Reflexões

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.

Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)

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outubro 30, 2008

Carta de MAPUTO - 5ª Conferência da Via Campesina


Maputo, Moçambique, 19-22 de Outubro, 2008

O mundo inteiro está em crise

Uma crise multi-dimensional. De alimentos, de energia, de clima e de finanças. As soluções que o poder propõe – mais livre comércio, sementes transgênicas, etc – ignoram que a crise resulta do sistema capitalista e do neoliberalismo. Essas medidas somente aprofundarão seus impactos. Para encontrar soluções reais, temos que olhar para a Soberania Alimentar que propõe a Via Campesina.

Como chegamos na crise?

Nas últimas décadas, vimos o avanço do capitalismo financeiro e das empresas transnacionais, sobre todos os aspectos da agricultura e do sistema alimentar dos países e do mundo. Desde a privatização das sementes e a venda de agrotóxicos, até a compra da colheita, o processamento dos alimentos, transporte, distribuição e venda ao consumidor, tudo já está em mãos de um número reduzido de empresas.

Os alimentos deixaram de ser um direito de todos e todas, e tornaram-se apenas mercadorias. Nossa alimentação está cada vez mais padronizada em todo mundo, com alimentos de má qualidade, preços que as pessoas não podem pagar. As tradições culinárias de nossos povos estão se perdendo.

Também vemos uma ofensiva do capital sobre os recursos naturais, como nunca se viu desde os tempos coloniais. A crise da margem de lucro do capital os lança numa guerra de privatização que os leva nos expulsar, camponeses, camponesas, comunidades indígenas, roubando nossa terra, territórios, florestas, biodiversidade, água e minérios. Um roubo privatizador.

Os povos rurais e o meio ambiente estão sendo agredidos. A produção de agrocombustíveis em grandes monocultivos industriais também é razão dessa expulsão, falsamente justificada com argumentos sobre crise energética e climática. A realidade atrás das últimas facetas da crise tem muito mais ver com a atual matriz de transporte de longa distância dos bens - e individualizado em automóveis - do que com qualquer outra razão.

Com a crise dos alimentos e com a crise financeira, a situação torna-se mais grave. A crise financeira e a crise dos alimentos estão vinculadas à especulação do capital financeiro com os alimentos e a terra, em detrimento das pessoas. Agora, o capital financeiro está desesperado, assaltando os cofres públicos para dominuir seus prejuízos. Os países serão obrigados a fazer ainda mais cortes orçamentários, condenado-os a maior pobreza e maior sofrimento.

A fome no mundo segue a passos largos. A exploração e todas as violências, em especial a violência contra a mulher, espalham-se pelo mundo. Com a recessão econômica nos países ricos, aumenta a xenofobia contra os trabalhadores e trabalhadoras migrantes, com o racismo tomando grandes proporções e com o aumento da repressão. Os jovens têm cada vez menos oportunidades no campo. Isso é o que o modelo dominante oferece.

Ou seja, tudo vai de mal a pior. Contudo, no seio da crise, as oportunidades se fazem presentes. Oportunidades para o capitalismo, que usa a crise para se reinventar e encontrar novas formas de manter suas taxas de lucro, mas também oportunidades para os movimentos sociais, que defendemos a tese de que o neoliberalismo perde legitimidade entre os povos.

As instituições financeiras internacionais (Banco Mundial, FMI, OMC) estão mostrando sua incapacidade de administrar a crise (além de serem parte dos motivos da crise), criando a possibilidade que sejam desarticuladas e que outras instituições reguladoras a economia global surjam e que atendam outros interesses. Está claro que as empresas transnacionais são os verdadeiros inimigos e estão atrás das crises.

Está claro que os governos neoliberais não atendem aos interesses dos povos. Também está claro que a produção mundial de alimentos controlada pelas empresas transnacionais, não se faz capaz de alimentar o grande contingente de pessoas neste planeta, enquanto que a Soberania Alimentar baseada na agricultura camponesa local, faz-se mais necessária do que nunca.

O que defendemos na Via Campesina frente a esta realidade?

- A soberania alimentar: Renacionalizar e tirar o capital especulativo da produção dos alimentos é a única saída para a crise dos alimentos. Somente a agricultura camponesa alimenta os povos, enquanto o agronegócio produz para a exportação e sua produção de agrocombustíveis é para alimentar os automóveis, e não para alimentar gente. A Soberania Alimentar baseada na agricultura camponesa é a solução para a crise.

- Frente às crises energéticas e climáticas: a disseminação de um sistema alimentar local, que não se baseia na agricultura industrial nem no transporte a longa distância, eliminaria até 40% das emissões de gases de efeito estufa. A agricultura industrial aquece o planeta, enquanto a agricultura camponesa desaquece. Uma mudança no padrão do transporte humano para um transporte coletivo e outras mudanças no padrão de consumo, são os passos a mais, necessários para enfrentarmos a crise energética e climática.

-A Reforma Agrária genuína e integral, e a defesa do território indígena são essenciais para reverter o processo de expulsão do campo, e para disponibilizar a terra para a produção de alimentos, e não para produzir para a exportação e para combustíveis.

-A agricultura camponesa sustentável: somente a produção camponesa agroecológica pode desvincular o preço dos alimentos do preço do petróleo, recuperar os solos degradados pela agricultura industrial e produzir alimentos saudáveis e próximos para nossas comunidades.

-O avanço das mulheres é o avanço de todos: o fim de todos os tipos de violência para com as mulheres, seja ela, física, social ou outras. A conquista da verdadeira paridade de gênero em todos os espaços internos e instâncias de debates e tomada de decisões são compromissos imprescindíveis para avançar neste momento como movimentos de transformação da sociedade.

- O direito à semente e à água: a semente e a água são as verdadeiras fontes da vida, e são patrimônios dos povos. Não podemos permitir sua privatização, nem o plantio de sementes transgênicas ou de tecnologia terminator.

- Não à criminalização dos movimentos sociais. Sim à declaração dos Direitos dos Camponeses e Camponesas na ONU, proposta pela Via Campesina. Será um instrumento estratégico no sistema legal internacional para fortalecer nossa posição e nossos direitos como camponeses e camponesas.

- A juventude do campo: É necessário abrir, cada vez mais, espaços em nossos movimentos para incorporara força e a criatividade da juventude camponesa, com sua luta para contruir seu futuro no campo.

- Finalmente, nós produzimos e defendemos os alimentos para todos e todas.

Todos e todas participantes da V Conferência da Via Campesina nos comprometemos coma defesa da agricultura camponesa, com a Soberania Alimentar, com a dignidade, com a vida. Nós colocamos à disposição do mundo as soluções reais para a crise global que estamos enfrentando hoje. Temos o direito de continuarmos camponeses e camponesas, e temos a responsabilidade de alimentar nossos povos.

Aqui estamos, nós os camponeses e camponesas do mundo, e nos negamos a desaparecer.

Soberania Alimentar JÁ! Com a luta e a unidade dos povos!
Globalizemos a luta! Globalizemos a esperança!

VIA CAMPESINA INTERNACIONAL

Pinturas na calçada

outubro 28, 2008

Democracia escolar

21 de novembro a comunidade escolar vai à escolar para eleger o diretor do Estabelecimento de Ensino. Esse fato é relevante para a construção da uma escolar verdadeiramente democrática e popular. Mas o simples direito de eleger o diretor não significa uma escola democrática, mas sim possibilidades para tal edificação. Por isso, é fundamental que todos os segmentos da escola possam debater com os candidatos o projeto de ação apresentado no ato da inscrição de sua candidatura. Debater significa politizar a comunidade escolar e poder avançar em compromissos de uma abertura à participação de pais nas decisões que a escola toma. Cidadania se faz em atos, assim como democracia é um ato político que se faz com o exercício pleno da cidadania.

outubro 26, 2008

Mídia e eleições

A mídia em Maringá montou um farsa democrática para fugir dos debates políticos. Os partidos foram envolvidos no canto da sereia midiática que resolveu fazer "entrevistas", com tempo iguais a a cada candidato, o que acenaria aos eleitores sua neutralidade política. Para não politizar a política escolheu-se o caminho da negação da política, reservando um "espaço" para cada candidato apresentar sua proposta. A mídia e setores conservadores da sociedade apostaram não no discurso politizado do partido e do candidato, mas no jogo das promessas. O resultado foi notável. A sociedade deixou de observar um velho ditado, que diz "as aparências enganam".

