Reflexões

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.

Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)

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junho 28, 2009

Imagens do Golpe de Estado nas Honduras






Golpe de Estado nas Honduras, do DN GLOBO

O Presidente das Honduras, Manuel Zelaya, foi hoje deposto por um golpe de Estado militar que já foi unanimemente criticado pela União Europeia e motivou uma reunião de emergência da Organização de Estados Americanos.

O presidente das Honduras, aliado do homólogo venezuelano, Hugo Chavez, foi preso por militares hondurenhos em Tegucigalpa, que posteriormente o levaram para uma base aérea nos arredores da capital.

A detenção do presidente ocorreu cerca de duas horas antes do início de uma "consulta popular" lançada por Zelaya para fazer uma revisão da Constituição, apesar de esta ter sido declarada inconstitucional pelo Parlamento e pelo Supremo Tribunal.

Zelaya estará agora na Costa Rica, segundo confirmou o próprio Governo costa-riquenho.

Carlos Minc "não tem condição" para enfrentar agronegócio, diz cientista social, por Maurício Savarese - UOL Notícias

Criticado pelos ruralistas, a quem já chamou de "vigaristas", o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, é visto com desconfiança também pela esquerda, afirma o cientista social Michel Löwy, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica vinculado ao governo francês.

"O atual ministro não tem condição de levar uma batalha pela Amazônia. Só o fato de ele ter aceitado o cargo depois de a Marina Silva ter saído já mostra que ele estava disposto a conciliar e a ficar em meias medidas", afirmou Löwy ao UOL Notícias em entrevista por telefone.

Especialista em marxismo e autor de obras sobre a importância da ecologia para o que chama de "superação do capitalismo destrutivo", o professor considera desastrosa a medida provisória que regulariza a situação de grileiros em terras amazônicas.

"Isso pode dar uma luz verde ao agrocapitalismo para avançar em cima da floresta. É uma guerra que estão declarando contra a Amazônia, promovida pelas madeireiras, pela soja e pelo gado. Todos eles querem limpar a região", disse ele, que considera os movimentos sociais como os mais capazes de barrar o desmatamento.

"Principalmente as comunidades sem terra e indígenas têm de chamar para si a responsabilidade. Nos últimos anos, os esforços dos governos são opacos e a tendência natural do capital é se enfronhar mais na floresta. É claro que se pode por freios a isso, limitar o estrago. Mas confio mais nessa possibilidade por meio dos agentes sociais", declarou.


Desmatamento zero

Na quarta-feira, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulgou que o desmatamento na Amazônia em maio atingiu uma área de 123,73 quilômetros quadrados, ou 16 mil campos de futebol, de acordo com relatório do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). Em relação aos dados de maio de 2008, quando o Inpe registrou 1.096 quilômetros quadrados de desmate, houve queda de 88%.

Apesar do resultado melhor no período, Löwy avalia que o governo Lula como um todo é "apenas um pouco mais preocupado com o ambiente" do que o de Fernando Henrique Cardoso.

"Mas no geral é muito fraco. Quando era ministra, a senadora Marina Silva (PT-AC) resistiu com coragem até cansar de ser derrotada. Conseguiram até passar o planejamento da Amazônia para um senhor que nada entende da região (ministro Roberto Mangabeira Unger, da secretaria de Assuntos Estratégicos). Essa é a visão da qual muitos ambientalistas compartilham no exterior", disse.

MP DA AMAZÔNIA

Propriedades transferidas

Terras da União situadas na Amazônia Legal com até 1.500 hectares (área equivalente a cerca de 2.000 campos de futebol).

Beneficiados

Pessoas físicas e jurídicas (empresas) que tenham ocupado a terra antes de 1º de dezembro de 2004. Não é necessário viver no local, mas, nesse caso, o beneficiado precisa comprovar que alguém está na propriedade ocupada

Custo da propriedade

* Até 100 hectares: doação
* De 101 a 400 hectares: venda por valor simbólico
* De 401 a 1.500 hectares: venda a preço de mercado (valor de terra limpa), com pagamento em até 20 anos

Condições para a transferência

* Comprovar que a terra possui função social
* Ter ocupado o terreno pacificamente
* Não ter ganho terrenos em assentamentos em outros projetos do governo
* Reflorestar as áreas que foram desmatadas além do permitido por lei - de acordo com a Lei Ambiental, na Amazônia os proprietários tem que manter preservada 80% da floresta nas propriedades

Prazo para venda

* Após 10 anos: propriedades de até 400 hectares
* Após 3 anos: propriedades com mais de 400 hectares


Löwy, que veio ao Brasil nesta semana a convite da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, afirmou também que países ricos e pobres têm de parar de digladiar sobre quem deve começar a poluir menos nos próximos anos e que o objetivo geral deveria ser o de "desmatamento zero".

"Jogar de um para o outro só serve a quem quer fazer nada. Sem dúvida a responsabilidade dos ricos é maior. Mas a essa altura, precisamos que o conjunto dos países pare. Podemos pedir aos ricos que paguem por esse processo de controle da floresta amazônica, como muitos sugerem. Mas não podemos ficar esperando para fazer a nossa parte", disse.

