editores, enquadra-se na situação repressiva que se está vivendo na Guatemala, onde o poder oficial tem vindo a perseguir e a tentar calar as vozes discordantes, essas que, sem desânimo, continuam a denunciar as violações dos Direitos Humanos no país. Pelos vistos, tinha razão aquele já velho jogo de palavras entre Guatemala e Guatepior. Dos cidadãos guatemaltecos se espera que o inocente jogo não se transforme em triste realidade.
Um terceiro deus, By José Saramago
Ministério Público, Judiciário e governo gaúcho: empenho pelo fim do MST
O artigo é de Renato Godoy de Toledo, do Brasil de Fato.
setembro 14, 2009
Comissão da Câmara aprova o Estatuto da Igualdade Racial
De acordo com a Agência Câmara, depois de um acordo com deputados contrários a alguns pontos da matéria, a comissão aprovou a redação final do substitutivo com mudanças em relação ao texto original. Entre elas, estão a redução de 30% para 10% da proporção de candidatos negros que os partidos devem ter nas eleições; a retirada da obrigatoriedade de reserva, nos estabelecimentos públicos, de vagas para alunos negros vindos de escolas públicas na mesma proporção dessa etnia na população; e a supressão do inciso que definia quem eram os remanescentes de quilombos.
A matéria tramita em caráter conclusivo e será enviada ao Senado. Um dos pontos do acordo foi o de que não seria apresentado nenhum recurso no sentido de que o projeto fosse votado no Plenário da Câmara.
Do NOTA 10
EUA fascistas: Já chegamos lá?
As elites conservadoras dos Estados Unidos jogaram abertamente seu futuro com o das legiões de descontentes da extrema-direita. Elas deram apoio explícito e poder às legiões para que ajam como um braço político nas ruas americanas, apoiando ameaças físicas e a intimidação de trabalhadores, liberais e autoridades que se neguem a defender seus [das elites] interesses políticos e econômicos. Chegamos. Estamos estacionados exatamente no lugar onde nossos melhores especialistas dizem que o fascismo nasce.
O artigo é de Sara Robinson, do blog For Our Future. In Carta Maior.
As grandes potências e a guerra

O artigo é de José Luís Fiori. In Carta Maior.
setembro 07, 2009
Estado, governo, partidos, democracia - O Estado brasileiro é mais forte porque mais democrático.
Confusão faz essa imprensa despreparada teoóricamente e mesquinha politicamente, ao não se dar conta de como os destinos do Estado brasileiro estão em jogo na repartição dos recursos do pré-sal, não se tratando apenas de um problema de um governo de turno. Mas quando se trata de manter de pé campanha sistemática de acusações a um governo que, apesar disso ou talvez até mesmo também por isso, goza de mais de 80% de apoio da população, vale de tudo, pelo próprio desespero de não ver refletir nas pesquisas de opinião, o tempo, os espaços e o papel gasto na até aqui inglória luta contra o governo.
Para começar: o Estado brasileiro, no governo Lula, é muito mais democrático do que antes, em qualquer outro governo. Em primeiro lugar, porque atende as reivindicações de um numero incomparavelmente maior de pessoas do que qualquer outro governo. Atende seus direitos a emprego formal, a acesso a bens fundamentais, a escola, a habitação, a saneamento básico, a créditos, a energia elétrica, entre outros direitos elementares, mas que foram sempre negados à maioria da população.
Como conseqüência, o Estado integra a setores majoritários do povo, que nunca antes tinham se sentido participantes do Estado, do que é expressão o fato de mais de 80% da população apoiar o governo, não ocasionalmente, no momento de um plano econômico qualquer – como em momentos do Plano Cruzado do governo Sarney ou do Plano Real do governo FHC – mas estavelmente, no sétimo ano do governo, quando FHC tinha apenas 18% de apoio e Sarney algo similar.
O Estado dispõe de mais pessoal e mais qualificado, melhor remunerado, depois de ter passado pela sua demonização, pela desqualificação do servidor público e diminuição pelas políticas de Estado mínimo do governo da tucanalhada-demoníaca.
As empresas estatais são mais fortes e mais eficientes hoje. Tome-se o exemplo da Petrobrás no governo atual, em comparação com ao que tinha sido reduzida – “Petrobrax” – no governo FHC. Os levantamentos do IPEA revelam como o serviço publico é mais eficiente que as empresas privadas, como mostra da melhoria do Estado no governo atual.