Eleição no SISMMAR

O segundo turno nas eleições para o SISMMAR vai esquentar. Tem dois projetos em disputa, um do PT e o outro do PSTU. As eleições vão além do domínio da província, pois está centrada na disputa pela hegemonia no movimento sindical nacional, cujos partidos tem interesses. O PT local quer retornar ao sindicato e voltar a filiar-se à CUT e o PSTU quer manter-se no poder, para manter o sindicato filiado ao Conlutas. Ambos partidos estão empenhados nessa disputa e "profissionais", tanto da Conlutas, quanto da CUT, estão trabalhando para eleger a "sua" chapa, o que é natural no processo. Resta saber em quem os eleitores da chapa derrotada vão votar.


outubro 24, 2008

"Morte da ditadura do mercado e refundação do capitalismo"

PRESIDENTE DA FRANÇA AFIRMA

Ao anunciar a criação de um fundo soberano para investir nos setores estratégicos da indústria francesa, presidente Nicolas Sarkozy proclamou a morte da ditadura do mercado e defendeu a necessidade uma intervenção estatal em bloco, na União Européia. Segundo ele, crise atual é sem precendentes e "põe em perigo o próprio futuro da humanidade".

O "New Deal" francês: Por que não aqui?

Medidas anunciadas ontem pelo Presidente francês, Nicolas Sarkozy, podem significar , no plano produtivo, aquilo que o "plano Brown" representou na esfera financeira da crise: a definição de um novo modelo econômico para superar o ciclo do capitalismo neoliberal.

Algumas decisões tomadas pelo governo francês:

a) Criação de um Fundo Estratégico de Investimentos de 200 bilhões de euros para capitalizar empresas produtivas atingidas pela crise e expandir a atividade econômica;

b) Ampliação do Plano Plurianual de Investimentos (2009 e 2012).

c) Mais 175 bilhões de euros serão investidos em pesquisa científica, educação superior e projetos nas áreas de defesa, energia e transportes.

d) Universalização da banda larga na França com aportes estatais de 30 bilhões de euros nos próximos três anos.

e) Isenção do Imposto Profissional (uma das quatro grandes taxas francesas) para empresas que anunciarem novos investimentos até 31 de dezembro de 2010.

f) Desoneração fiscal significativa sobre a produção de manufaturados industriais.

Redação - Carta Maior

A relação entre as finanças e a economia da produção e do consumo

outubro 23, 2008

Ah, para com isso!

O que é que a banana suicida falou?
Macacos me mordam!

Qual é o doce preferido do átomo?
Pé-de-moléculas.

O que um cromossomo disse para o outro?
Oh! Cromossomos felizes!

Como as enzimas se reproduzem?
Fica uma enzima da outra.

O que é um ponto marrom no pulmão?
Uma brownquite.

O que o canibal vegetariano come?
A planta do pé e a batata da perna.

O que o espermatozóide falou para o óvulo?
Deixa eu morar com você porque a minha vida é um saco.

Por que a vaca foi para o espaço?
Para se encontrar com o vácuo.
Do blog Particularidade publicada

outubro 20, 2008

Vendas de 'O Capital', de Marx, triplicam em meio à crise


Com o sistema financeiro em crise, a teoria marxista ganha novo fôlego. Duas décadas após a queda do muro de Berlim, a crise global provocou uma corrida às livrarias alemãs pelo clássico O Capital. Publicado em 1867, a obra-prima do filósofo Karl Marx analisa o modo de produção do capitalismo e serviu de base para a ideologia marxista.

“Marx voltou à moda, e a procura por suas obras está em alta”, declarou o editor Joern Schuetrumpf ao jornal Neue Ruhr Zeitung. Schuetrumpf é o responsável pela editora Karl-Dietz, de Berlim, que publica a obras de Marx e Friedrich Engels em alemão. Segundo ele, as vendas do primeiro volume de O Capital triplicaram, saltando de 500 cópias em 2005 para 1.500 exemplares em 2008.
Para o mês de dezembro, a editora espera um aumento ainda maior da demanda. Tudo porque algumas das teorias escritas pelo filósofo — entre as quais aquela que afirma que o capitalismo em excesso acaba por se autodestruir — estão mais atuais do que nunca. Na opinião do editor Schuetrumpf, os leitores pertencem a “uma nova geração de eruditos que reconheceu que as promessas neoliberais não se realizaram”.
O próprio governo alemão pode ter contribuído para o fenômeno de vendas de Marx nas livrarias. No fim de setembro, o ministro das Finanças alemão, Peer Steinbrueck, declarou ao jornal Der Spiegel que ''tudo o que está acontecendo mostra que algumas partes da teoria marxista não estavam tão erradas''.
Karl Marx, nascido em 1818 na Alemanha, foi um dos mais célebres críticos do capitalismo. Sua visão da História previa a dissolução desse sistema, dando origem a um diferente modo de produção, do tipo socialista.

outubro 19, 2008

John Reed, um jornalista que abalou o mundo


• O norte-americano John Reed, um dos jornalistas de maior fama do século XX, nasceu em Portland, em 22 de outubro de 1887 e morreu em Moscou, no dia 19 do mesmo mês, três dias antes de completar 33 anos, apenas um ano após publicar seu livro mais célebre que com propriedade intitulou Dez dias que abalaram o mundo. Uma notável reportagem a respeito de como se instalou na então Rússia o primeiro regime socialista do planeta.

Correspondente na Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914, Reed chegou à Rússia em 1917, onde foi testemunha dos acontecimentos que antecederam à tomada do poder pelos bolcheviques e da própria Revolução de Outubro. Dez dias... foi editado pela primeira vez nos Estados Unidos e levou um prefácio de Lênin, enquanto na publicação em russo o prólogo é de Nadezda Krupskaya, esposa do líder máximo da revolução socialista e ao mesmo tempo comissária (ministra) de cultura.

O magistral texto permanece até hoje como um exemplo para a profissão jornalística. No prólogo, o autor aponta: “Durante a luta, minhas simpatias não eram neutras. Mas ao traçar a história destas grandes jornadas, tentei estudar os acontecimentos como um cronista que se esforça por refletir a verdade”. Ele ainda agrega: “Este livro é um fragmento da história tal como eu a vi. Só pretende ser um relato detalhado da Revolução de Outubro, isto é, daquelas jornadas em que os bolcheviques à cabeça dos operários e soldados de Rússia, tomaram o Estado e o puseram nas mãos dos sovietes”.

No prefácio da edição norte-americana, Vladimir Ilich Lênin escreveu: “Do fundo do meu coração, recomendo aos operários de todos os países. Desejaria que este livro circulasse por milhões de exemplares e que fosse traduzido para todas as línguas, porque traça um quadro exato e extraordinariamente vivo de acontecimentos que tão grande importância tiveram para o entendimento da revolução proletária”. Por sua vez, Kruspskaya assinalou: “O livro de John Reed oferece um quadro global da insurreição das massas populares tal como realmente se produziu (…) Em seu gênero, o livro de Reed é uma epopéia”. Ela ainda assinala: “Não costumam escrever assim os estrangeiros sobre a Rússia Soviética. Ou não entendem os acontecimentos ou generalizam os fatos isolados. A verdade é que nenhum deles foi uma testemunha pessoal da revolução”.

Bom poeta e contista reputado, Reed brilhou mesmo no jornalismo. Nesta área, como confirmam seus trabalhos e como ele mesmo proclama, não foi neutro, mas se ateve ao princípio básico do ofício, que é refletir a realidade mediante uma investigação científica – no sentido da objetividade – para a análise das origens e perspectivas dos acontecimentos. Max Eastman, co-editor da revista The Masses, na qual trabalhou Reed, afirmou numa homenagem em sua memória: “Reed conhecia o frio tom da voz do cientista que vê as coisas como são. Foi um poeta que entendeu a ciência, um idealista capaz de se enfrentar com os fatos. Localizou-se entre os melhores da profissão de jornalismo nos Estados Unidos”.

Aos 24 anos, Reed foi ao México onde reportou a Revolução Mexicana de 1911 a 1914. Essa experiência rendeu o seu livro México Insurgente, onde narra suas vivências com as tropas do general Pancho Villa. Anos depois, essas reportagens serviriam de base para um filme de Hollywood com o mesmo nome. Outros filmes, como Reds e Sinos Vermelhos aludem da mesma forma a vida de Reed. Seu trabalho informativo na Primeira Guerra encontra-se em sua obra A guerra na Europa oriental, de 19l6.

No plano ideológico, Reed optou pelo marxismo e foi um dos fundadores do Partido Comunista dos Estados Unidos e depois membro do Comitê Executivo da Terceira Internacional, razão pela qual se encontrava em Moscou quando foi atacado por uma epidemia de tifo que o matou. Incorporado às batalhas sociais, ele foi julgado e encarcerado no seu regresso aos EUA depois de voltar da Rússia Soviética. O governo daquele país aplicou a Lei de Espionagem, mas Reed não foi condenado.

Hernán Uribe, do Chile

Fonte: www.argenpress.info

outubro 18, 2008

Crise capitalista

“É por si mesmo evidente que no período de crise faltem meios de pagamento. A conversibilidade das letras substitui a própria metamorfose das mercadorias e tanto mais quanto mais, nessa época, aumenta o número de casas comerciais que operam unicamente a crédito. Legislação bancária inepta e absurda, como a de 1844-45, pode agravar essa crise monetária. Mas, nenhuma legislação bancária poderia eliminá-la.

Num sistema de produção em que o mecanismo do processo de reprodução repousa sobre o crédito, se este cessa bruscamente admitindo-se apenas pagamento de contado, deve evidentemente sobrevir crise, corrida violenta aos meios de pagamento. Por isso, à primeira vista, toda crise se configura como crise de crédito e crise de dinheiro. E na realidade trata-se apenas da conversibilidade das letras em dinheiro. Mas, essas letras representam, na maioria dos casos, compras e vendas reais, cuja expansão ultrapassa de longe as exigências da sociedade, o que constitui em última análise a razão de toda a crise. Ademais, massa enorme dessas letras representa especulações puras que desmoronam à luz do dia; ou especulações conduzidas com capital alheio, porém mal sucedidas; finalmente, capitais-mercadorias que se depreciaram ou ficaram mesmo invendáveis, ou retornos irrealizáveis de capital. Não pode remediar a todo o sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução a circunstância de um banco, o Banco da Inglaterra, por exemplo, fornecer em bilhetes o capital que falta a todos os especuladores e comprar todos os valores depreciados aos antigos valores nominais. Tudo aqui está às avessas, pois, nesse mundo de papel, nenhures aparecem o preço real e seus elementos efetivos, vendo-se apenas barras, dinheiro sonante, bilhetes, letras, valores mobiliários. Essa deformação aparece principalmente nos centros como Londres, onde se concentram todos os negócios financeiros de um país; todo o processo se torna incompreensível; já menos, nos centros de produção.”
(Karl Marx. O Capital. Livro 3. Capítulo 30. Capital dinheiro e capital real I)

outubro 17, 2008

Ha vida pós-morte?

A morte do que é vivo é uma realidade e uma inevitabilidade. Todos os seres que nascem, morrem. E a vida pós-morte? Essa se torna um objeto de estudos filosóficos. O problema são os postulados religiosos, que edificados por seus princípios, só aceitam a sua verdade, como um dogma. Isso é de criadores se tornam criaturas do que criaram e acabam se submetendo a esses princípios de vida, que servem para regular a vida em sociedade. O medo da morte, em determinadas sociedades, faz com que seus povos aceitem "certos" princípios religiosos, como o da existência da vida pós-morte, como se fosse possível negar a própria morte.

Democracia escolar?

Esse ano teremos eleições para diretores nas escolas da rede estadual. As eleições assegura a democracia escolar? Não. Ela é um instrumento importante para democratizar o poder, mas isso, por si só, não garante uma gestão democrática. É preciso que o gestor seja democrática, para que as instituições existentes na escola possam ser democratizadas, de fato. Em muitas escolas, as eleições servem para "acomodar" grupos vencedores aos seus propósitos, o que elimina qualquer possibilidade de participação popular no poder e a arrogância e o autoritarismo reina de forma absoluta nessas instituições. A escola se fecha em si mesma, como se fosse uma ilha e passa a ignorar o seu entorno, chamando a comunidade para referendar, simplesmente, seus atos. Essa escola, antidemocrática e fechada, fica refém de sí mesma, perdendo a oportunidade de poder construir um projeto de ação política que valorize seus sujeitos, isto é, toda a comunidade, tornando seu entorno um sujeito de ação no processo de ensino e de aprendizagem.
A democracia é uma chave que abre essas possibilidades, a da construção de uma nova hegemonia que se abre à participação popular na construção de escola que queremos. Uma escola humanizada, no seu sentido lato.

outubro 14, 2008

O Professor Morde a Realidade

O professor é um maníaco ou não é nada. O professor é um alienador ou não serve. Essas duas normas precisam ser observadas, caso contrário, não temos educação.

O professor é um maníaco, pois entra ministro da educação e sai ministro, entra secretário e sai secretário, entra governo e sai governo e nada melhora a condição de trabalho e salário do professor, mas ele continua lá, firme, com mania de ensinar.

O professor é um alienador, pois ele precisa alienar as crianças e jovens de uma situação de "monólogo" para vinculá-los a uma situação de diálogo; deve fazer os estudantes atravessar a ponte do saber que possuem para entrar no ambiente dos saberes que a cultura universal abriga. E isso, a despeito das "pedagogias descabeladas" que algum novo burocrata da educação quer lhe enfiar goela abaixo.

Essa postura de maníaco e de alienador é que garante ao bom professor que ele resista à campanha de difamação que criam contra ele, exatamente quando divulgam pesquisas dizendo que ele é mal formado sem divulgar, junto disso, sua história: quanto é seu salário, em que condições ele se formou e como que ele consegue trabalhar na escola pública abandonada pelo Estado. Aliás, o Estado só aparece para jogar trabalho burocrático sobre ele, e fingir que lhe dá bônus, quando apenas cria mecanismos de falsa premiação que, na verdade, são mecanismos de punição por faltas não cometidas.

Politicamente o professor enfrenta um governo federal que transformou o piso salarial em teto, em algumas regiões, e em outras apenas colocou um piso para municípios sem recursos. Cultural e ideologicamente o professor enfrenta a Revista Veja, que visa destruir seus heróis, como tem tentado fazer – felizmente sem êxito – com Paulo Freire, ou simplesmente colocar uma campanha para abaixar seu salário, dizendo que salário não melhora a condição intelectual do professor.

Na parte técnica, tem de enfrentar tipos como Gilberto Dimenstein, que parecem bem intencionados, mas que "não sabem das coisas". Por esses dias o jornalista divulgou uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas (encomendada pelo Grupo Positivo?) dizendo que os professores não sabem ensinar matemática, e que isso era devido à falta de "metodologia" nos cursos de pedagogia. Ora, nós todos sabemos que o problema do ensino de matemática e ciências não é este, mas é, sim, um velho drama: a cultura brasileira não valoriza, entre as crianças, esse tipo de saber e joga para o magistério – por uma série de fatores – os que menos gostam dessas disciplinas, ou melhor, os que menos gostam da cultura em geral.

Novamente, a questão salarial é o peso central, que faz com que o magistério tenha gente menos apta. Melhorando salários, melhoramos o nosso exército de professores. É assim em todo e qualquer país. Pedagogia é algo que só vinga se os professores ganham bem e são bem formados. Fora disso, a pedagogia tem muito pouco a fazer. Aliás, quanto a isso, nem mesmo a "pedagogia de Paulo Freire" pode lutar. Quando Freire pensou em uma pedagogia eficaz, mesmo em condições de pobreza, ele a imaginou motivado por uma situação política de renovação ou revolução, mas não no contexto do marasmo político.

Nessa luta cotidiana, o professor que está na sala de aula enfrenta a violência. Há dados que mostram que 80% dos professores do Estado de São Paulo já foram agredidos ao menos uma vez em sala de aula – agredidos fisicamente! Por alunos!

Mas, a despeito disso tudo, o professor continua seu trabalho, pois é maníaco. Ele aliena, pois quer fazer a educação se efetivar segundo a etimologia da palavra, que tem a ver com "puxar pelos cabelos", arrancando o aluno de uma situação para elevá-lo para outra, em uma acepção, e também tem a ver com "promover o que há no interior do aluno", em outra acepção – pois a palavra educação vem de educare e educere.

Neste dia do professor, em 2008, eu aponto para cada herói da sala de aula no Brasil e digo: vocês devem continuar, pois o ministro e a mídia passam, e vocês sempre ficarão. Vocês mordem a realidade, os outros, seus detratores, mordem a si mesmos.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

12/10/2008

outubro 13, 2008

O capitalismo tentou romper seus limites históricos e criou um novo 1929, ou pior

"Não quero parecer um pastor com a sua Bíblia marxista, mas quero ler uma passagem de O Capital: o verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital; é o fato de que, nela, são o capital e a sua própria valorização que constituem o ponto de partida e a meta, o motivo e o fim da produção. O meio empregado - desenvolvimento incondicional das forças sociais produtivas - choca constantemente com o fim perseguido, que é um fim limitado: a valorização do capital existente". Leia a íntegra da palestra do economista francês François Chesnais feita em setembro, em Buenos Aires.