A diminuição significativa do superávit fiscal, o freio nos processos de privatização – que previam a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, da Eletrobras, nos acordos assinados com o FMI na última das três crises com que o governo FHC vitimizou o Brasil fortaleceram o Estado.
Ao contrário dos governos tucanos, como o de Serra, que seguiu adiante as privatizações e, não fosse o Banco do Brasil ter comprado a Nossa Caixa, a teria vendido ao capital privado, como os tucanos tinham feito com o Banespa vendido a um banco estrangeiro, o Santander.
O Estado brasileiro é muito mais forte, porque muito mais respeitado no exterior, tanto na América Latina, como no conjunto do mundo, como se vê pelo prestígio de Lula, em comparação com a penosa imagem projetada por FHC e seus tristes ministros de Relações Exteriores.
O Estado é mais forte porque recuperou sua capacidade de indução do crescimento econômico, como se viu muito claramente na capacidade do governo e dos bancos públicos de promover a recuperação econômica do país na atual crise, muito maior do que qualquer uma que o governo FHC tenha vivido e, no entanto, o Brasil sai dela mais forte, ao contrário das anteriores, em que – como no caso da crise de 1999 – o país saiu enfraquecido – com as taxas de juros próximas de 50%, com o desemprego em níveis altíssimos, com um descontrole inflacionário, com um aumento exponencial da divida pública, com uma recessão de que somente o governo Lula pôde fazer com que saíssemos da crise.
O Estado é mais forte justamente porque o governo não confundiu governo e Estado. O governo é um instrumento de fortalecimento do Estado, mediante políticas de interesse nacional – como as políticas sociais, educativas, culturais, econômicas, a política externa independente, entre tantas outras – e não para atender interesses privados – como as escandalosas privatizações de FHC, que dilapidaram o patrimônio público ou como a privataria educacional que promoveu as faculdades e universidades privadas em detrimento da educação publica, universal e gratuita.
O Estado é mais forte, porque arrecada mais e melhor, canalizando recursos para o crescimento econômico e as políticas sociais. Porque diminuiu as taxas de juros, diminuindo a remuneração ao capital especulativo e a transferência de renda ao capital financeiro.
Assim, o Estado brasileiro é mais forte, não porque menos democrático, mas porque muito mais democrático, mais integrador, mais provedor de direitos, mais reconhecido no exterior e dentro do Brasil.
O Estado governa com os partidos que apóiam o governo Lula, um governo submetido pelos dois maiores plebiscitos públicos – as eleições de 2002 e 2006 -, em que, mesmo tendo a ditadura das empresas privadas da mídia contra, contou com o imenso apoio popular, que só cresceu desde então. Governa, portanto, com a delegação da grande maioria do povo. A oposição queria que ele governasse, como no governo FHC, com representantes diretos do grande capital, dos bancos, das corporações privadas, da mídia oligárquica, do capital estrangeiro.
Os governos estaduais dos outros partidos – como o de Olívio Dutra no Rio Grande do Sul – foram sistematicamente sabotados pelo governo FHC, ao contrário do governo Lula, que compartilha os recursos federais com governos da oposição, como os governos tucanos de São Paulo e de Minas Gerais, com governadores pré-candidatos à presidência pela oposição ao governo.
O Estado é mais forte no Brasil no governo Lula, a democracia é mais forte, porque o governo as promove como seus objetivos centrais. Passado o circo midiático, fica claro que foram os tucanalhas-demoníacos, que debilitaram o papel de controle tributário, favorecendo a sonegação fiscal como nunca no Brasil.
Um Estado forte é um Estado democrático, reconhecido e apoiado pela grande maioria da população. É um Estado que implementa políticas de caráter nacional, de interesse público, promovendo a prioridade das questões sociais e não a ditadura econômico-financeira de Malan-FHC-Serra.
O Brasil precisa ser mais democrático e não menos, como quer a oposição, adepta do Estado mínimo e dos cortes dos direitos sociais. O Brasil precisa reformar profundamente o Estado, não como quer a oposição, para deixar mais espaços para o mercado, mas para torná-lo efetivamente um Estado de todos e para todos.
Do Blog de Emir Sader.
Como transformar o assassino em inocente e a vítima em culpado
A Secretaria de Segurança do Rio Grande do Sul anunciou que manterá em sigilo a identidade do assassino do sem terra Elton Brum da Silva, executado com um tiro de espingarda nas costas, dia 21 de agosto. A estratégia não surpreende quem vem acompanhando a dura perseguição movida pelo Poder Público do RS contra os movimentos sociais, MST entre os mais visados, acentuada em violência, tortura e crueldade desde abril de 2007, quando o Conselho Superior do MP estadual decidiu extinguir aquele Movimento. Revista Carta Maior.