Nesta apresentação feita em 18 de Setembro em Buenos Aires, o economista marxista francês François Chesnais expõe a forma como o capitalismo, na sua longa fase de expansão, tentou superar os seus limites imanentes. E como todas essas tentativas contribuíram para criar agora uma crise muito maior. Comparável à de 1929, mas que ocorre num contexto totalmente novo.

A tese que vou apresentar defende que no ano passado produziu-se uma verdadeira ruptura, que deixa para trás uma longa fase de expansão da economia capitalista mundial; e que essa ruptura marca o início de um processo de crise com características que são comparáveis à crise de 1929, ainda que venha a desenvolver-se num contexto muito diferente.

A primeira coisa que é preciso recordar é que a crise de 1929 se desenvolveu como um processo: um processo que começou em 1929, mas cujo ponto culminante se deu bastante depois, em 1933, e que logo abriu caminho a uma longa fase de recessão. Digo isto para sublinhar que, na minha opinião, estamos a viver as primeiras etapas, mas realmente as primeiras, primeiríssimas etapas de um processo dessa amplitude e dessa temporalidade. E que o que nestes dias está acontecendo e tem como cenário os mercados financeiros de Nova York, de Londres e de outros grandes centros bolsistas, é somente um aspecto - e talvez não seja o aspecto mais importante - do que se deve interpretar como um processo histórico.

Estamos diante de um desses momentos em que a crise vem exprimir os limites históricos do sistema capitalista. Não se trata de alguma versão da teoria da "crise final" do capitalismo, ou algo do estilo. Do que sim se trata, na minha opinião, é de entender que estamos confrontados com uma situação em que se exprimem estes limites históricos da produção capitalista. Não quero parecer um pastor com a sua Bíblia marxista, mas quero ler-vos uma passagem de O Capital:

"O verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital; é o fato de que, nela, são o capital e a sua própria valorização que constituem o ponto de partida e a meta, o motivo e o fim da produção; o fato de que aqui a produção é só produção para o capital e, inversamente, não são os meios de produção simples meios para ampliar cada vez mais a estrutura do processo de vida da sociedade dos produtores. Daí que os limites dentro dos quais tem de mover-se a conservação e a valorização do valor-capital, a qual descansa na expropriação e na depauperção das grandes massas de produtores, choquem constantemente com os métodos de produção que o capital se vê obrigado a empregar para conseguir os seus fins e que tendem para o aumento ilimitado da produção, para a produção pela própria produção, para o desenvolvimento incondicional das forças produtivas do trabalho. O meio empregado - desenvolvimento incondicional das forças sociais produtivas - choca constantemente com o fim perseguido, que é um fim limitado: a valorização do capital existente. Por conseguinte, se o regime capitalista de produção constitui um meio histórico para desenvolver a capacidade produtiva material e criar o mercado mundial correspondente, envolve ao mesmo tempo uma contradição constante entre esta missão histórica e as condições sociais de produção próprias deste regime. (1)

Bom, certamente que há algumas palavras que hoje já não utilizamos, como "missão histórica"... Mas creio que o que vamos ver nos próximos anos vai dar-se precisamente na base de já ter sido criado em toda a sua plenitude esse mercado mundial intuído por Marx. Quer dizer, temos um mercado e uma situação mundial diferentes da de 1929, porque nessa altura países como a China e a Índia eram ainda semi-coloniais, enquanto que agora já não têm esse caráter; são grandes países que, mais além de terem um caráter combinado que requer uma análise cuidadosa, são agora participantes de pleno direito dentro de uma economia mundial única, uma economia mundial unificada num grau desconhecido até esta etapa da história. A citação pode ajudar-nos a entender o momento atual, e a crise que se iniciou precisamente neste marco de um só mundo.

Um novo tipo de crise
Na minha opinião, nesta nova etapa, a crise vai desenvolver-se de tal modo que as primeiras e realmente brutais manifestações da crise climática mundial vão combinar-se com a crise do capital enquanto tal. Entramos numa fase em que se coloca realmente uma crise da humanidade, dentro de complexas relações nas quais se incluem também os acontecimentos bélicos, mas o mais importante é que, mesmo excluindo a explosão de uma guerra de grande amplitude que, no presente momento, só podia ser uma guerra atómica, estamos confrontados com um novo tipo de crise, com uma combinação desta crise econômica, que começou, com uma situação na qual a natureza, tratada sem a menor contemplação e atacada pelo homem no marco do capitalismo, reage agora de forma brutal. Isto é uma coisa quase excluída das nossas discussões, mas que vai impor-se como um fato central.

Por exemplo, muito recentemente, lendo o trabalho de um sociólogo francês, fiquei a saber que os glaciares andinos dos quais flui a água com que se abastecem La Paz e El Alto estão esgotados em mais de 80%, e estima-se que dentro de 15 anos La Paz e El Alto não vão ter água... e, no entanto, isto é algo que nunca foi tratado, nunca se discutiu um fato de tamanha magnitude que pode fazer com que a luta de classes na Bolívia, tal como a conhecemos, mude substancialmente - por exemplo fazendo com que a tal controversa mudança da capital para Sucre se imponha como uma coisa "natural", porque acabou a água em La Paz.

Estamos entrando num período desse tipo e o problema é que quase não se fala disso, enquanto que nos ambientes revolucionários continuam a discutir-se coisas que neste momento são minúcias, questões completamente mesquinhas em comparação com os desafios que temos pela frente.

Limites imanentes do capitalismo
Para continuar com a questão dos limites do capitalismo, quero chamar a atenção para uma citação de Marx, imediatamente anterior à já citada: "A produção capitalista aspira constantemente a superar estes limites imanentes a ela, mas só pode superá-los recorrendo a meios que voltam a levantar diante dela estes mesmo limites, e ainda com mais força". (2) Esta indicação introduz-nos a análise e a discussão dos meios a que se recorreu, durante os últimos 30 anos, para superar os limites imanentes do capital.

Esses meios foram, em primeiro lugar, todo o processo de liberalização das finanças, do comércio e do investimento, todo o processo de destruição das relações políticas surgidas na raíz da crise de 29 e dos anos 30, depois da Segunda Guerra Mundial e das guerras de libertação nacional... Todas essas relações, que exprimiam o domínio do capital mas representavam ao mesmo tempo formas de controle parcial do mesmo capital, foram destroçadas e, por algum tempo, pareceu ao capital que com isto ficavam superados os limites postos à sua atuação.

A segunda forma que se escolheu para superar esses limites imanentes do capital foi recorrer, numa escala sem precedentes, à criação de capital fictício e de meios de crédito para ampliar uma procura insuficiente no centro do sistema.

E a terceira forma, a mais importante historicamente para o capital, foi a reincorporação, enquanto elementos plenos do sistema capitalista mundial, da União Soviética e seus "satélites", e da China.

Só no marco das resultantes destes três processos é possível captar a amplitude e a novidade da crise que se inicia.

Liberalização, mercado mundial, competição... Comecemos por nos interrogar sobre o que significou a liberalização e a desregulação levadas a cabo à escala mundial, com a incorporação do antigo "campo" soviético e a incorporação e a modificação das relações de produção na China... O processo de liberalização e desregulação significou o desmantelamento dos poucos elementos reguladores que se tinham construído no marco internacional ao sair da Segunda Guerra Mundial, para entrar num capitalismo totalmente desregulamentado. E não só desregulamentado, como também um capitalismo que criou realmente o mercado mundial no pleno sentido do termo, convertendo em realidade o que era em Marx uma intuição ou antecipação. Pode ser útil precisar o conceito de mercado mundial e ir talvez mais além da palavra mercado.

Trata-se da criação de um espaço livre de restrições para as operações do capital, para produzir e realizar mais-valias, tomando este espaço como base e processo de centralização de lucros à escala verdadeiramente internacional. Esse espaço aberto, não homogêneo mas com uma redução drástica de todos os obstáculos à mobilidade do capital, essa possibilidade para o capital de organizar à escala universal o ciclo de valorização, está acompanhado de uma situação que permite pôr em competição entre si os trabalhadores de todos os países. Quer dizer, sustenta-se no fato de o exército industrial de reserva ser realmente mundial e de ser o capital como um todo que rege os fluxos de integração ou de repulsão, nas formas estudadas por Marx.

Este é então o marco geral de um processo de "produção para a produção" em condições em que a possibilidade de a humanidade e as massas do mundo acederem a essa produção é totalmente limitada... e, portanto, torna-se cada vez mais difícil o encerramento com êxito do ciclo de valorização do capital, para o capital no seu conjunto, e para cada capital em particular. E por isso se ampliam e se fazem mais determinantes no mercado mundial "as leis cegas da competição". Os bancos centrais e os governos podem proclamar que vão pôr-se de acordo entre si e colaborar para impedir a crise, mas não creio que se possa introduzir a cooperação no espaço mundial convertido em cenário de uma tremenda competição entre capitais.

E agora, a competição entre capitais vai muito mais além das relações entre os capitais das partes mais antigas e mais desenvolvidas do sistema mundial, com os sectores menos desenvolvidos do ponto de vista capitalista. Porque sob formas particulares e inclusive muito parasitárias, no marco mundial deram-se processos de centralização do capital por fora do marco tradicional dos centros imperialistas: em relação com eles, mas em condições que também introduzem algo totalmente novo no marco mundial.

Durante os últimos 15 anos, e em particular durante a última etapa, desenvolveram-se, em determinados pontos do sistema, grupos industriais capazes de integrar-se como sócios de pleno direito nos oligopólios mundiais. Tanto na Índia como na China constituíram-se verdadeiros e fortes grupos econômicos capitalistas. E, no plano financeiro, como expressão do rentismo e do parasitismo puro, os chamados Fundos Soberanos converteram-se em importantes pontos de centralização do capital sob a forma de dinheiro, que não são meros satélites dos Estados Unidos, têm estratégias e dinâmicas próprias e modificam de muitas maneiras as relações geopolíticas dos pontos-chave em que a vida do capital se faz e fará.

Por isso, outro elemento a ter em conta é que esta crise tem como outra de suas dimensões a de marcar o fim da etapa em que os Estados Unidos podiam atuar como potência mundial sem comparação... Na minha opinião, saímos do momento que analisava Mészáros no seu livro de 2001, e os Estados Unidos vão ser submetidos a uma prova: num prazo muito curto, todas as suas relações mundiais modificaram-se e terão, no melhor dos casos, de renegociar e reordenar todas as suas relações com base no facto de que têm de partilhar o poder. E isto, evidentemente, é algo que nunca aconteceu de forma pacífica na história do capital...

Então, primeiro elemento: um dos métodos escolhidos pelo capital para superar os seus limites transformou-se em fonte de novas tensões, conflitos e contradições, indicando que uma nova etapa histórica vai abrir caminho através desta crise.

Criação descontrolada de capital fictício
O segundo meio utilizado para superar os limites do capital das economias centrais foi que todas elas recorreram à criação de formas totalmente artificiais de ampliação da procura efectiva, as quais, somando-se a outras formas de criação de capital fictício, geraram as condições para a crise financeira que se desenvolve hoje. No artigo que os companheiros de Herramienta tiveram a gentileza de traduzir para o espanhol e publicar, abordei com alguma profundidade esta questão do capital fictício e as novas formas que se deram dentro do próprio processo de acumulação do capital fictício.

Para Marx, o capital fictício é a acumulação de títulos que são "sombra de investimentos" já feitos mas que, como títulos de bônus e de ações, aparecem com o aspecto de capital aos seus detentores. Não o são para o sistema como um todo, para o processo de acumulação, mas são-no sim para os seus detentores e, em condições normais de fechamento de processos de valorização do capital, rendem aos seus detentores dividendos e juros. Mas o seu caráter fictício revela-se em situações de crise. Quando ocorrem crises de sobreprodução, falência de empresas, etc., descobre-se que esse capital não existia...

Por isso também pode ler-se às vezes nos jornais que tal ou qual quantidade de capital "desapareceu" nalgum tropeço bolsista: essas quantias nunca tinham existido como capital propriamente dito, apesar de, para os detentores dessas ações, representarem títulos que davam direito a dividendos e juros, a receber lucros...

Evidentemente, um dos grandes problemas de hoje é que, em muitíssimos países, os sistemas de aposentadoria estão baseados em capital fictício, com pretensões de participação nos resultados de uma produção capitalista que pode desaparecer em momentos de crise. Toda a etapa de liberalização e de globalização financeira dos anos 80 e 90 esteve baseada em acumulação de capital fictício, sobretudo em mãos de fundos de investimento, fundos de pensões, fundos financeiros... E a grande novidade desde finais ou meados dos anos 90 e ao largo dos anos 2000 foi, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha em particular, o impulso extraordinário que se deu à criação de capital fictício na forma de crédito.

De crédito a empresas, mas também e sobretudo de créditos às famílias, crédito ao consumo e sobretudo créditos hipotecários. E isso fez dar um salto na massa de capital fictício criado, dando origem a formas ainda mais agudas de vulnerabilidade e de fragilidade, inclusive diante de choques menores, inclusive diante de episódios absolutamente previsíveis. Por exemplo, com base em tudo estudado anteriormente, sabia-se que um boom imobiliário acaba; que inexoravelmente chega um momento em que, por processos muito bem estudados, termina; e, se pode até ser relativamente compreensível que no mercado de ações existisse a ilusão de que não havia limites para a alta no preço das acções, com base em toda a história anterior sabia-se que que isso não podia ocorrer no setor imobiliário: quando se trata de edifícios e de casas é inevitável que chegue o momento em que o boom acaba.

Mas colocaram-se em tal situação de dependência, que esse acontecimento completamente normal e previsível transformou-se numa crise tremenda. Porque a tudo o que já disse, juntou-se o fato de que durante os dois últimos anos os empréstimos eram feitos a famílias que não tinham a menor possibilidade de pagar. Além disso, tudo isso se combinou com as novas "técnicas" financeiras, permitindo-se assim que os bancos vendessem bônus em condições tais que ninguém podia saber exatamente o que estava a comprar... até a explosão dos subprime em 2007.

Agora estão desmontando este processo. Mas dentro dessa desmontagem, há processos de concentração do capital financeiro. Quando o Bank Of America compra o Merrill Lynch, estamos diante de um processo de concentração clássico. E vemos além disso estes processos de estatização das dívidas, que implicam na criação imediata de mais capital fictício. O Federal Reserve dos Estados Unidos cria mais capital fictício para manter a ilusão de um valor do capital que está à beira de desmoronar, com a perspectiva de ter, em algum momento dado, a possibilidade de aumentar fortemente a pressão fiscal, mas na realidade não pode fazê-lo porque isso significaria o congelamento do mercado interno e a aceleração da crise enquanto crise real.

Assistimos, pois, a uma fuga em frente que não resolve nada. Dentro desse processo existe também o avanço dos Fundos Soberanos, que procuram modificar a repartição intercapitalista dos fluxos financeiros a favor dos sectores rentistas que acumularam estes fundos. E isto é um fator de perturbação ainda maior no processo.

Quero recordar, para terminar este ponto, que esse déficit comercial de cinco pontos do PIB é o que confere aos Estados Unidos a particularidade desse lugar-chave para a concretização do ciclo do capital no momento da realização da mais-valia, para o processo capitalista no seu conjunto.

Confrontados agora com uma quase inevitável retração econômica, coloca-se como a grande interrogação se, num curto prazo, a procura interna chinesa poderá passar a ser o lugar que garanta esse momento de realização da mais-valia que se dava nos Estados Unidos. A amplitude da intervenção do Tesouro é muito forte e conseguiu que a contração da atividade nos EUA e a queda das importações tenha sido até agora muito limitada. O problema é saber quanto tempo se poderá ter como único método de política econômica criar mais e mais liquidez... Será possível que não haja limites à criação de capital fictício sob a forma de liquidez para manter o valor do capital fictício já existente? Parece-me uma hipótese demasiado otimista, e entre os próprios economistas norte-americanos, muitos duvidam.

Super-acumulação na China?
Para terminar, chegamos à terceira maneira pela qual o capital superou os seus limites imanentes, que é definitivamente a mais importante de todas e levanta as interrogações mais interessantes. Refiro-me à extensão, em particular para a China, de todo o sistema de relações sociais de produção do capitalismo. Algo que Marx mencionou nalgum momento como possibilidade, mas que só se fez realidade durante os últimos anos. E realizou-se em condições que multiplicam os fatores de crise.

A acumulação do capital na China fez-se com base em processos internos, mas também com base em algo que está perfeitamente documentado, mas pouco comentado: a transferência de uma parte importantíssima do Setor II da economia, o setor da produção de meios de consumo, dos Estados Unidos para a China. E isto tem muito a ver com o grosso dos déficits norte-americanos (o déficit comercial e o fiscal), que só poderiam reverter-se por meio de uma "reindustrialização" dos Estados Unidos.