Nosso racismo é um crime perfeito, por Camila Souza Ramos e Glauco Faria
Kabengele - Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como “nossos negros”, é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.
Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.
A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?
Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão... A geografia do seu corpo não indica isso.
Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.
Revista Fórum - Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo...
Kabengele - Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.
Revista Fórum - Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial? Kabengele - Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.
Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira.
Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.
Fórum - Que é o argumento do Demétrio Magnoli.
Kabengele - Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, "negro, volta pra senzala". Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.
Fórum - Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?
Kabengele – Tenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.
Fórum – Mas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?
Kabengele - É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. "Ah, é só mudar a escola pública." Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica.
E tem esse argumento legalista, "porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil". Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível. Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.
Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.
A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.
Fórum - O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito...
Kabengele - O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.
Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.
Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: "Não vou alugar minha casa para um negro". No Brasil, vai dizer: "Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar". Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.
Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: "você já discriminou alguém?". A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: "você que é complexado, o problema está na sua cabeça". Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.
Revista Fórum - O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.
Kebengele - Faz parte desse imaginário. O que está por trás que está fazendo uma ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.
Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.
Fórum - É que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simplório: "por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco", como se fosse a mesma coisa.
Kabengele - É interessante isso, porque tenho a impressão de que é um cara que não conhece a história e o orgulho negro tem uma história. São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a história do orgulho negro. O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.
Fórum - O senhor tocou no caso do Grafite com o Desábato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Grêmio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas – jornalistas que comentaram, a diretoria gremista – argumentavam que no campo de futebol você pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, não teria como ter jogo de futebol. Como você vê esse tipo de situação?
Kabengele - Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro... Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita a violência física é punida?
Fórum - Como o senhor vê hoje a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Os professores, de um modo geral, estão preparados para lidar com a questão racial?
Kabengele - Essa lei já foi objeto de crítica das pessoas que acham que isso também seria uma racialização do Brasil. Pessoas que acham que, sendo a população brasileira uma população mestiça, não é preciso ensinar a cultura do negro, ensinar a história do negro ou da África. Temos uma única história, uma única cultura, que é uma cultura mestiça. Tem pessoas que vão nessa direção, pensam que isso é uma racialização da educação no Brasil.
Mas essa questão do ensino da diversidade na escola não é propriedade do Brasil. Todos os países do mundo lidam com a questão da diversidade, do ensino da diversidade na escola, até os que não foram colonizadores, os nórdicos, com a vinda dos imigrantes, estão tratando da questão da diversidade na escola.
O Brasil deveria tratar dessa questão com mais força, porque é um país que nasceu do encontro das culturas, das civilizações. Os europeus chegaram, a população indígena – dona da terra – os africanos, depois a última onda imigratória é dos asiáticos. Então tudo isso faz parte das raízes formadoras do Brasil que devem fazer parte da formação do cidadão. Ora, se a gente olhar nosso sistema educativo, percebemos que a história do negro, da África, das populações indígenas não fazia parte da educação do brasileiro.
Nosso modelo de educação é eurocêntrico. Do ponto de vista da historiografia oficial, os portugueses chegaram na África, encontraram os africanos vendendo seus filhos, compraram e levaram para o Brasil. Não foi isso que aconteceu. A história da escravidão é uma história da violência. Quando se fala de contribuições, nunca se fala da África. Se se introduzir a história do outro de uma maneira positiva, isso ajuda.
É por isso que a educação, a introdução da história dele no Brasil, faz parte desse processo de construção do orgulho negro. Ele tem que saber que foi trazido e aqui contribuiu com o seu trabalho, trabalho escravizado, para construir as bases da economia colonial brasileira. Além do mais, houve a resistência, o negro não era um João-Bobo que simplesmente aceitou, senão a gente não teria rebeliões das senzalas, o Quilombo dos Palmares, que durou quase um século. São provas de resistência e de defesa da dignidade humana. São essas coisas que devem ser ensinadas. Isso faz parte do patrimônio histórico de todos os brasileiros. O branco e o negro têm que conhecer essa história porque é aí que vão poder respeitar os outros.