Isto significa que se estabeleceram novas relações entre os Estados Unidos e a China. Já não são as relações de uma potência imperialista com um espaço semicolonial. Os Estados Unidos criaram relações de um novo tipo, que agora têm dificuldades de reconhecer e de assumir. Com base no superávit comercial, a China acumula milhões e milhões de dólares, que logo empresta aos Estados Unidos. Temos uma ilustração das consequências que isto traz com a nacionalização dessas duas entidades chamadas Fannie Mae e Freddy Mac: ao que parece, a banca da China tinha 15% dos fundos dessas duas entidades e comunicou ao governo americano que não aceitaria a sua desvalorização. São relações internacionais de tipo completamente novo.

Mas que ocorre no seio da própria China? É a questão mais decisiva para a próxima etapa da crise. Na China deu-se internamente um processo de competição entre capitais, que se combinou com processos de competição entre sectores do aparelho político chinês, e de competição para atrair empresas estrangeiras; tudo isso resultou num processo de criação de imensas capacidades de produção, além de violentar a natureza numa escala enorme: na China concentra-se uma super-acumulação de capital que num momento dado se tornará insustentável.

Na Europa, é evidente a tendência a uma aceleração da destruição de capacidades produtivas e de postos de trabalho, para transferir-se para o único paraíso do mundo capitalista que é a China. Considero que esta transferência de capitais para a China significou uma reversão de processos anteriores de uma alta da composição orgânica do capital. A acumulação é intensiva em meios de produção e é intensiva e muito delapidadora da outra parte do capital constante, quer dizer, das matérias primas. A maciça criação de capacidades de produção no Setor I foi acompanhada por todos os mecanismos e o impulso que caracterizam o crescimento da China, mas o mercado final para sustentar toda essa produção é o mercado mundial, e uma retração deste colocará em evidência essa super-acumulação do capital.

Alguém como Aglietta, que estudou isto especificamente, afirma que realmente há super-acumulação, há um processo acelerado de criação produtiva na China, um processo que, no momento em que terminar - e tem de terminar - a realização de toda essa produção vai levantar problemas. Além disso, a China é realmente um lugar decisivo, porque até pequenas variações na sua economia determinam a conjuntura de muitos outros países no mundo. Foi suficiente que a procura chinesa por bens de investimento caísse um pouco, para que a Alemanha perdesse exportações e entrasse em recessão. As "pequenas oscilações" na China têm repercussões fortíssimas noutros lugares, como deveria ser evidente no caso da Argentina.

Para continuar a pensar e a discutir
E regresso ao que disse no início. Ainda que sejam comparáveis, as fases desta crise serão diferentes das de 29, porque naquela época a crise de superprodução dos Estados Unidos verificou-se desde os primeiros momentos. Depois aprofundou-se, mas soube-se de imediato que se estava diante de uma crise de superpodução. Agora, em contrapartida, estão adiando esse momento com diversas políticas, mas não vão poder fazê-lo muito mais.

Simultaneamente, e como ocorreu também na crise de 29 e nos anos 30, ainda que em condições e sob formas diferentes, a crise combinar-se-á com a necessidade, para o capitalismo, de uma reorganização total da expressão das suas relações de forças econômicas no marco mundial, marcando o momento no qual os Estados Unidos verão que a sua superioridade militar é somente um elemento, e um elemento bastante subordinado, para renegociar as suas relações com a China e outras partes do mundo. Ou vai chegar o momento no qual dará o salto para uma aventura militar de consequência imprevisíveis.

Por tudo isto, concluo que vivemos muito mais que uma crise financeira, mesmo estando agora nessa fase. Estamos diante de uma crise muitíssimo mais ampla. Ora bem, tenho a impressão, pelo tom das diferentes perguntas e observações que me fizeram, que muitos são da opinião que estou a pintar um cenário de tipo catastrofista, de desmoronamento do capitalismo... Na realidade, creio que estamos diante do risco de uma catástrofe, mas já não do capitalismo, e sim de uma catástrofe da humanidade. De certa forma, se tomarmos em conta a crise climática, possivelmente já existe algo assim...

A minha opinião (junto com Mészáros, por exemplo, mas somos muito poucos os que damos importância a isto) é que estamos diante de um perigo iminente. O dramático é que, de momento, isto afeta diretamente populações que não são levadas em conta: o que está ocorrendo no Haiti parece que não tem a menor importância histórica; o que acontece em Bangladesh não tem peso mais além da região afetada; muito menos o que acontece na Birmânia, porque o controle da Junta militar impede que ultrapasse as suas fronteiras. E o mesmo na China: discutem-se os índices de crescimento, mas não as catástrofes ambientais, porque o aparelho repressivo controla as informações sobre as mesmas.

E o pior é que essa "opinião", que é constantemente construída pelos meios de comunicação, está interiorizada muito profundamente, inclusive em muitos intelectuais de esquerda. Tinha começado a trabalhar e a escrever sobre tudo isto, mas com o começo desta crise, de alguma forma tive de voltar a ocupar-me das finanças, ainda que não o faça com muito gosto, porque o essencial parece-me que se joga num plano diferente.

Para terminar: o fato de que tudo isto ocorre depois desta fase tão larga, sem paralelo na história do capitalismo, de 50 anos de acumulação ininterrupta (salvo um pequeníssima ruptura em 1974/1975), assim como também tudo o que os círculos capitalistas dirigentes, e em particular os bancos centrais, aprenderam da crise de 29, tudo isso faz com que a crise avance de maneira bastante lenta.

Desde setembro do ano passado, o discurso dos círculos dominantes vem afirmando, uma e outra vez, que "o pior já passou", quando o certo é que, uma e outra vez, "o pior" estava por vir. Mas insisto no risco de minimizar a gravidade da situação, e sugiro que nas nossas análises e na forma de abordar as coisas deveríamos incorporar a possibilidade, no mínimo a possibilidade, de que inadvertidamente estejamos também interiorizando esse discurso de que, definitivamente, "não acontece nada"...

* François Chesnais é economista, faz parte do Conselho Científico do ATTAC-França, é diretor de Carré Rouge e membro do conselho consultivo da revista Herramienta, com a qual colabora assiduamente.

(1) Karl Marx, El capital México, FCE, 1973, Vol. III, pág. 248.

(2) Idem.

(3) "El fin de un ciclo. Alcance y rumbo de la crisis financiera", en Herramienta Nº 37, marzo 2008.

outubro 12, 2008

Crise capitalista, a sombra de Marx

O capitalismo aconteceu. Quando e onde aconteceu, o capitalismo lançou a sua própria sombra especial: uma auto-crítica dos seus viéses básicos a afirmar que a sociedade moderna pode fazer melhor através do estabelecimento de sistemas económicos muitos diferentes, pós capitalistas. Esta sombra crítica levanta-se para aterrorizar o capitalismo quando – em períodos de crise tais como estes – fenómenos maus acontecem subitamente. Karl Marx, poeticamente, chamou-a o espectro que assombra o capitalismo.

A assim chamada crise financeira de hoje é um sintoma. A doença subjacente é o capitalismo: um sistema económico que tece conflitos implacáveis e destrutivos na produção e distribuição de bens e serviços. Empregadores e empregadores precisam cooperar para fazer a economia funcionar, mas eles são adversários eternos cujos conflitos explodem periodicamente em crises. Assim acontece hoje. O capitalismo também tolhe os empregadores naquelas lutas sem fim uns contra os outros a que chamamos competição. Isto periodicamente também resulta em conflitos e crises. E assim acontece hoje.

O conflito empregador-empregado contribuiu para o colapso capitalista global de hoje. Na década de 1970, os empregadores descobriram um meio de travar a lenta ascensão a longo prazo dos salários reais dos seus empregados. Através da deslocalização de empregos além mar para aproveitarem-se dos salários mais baratos, da atracção das mulheres americanas para a força de trabalho, da substituição de trabalhadores por computadores e outras máquinas, e da entrada de imigrantes de baixos salários, os empregadores rebaixaram os salários dos seus empregados mesmo quando eles produziam cada vez mais mercadorias para venda. Os resultados eram previsíveis. Por um lado, os lucros da companhia subiam (afinal de contas, os trabalhadores produziam cada vez mais sem receberem mais por isso). Por outro lado, após uns poucos anos, os salários estagnados dos trabalhadores demonstraram-se insuficientes para permitir-lhes comprar a crescente produção do seu trabalho. Dada a forma como o capitalismo funciona, empregadores incapazes de vender tudo o que produzem despedem os seus próprios empregados. E naturalmente isso só agrava o problema.

Então, na década de 1970, assomou uma outra crise capitalista quando uma recessão atingiu-o duramente. Mas aquela crise foi curta porque o capitalismo dos EUA descobriu um meio de adiá-la: endividamento maciço. Uma vez que os empregadores tinham êxito em impedir os salários de ascenderem, o único meio de vender a produção sempre em expansão era emprestar aos trabalhadores o dinheiro para comprar mais. Corporações investiram seus lucros em crescimento na compra de novos títulos apoiados por hipotecas, empréstimos para automóveis e cartões de crédito dos trabalhadores. Os possuidores de tais títulos estavam portanto aptos a receber porções dos pagamentos mensais que os trabalhadores faziam sobre aqueles empréstimos. Com efeito, os lucros extras feitos com a manutenção dos salários dos trabalhadores em baixo nível agora duplicavam direitos para os empregadores, que ganhavam substanciais pagamentos sob a forma de juros ao emprestarem parte daqueles lucros de volta aos trabalhadores. Que sistema!

O adiamento da solução para a crise da década de 1970 apenas preparou o caminho para uma ainda maior. Os florescentes empréstimos ao consumidor nas décadas de 1980 e 1990, e desde 2000, especialmente no desregulamentado mundo financeiro de Reagan e Bush, provocaram excessos selvagens motivados pelo lucro e também corrupção (a "bolha" do mercado de acções e a seguir a "bolha" imobiliária). Isto também carregou milhões de americanos com dívidas insustentáveis. Por volta de 2006, a maior parte dos extenuados mutuários – "sub-prime" – já não podia pagar mais o que deviam. Este castelo de cartas começou então a sua espiral de descida.

A competição entre empresas também contribuiu para esta crise. Quando alguns bancos fizeram grandes lucros apressando-se a emprestar aos trabalhadores, outros prestamistas temiam que aqueles bancos utilizariam tais lucros para superá-los competitivamente. De modo que eles também correram para o "empréstimo ao consumidor". Para levantar o dinheiro a fim de efectuar tão lucrativos empréstimos aos trabalhadores, os prestamistas fizeram uma utilização expandida de novos tipos de instrumentos financeiros, principalmente títulos apoiados pelas obrigações de dívidas dos trabalhadores (títulos cujos possuidores recebiam porções das prestações dos empréstimos dos trabalhadores). Os prestamistas dos EUA venderam estes títulos globalmente para mobilizar todo o cash do mundo. O mundo todo então foi arrastado para a dependência de um remoinho: o capitalismo estado-unidense a apoiar o poder de compra dos seus trabalhadores com empréstimos custosos porque ele já não elevava mais os seus salários. As companhias concorrentes de classificação (Fitch, Moody's, Standard and Poor, etc) avaliaram erradamente os perigos destes títulos. Estas companhias competiam pelo negócio de prestamistas que precisavam de altas classificações para vender os títulos apoiados por dívidas. Prestamistas privados e públicos de todo o mundo competiam uns com os outros pela compra de títulos apoiados pela dívida dos EUA porque os mesmos eram classificados como quase sem riscos e ainda pagavam altos taxas de juro.

A competição empresarial e os conflitos empregador-empregado – ambos componentes nucleares do capitalismo – foram as causas principais da "crise financeira" de hoje. Mas o enorme salvamento governamental agora proposto pelo secretário do Tesouro Paulson e pelo presidente do Fed, Bernanke, não trata nem do problema dos salários estagnados nem aquele da competição. Ao invés disso, o salvamento proposto planeia "consertar" a crise financeira com o lançamento de vastas somas de dinheiro aos grandes prestamistas na esperança de que eles retomem os empréstimos e assim puxem a economia para fora da crise. Uma vez que esta "solução" ignora os problemas subjacentes da nossa economia capitalista, suas perspectivas de êxito são fracas.

Nenhum questionamento, quem dirá desafio, ao papel do capitalismo é concebível para os líderes dos EUA. Muito pelo contrário, suas "políticas" objectivam principalmente a preservação do capitalismo – em grande medida pela manutenção da sua responsabilidade pela crise actual fora do debate público e portanto longe da acção política. Mas esta crise, como muitas outras, levanta o espectro de Marx, a sombra do capitalismo, mais uma vez. As duas mensagens básicas do espectro estão claras: (1) a crise financeira de hoje decorre dos componentes nucleares do sistema capitalista e (2) resolver realmente a crise actual exige a mudança daqueles componentes a fim de mover a sociedade para além do capitalismo.

Por exemplo: se trabalhadores em cada empresa se tornassem os seus próprios conselhos de direcção, os velhos conflitos capitalistas entre empregadores e empregados estariam ultrapassados. Se agências do estado coordenassem decisões de produção interdependentes de empresas, a competição restante poderia limitar-se ao focar prémios por melhorias de desempenho. O governo dos EUA pode não apenas salvar enormes instituições financeiras como também exigir-lhes que se transformem em empresas em que empregadores e empregados sejam as mesmas pessoas e em que coordenação e competição se tornem respectivamente o aspecto principal e o menor das interacções empresariais. O governo dos EUA tomou o comando da Fannie Mae, Freddie Mac e AIG, mas isto não alterou nem a organização destas empresas nem a competição destrutiva entre elas. Foi uma oportunidade tragicamente perdida. Se os ventos políticos continuarem a mudar suficientemente longe e suficientemente rápido, soluções que respondam à crise actual pelo movimento para além do capitalismo podem ainda ser tentadas.

por Rick Wolff , Professor de Ciências Económicas na Universidade de Massachusetts
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

outubro 09, 2008

A ESTRATÉGIA DO MEDO : Algumas coisas que a mídia não diz sobre a crise nos EUA

Em um artigo intitulado "Querem nos meter medo", o cineasta Michael Moore (foto) conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios eletrônicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e seu braço midiático (as redes de TV e outros meios) seguem com a estratégia de atemorizar a população.

Data: 01/10/2008
Quem acompanha a cobertura da crise nos Estados Unidos feita pela imprensa brasileira pode ser levado a acreditar que a política está "atrapalhando" a busca de uma solução para o problema. Essa afirmação vem sendo feita todos os dias por vários jornalistas e colunistas econômicos em todo país, supostamente especializados no assunto. A aprovação da proposta de ajuda aos bancos quebrados é apontada como uma condição necessária para evitar o caos. Há vários silêncios nesta cobertura, aqui e também nos EUA.

Em um artigo intitulado "Querem nos meter medo", o cineasta Michael Moore conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios eletrônicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e seu braço midiático (as redes de TV e outros meios) seguem com a estratégia de atemorizar a população, omitindo, entre outras coisas, que a proposta apresentada ao Congresso não trazia qualquer esperança para os pobres mortais ameaçados de perder suas casas hipotecadas (Marco Aurélio Weissheimer)

Tradução do artigo de Michael Moore publicado no jornal Página 12:

Querem nos meter medo

Todos diziam que a lei seria aprovada. Os especialistas do universo já estavam fazendo reservas para celebrar nos melhores restaurantes de Manhattan. Os compradores particulares em Dallas e Atlanta foram despachados para fazer as primeiras compras de Natal. Os homens loucos de Chicago e Miami já estavam abrindo as garrafas e brindando entre eles muito antes do café da manhã.

Mas o que não sabiam era que centenas de milhares de estadunidenses tinham acordado pela manhã e decidido que era tempo de se rebelar. Milhares de chamadas telefônicas e correios eletrônicos golpearam o Congresso tão forte como se Marshall Dillon (Comissário Dillon, personagem de uma série de televisão) e Elliot Ness tivessem descido em Washington D.C. para deter os saques e prender os ladrões.

A Corporação do Crime do Século foi detida por 228 votos contra 205. Foi um acontecimento raro e histórico. Ninguém conseguia lembrar de um momento onde uma lei apoiada pelo presidente e pelas lideranças de ambos os partidos fosse derrotada. Isso nunca acontece. Muita gente está se perguntando por que a ala direita do Partido Republicano se uniu à ala esquerda do Partido Democrata para votar contra o roubo. Quarenta por cento dos democratas e dois terços dos republicanos votaram contra a lei.