Voltando a sua pergunta, as dificuldades são de duas ordens. Em primeiro lugar, os educadores não têm formação para ensinar a diversidade. Estudaram em escolas de educação eurocêntrica, onde não se ensinava a história do negro, não estudaram história da África, como vão passar isso aos alunos? Além do mais, a África é um continente, com centenas de culturas e civilizações. São 54 países oficialmente. A primeira coisa é formar os educadores, orientar por onde começou a cultura negra no Brasil, por onde começa essa história. Depois dessa formação, com certo conteúdo, material didático de boa qualidade, que nada tem a ver com a historiografia oficial, o processo pode funcionar.
Fórum - Outra questão que se discute é sobre o negro nos espaços de poder. Não se veem negros como prefeitos, governadores. Como trabalhar contra isso?
Kabengele - O que é um país democrático? Um país democrático, no meu ponto de vista, é um país que reflete a sua diversidade na estrutura de poder. Nela, você vê mulheres ocupando cargos de responsabilidade, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, assim como no setor privado. E ainda os índios, que são os grandes discriminados pela sociedade. Isso seria um país democrático. O fato de você olhar a estrutura de poder e ver poucos negros ou quase não ver negros, não ver mulheres, não ver índios, isso significa que há alguma coisa que não foi feita nesse país. Como construção da democracia, a representatividade da diversidade não existe na estrutura de poder. Por quê?
Se você fizer um levantamento no campo jurídico, quantos desembargadores e juízes negros têm na sociedade brasileira? Se você for pras universidades públicas, quantos professores negros tem, começando por minha própria universidade? Esta universidade tem cerca de 5 mil professores. Quantos professores negros tem na USP? Nessa grande faculdade, que é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), uma das maiores da USP junto com a Politécnica, tenho certeza de que na minha faculdade fui o primeiro negro a entrar como professor. Desde que entrei no Departamento de Antropologia, não entrou outro. Daqui três anos vou me aposentar. O professor Milton Santos, que era um grande professor, quase Nobel da Geografia, entrou no departamento, veio do exterior e eu já estava aqui. Em toda a USP, não sou capaz de passar de dez pessoas conhecidas. Pode ter mais, mas não chega a 50, exagerando. Se você for para as grandes universidades americanas, Harvard, Princeton, Standford, você vai encontrar mais negros professores do que no Brasil. Lá eles são mais racistas, ou eram mais racistas, mas como explicar tudo isso?
120 anos de abolição. Por que não houve uma certa mobilidade social para os negros chegarem lá? Há duas explicações: ou você diz que ele é geneticamente menos inteligente, o que seria uma explicação racista, ou encontra explicação na sociedade. Quer dizer que se bloqueou a sua mobilidade. E isso passa por questão de preconceito, de discriminação racial. Não há como explicar isso. Se você entender que os imigrantes japoneses chegaram, nós comemoramos 100 anos recentemente da sua vinda, eles tiveram uma certa mobilidade. Os coreanos também ocupam um lugar na sociedade. Mas os negros já estão a 120 anos da abolição. Então tem uma explicação. Daí a necessidade de se mudar o quadro. Ou nós mantemos o quadro, porque se não mudamos estamos racializando o Brasil, ou a gente mantém a situação para mostrar que não somos racistas. Porque a explicação é essa, se mexer, somos racistas e estamos racializando. Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Esse é o dilema da sociedade.
Revista Fórum – como o senhor vê o tratamento dado pela mídia à questão racial?
Kabengele - A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola.
Houve, no mês passado, a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. Os grandes jornais da imprensa escrita não pautaram isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio. O silêncio é uma maneira de você matar a consciência de um povo. Porque se falar sobre isso abertamente, as pessoas vão buscar saber, se conscientizar, mas se ficar no silêncio a coisa morre por aí. Então acho que o silêncio da imprensa, no meu ponto de vista, passa por essa estratégia, é o não-dito.
Acabei de passar por uma experiência interessante. Saí da Conferência Nacional e fui para Barcelona, convidado por um grupo de brasileiros que pratica capoeira. Claro, receberam recursos do Ministério das Relações Exteriores, que pagou minha passagem e a estadia. Era uma reunião pequena de capoeiristas e fiz uma conferência sobre a cultura negra no Brasil. Saiu no El Pais, que é o jornal mais importante da Espanha, noticiou isso, uma coisa pequena. Uma conferência nacional deste tamanho aqui não se fala. É um contrassenso. O silêncio da imprensa não é um silêncio neutro, é um silêncio que indica uma certa orientação da questão racial. Tem que não dizer muita coisa e ficar calado. Amanhã não se fala mais, acabou.
Revista Fórum