Eis o que aconteceu:

A corrida presidencial pode estar ainda muito parelha nas pesquisas, mas as corridas no Congresso estão assinalando uma vitória esmagadora dos democratas. Poucos questionam a previsão de que os republicanos receberão uma surra no dia 4 de novembro. As previsões indicam que os republicanos perderão cerca de 30 cadeiras na Câmara de Representantes, o que representaria um incrível repúdio a sua agenda. Os representantes do governo têm tanto medo de perder seus assentos que, quando apareceu esta “crise financeira” há duas semanas, deram-se conta que estavam diante de sua única oportunidade de separar-se de Bush antes da eleição, fazendo algo que fizesse parecer que estavam do lado da “gente”.

Estava vendo ontem C-Span, uma das melhores comédias que assisti em anos. Ali estavam, um republicano depois do outro que apoiaram a guerra e afundaram o país em uma dívida recorde, que tinham votado para matar qualquer regulação que mantivesse Wall Street sob controle – ali estavam, lamentando-se e defendendo o pobre homem comum.Um depois do outro, usaram o microfone da Câmara baixa e jogaram Bush sob o ônibus, para baixo do trem (ainda que tenham cotado para retirar os subsídios aos trens também), diabos, teriam jogado o presidente nas águas crescentes de Lower Ninth Ward (bairro de Nova Orleans) se
pudessem prever outro furacão.

Os valentes 95 democratas que romperam com Barney Frank e Chris Dodd eram os verdadeiros heróis, do mesmo modo como aqueles poucos que votaram contra a guerra em outubro de 2002. Reparem nos comentários dos republicanos Marcy Kaptur, Sheila Jackson Lee e Dennis Kucinich. Disseram a verdade. Os democratas que votaram a favor do pacote o fizeram em grande parte porque estavam temerosos das ameaças de Wall Street, que se os ricos não recebessem sua dádiva, os mercados enlouqueceriam e então adeus às pensões que dependem das ações e adeus aos fundos de aposentadoria. E adivinhem? Isso é exatamente o que fez Wall Street! A maior queda em um único dia no índice Dow da Bolsa de Valores de Nova York.

À noite, os apresentadores de televisão gritavam: os estadunidenses acabaram de perder 1,2 bilhão de dólares na Bolsa! É o Pearl Harbour financeiro! Caiu o céu! Gripe aviária! Obviamente, quem conhece a bolsa sabe que ninguém “perdeu” nada ontem, que os valores sobem e baixam e que isso também acontecerá porque os ricos compraram agora que estão baixo, os segurarão, depois os venderão e logo em seguida os comprarão novamente quando estiverem baixos de novo. Mas, por enquanto, Wall Street e seu braço de propaganda (as redes de TV e os meios de comunicação que possuem) continuarão tratando de nos meter medo. Algumas pessoas perderão seus empregos. Uma débil nação de fantoches não suportará muito tempo esta tortura. Ou poderemos suportar?

Eis no que acredito: a liderança democrata na Câmara baixa esperava secretamente todo o tempo que esta péssima lei fracassasse. Com as propostas de Bush derrotadas, os democratas sabiam que poderiam então escrever sua própria lei que não favoreça apenas os 10% mais ricos que estavam esperando outro lingote de ouro. De modo que a bola está nas mãos da oposição. O revólver de Wall Street, porém, aponta para suas cabeças. Antes que dêem o próximo passo, deixem-me dizer no que os meios de comunicação silenciaram enquanto se debatida essa lei:

1. A lei de resgate NÃO prevê recursos para o chamado grupo de supervisão que deve monitorar como Wall Street vai gastar os 700 bilhões de dólares;

2. A lei NÃO considerava multas, sanções ou prisão para nenhum executivo que roubar dinheiro público;

3. A lei NÃO fez nada obrigar aos bancos e aos fundos de empréstimo a renovar as hipotecas do povo para evitar execuções. Esta lei não deteria uma sequer execução!

4. Em toda a legislação NÃO havia nada executável, usando palavras como “sugerido” quando se referiam à devolução do dinheiro do resgate a ser feito pelo governo.

5. Mais de 200 economistas escreveram ao Congresso e disseram que esta lei poderia piorar a crise financeira e provocar ainda MAIS uma queda.

É hora de nosso lado estabelecer claramente as leis que queremos aprovar.


Tradução para o espanhol: Celita Doyhambéhére

Tradução para o português: Marco Aurélio Weissheimer

Intensificar a luta contra a repressão

O governo e as reitorias estão tentando estabelecer a entrada da polícia na universidade e a repressão como método para acabar com a oposição à sua política de destruição da universidade pública

8 de outubro de 2008
Após as diversas ocupações ocorridas em todo o País contra o total descaso do governo com a universidade pública com o corte de verbas, parceria com fundações privadas, falta de investimento em infra-estrutura o que deixou as universidades caindo literalmente aos pedaços, há uma ofensiva do governo para conter a mobilização.
Após a ocupação da reitoria da USP por 51 dias, mais de 20 universidades foram ocupadas.
No estado de São Paulo, em 2007, foram realizadas ocupações de campi, diretorias e reitorias em no mínimo sete universidades; as três estaduais (USP, Unicamp e Unesp); duas federais (Unifesp e UFSCar), Fundação Santo André, PUC. As ocupações aconteceram em mais de 15 locais, devido à existência de diversos campi.
Isso despertou os estudantes em todo o País para a luta. Ocorreram ocupações nas federais da Bahia, Alagoas, Pará, Rondônia, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais.
Todo este movimento mostrou uma clara tendência de luta dos estudantes, que ultrapassam a burocracia estudantil que foi a contenção do movimento por toda a década de 90.
Ato de caráter político
Um fato de extrema importância é que essas ocupações todas tiveram um caráter fundamentalmente político. Nas universidades estaduais os estudantes se levantaram contra o governador de São Paulo, José Serra. Serra (PSDB) publicou um decreto restringindo ainda mais a já muito relativa autonomia frente ao estado dessas instituições. Nas federais, a mobilização estudantil foi voltada contra um decreto que impõe o projeto do governo Lula, o Reuni, que irá superlotar salas de aula e sucatear ainda mais o ensino com falta de professores.
O sistemático corte de verbas das universidades, tanto pelos governos estaduais, quanto pelo governo federal, resultaram em uma crise sem precedentes na universidade. A falta de professores, intra-estrutura, falta de assistência estudantil é agora associado à crescente repressão ao movimento estudantil, com centenas de sindicâncias abertas sob qualquer pretexto: festas, distribuição de panfletos e obviamente as ocupações.
Repressão: tentativa de calar os estudantes
Há uma insistente tentativa dos governos e reitorias em incriminar o movimento político dos estudantes para tentar calar a oposição a esta criminosa política.
Com a onda de lutas no movimento estudantil, em especial o governo de José Serra em São Paulo, adotou a política abertamente repressiva para tentar conter o movimento.
Foi colocada a Tropa de Choque da Polícia Militar para desocupar a diretoria da Unesp de Araraquara, a Fundação Santo André e a Unifesp.
Também na Universidade Federal da Bahia foi colocada a Polícia Federal para atacar de forma selvagem os estudantes em luta.
Fica claro que a onda de lutas dos estudantes mesmo com alguns períodos de abrandamento da luta, está em pleno desenvolvimento.
Neste ano, a ocupação da reitoria da Universidade de Brasília derrubou o corrupto reitor e o acampamento feito pelos estudantes da Unifesp, logo após a renúncia do desmoralizado corrupto reitor, levantou um amplo debate sobre o controle da universidade, organizando uma campanha pelo boicote às eleições para reitor e pelo autogoverno dos três setores de maneira proporcional: funcionários, professores, com uma maioria de estudantes.
E neste momento: estes estudantes são o alvo do governo para tentar sinalizar ao conjunto dos estudantes que não devem protestar e devem baixar a cabeça a todos os desmandos da reitoria e do governo.
Defender os estudantes da Unifesp e o novo movimento estudantil
A defesa dos estudantes da Unifesp, que estão sofrendo sindicância por terem feito um ato político contra a reitoria da universidade, a ocupação, é tarefa de todo o movimento estudantil.
É necessário exigir o fim da repressão dos governos burgueses ao movimento estudantil e a não intervenção da polícia nas universidades.

Rety
AJR - Juventude do PCO
Pedagogia - Unicamp

outubro 07, 2008

O PSOL não fugiu do debate

As eleições foram marcadas por um bom debate por parte do PSOL. Pontuamos nossa concepção de mundo e de sociedade e mostramos um modo socialista de governar a cidade. O conteúdo de nossa mensagem foi politizado e contundente na defesa do socialismo como princípio de vida.
O PSOL cumpriu com seu objetivo nessas eleições. Marcou posição e luta partidária na esquerda maringaense.
Saudamos a todos os companheiros de luta.

Ilha das flores

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