O Desespero chega a Rossoni

Esta história do deputado estadual Valdir Rossoni querer tomar as dores do Caixa 2 do prefeito Beto Richa , o guardador de fantasmas e bom menino, tem lá suas explicações. Acontece que ele vinha trabalhando o PSDB para absorver a candidatura de Beto Richa a governador. Mudou diretórios, correu o estado, fez o diabo, tudo para tirar do caminho o senador Alvaro Dias e até mesmo o deputado federal Gustavo Fruet. Gente que jamais aceitaria acordos como os que fez Beto. Resultado, o fim da candidatura do guardador de fantasmas é o fim da carreira de Rossoni, daí o desespero. Agora, para Rossoni, a culpada é Gazeta do Povo. Pois bem, por que não a Globo, o jornal o Globo, a Folha de S. Paulo, o jornal da esquina e todo brasileiro que anda cobrando decência na política e que não é besta de acreditar que todas aquelas imagens que apareceram no Fantástico são obras da ficção?
do Blog Magna Curitiba

junho 20, 2009

"Quando eu era jovem o meu sonho era tornar-se geógrafo. Entretanto, antes de ingressar no curso superior, quando trabalhei num escritório, numa atividade que envolvia consumidores de diversas partes, comecei a pensar mais profundamente sobre essa questão e concluí que essa disciplina deve ser extremamente complexa e difícil. Após alguma relutância, acabei optando pelo estudo da Física." (Albert EINSTEIN).

ENEM cada vez "melhor"!!!

Programas de coedia poderiam acabar e no lugar a publicação desse "Genios"


O tema da redação do Enem desse ano foi Aquecimento Global, e como acontece todo ano, não faltaram preciosidades. Lá vão:

1) “o problema da amazônia tem uma percussão mundial. Várias Ongs já se estalaram na floresta.” (percussão e estalos. Vai ficar animado o negócio)

2) “A amazônia é explorada de forma piedosa.” (boa)

3) “Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar o planeta.” (tamo junto nessa, companheiro. Mais juntos, impossível)

4) “A floresta tá ali paradinha no lugar dela e vem o homem e créu.” (e na velocidade 5!)

5) “Tem que destruir os destruidores por que o destruimento salva a floresta.” (pra deixar bem claro o tamanho da destruição)

6) “O grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação.” (pleonasmo é a lei)

7) “Espero que o desmatamento seja instinto.” (selvagem)

8) “A floresta está cheia de animais já extintos. Tem que parar de desmatar para que os animais que estão extintos possam se reproduzirem e aumentarem seu número respirando um ar mais limpo.” (o verdadeiro milagre da vida)

9) “A emoção de poluentes atmosféricos aquece a floresta.” (também fiquei emocionado com essa)

10) “Tem empresas que contribui para a realização de árvores renováveis.” (todo mundo na vida tem que ter um filho, escrever um livro, e realizar uma árvore renovável)

11) “Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas.” (esqueceu que também ficam sem o home theater e os dvd’s da coleção do Chaves)

12) “Precisamos de oxigênio para nossa vida eterna.” (amém)

13) “Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza.” (e as renováveis?)

14) “A principal vítima do desmatamento é a vida ecológica.” (deve ser culpa da morte ecológica)

15) “A amazônia tem valor ambiental ilastimável.” (ignorem, por favor)

16) “Explorar sem atingir árvores sedentárias.” (peguem só as que estiverem fazendo caminhadas e flexões)

17) “Os estrangeiros já demonstraram diversas fezes enteresse pela amazônia.” (o quê?)

18) “Paremos e reflitemos.” (beleza)

19) “A floresta amazônica não pode ser destruída por pessoas não autorizadas.” (onde está o Guarda Belo nessas horas?)

20) “Retirada claudestina de árvores.” (caraulio)

21) “Temos que criar leis legais contra isso.” (bacana)

22) “A camada de ozonel.” (Chris O’Zonnell?)

23) “a amazônia está sendo devastada por pessoas que não tem senso de humor.” (a solução é colocar lá o pessoal da Zorra Total pra cortar árvores)

24) “A cada hora, muitas árvores são derrubadas por mãos poluídas, sem coração.” (para fabricar o papel que ele fica escrevendo asneiras)

25) “A amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo desmatamento devastador, intenso e imperdoável.” (campeão da categoria “maior enchedor de lingüiça”)

26) “Vamos gritar não à devastação e sim à reflorestação.” (NÃO!)

27) “Uma vez que se paga uma punição xis, se ganha depois vários xises.” (gênio da matemática)

28) “A natureza está cobrando uma atitude mais energética dos governantes.” (red bull neles - dizem as árvores)

29) “O povo amazônico está sendo usado como bote expiatório.” (ótima)

30) “O aumento da temperatura na terra está cada vez mais aumentando.” (subindo!)

31) “Na floresta amazônica tem muitos animais: passarinhos, leões, ursos, etc.” (deve ser a globalização)

32) “Convivemos com a merchendagem e a politicagem.” (gzus)

33) “Na cama dos deputados foram votadas muitas leis.” (imaginem as que foram votadas no banheiro deles)

34) “Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazonia.” (oh god)

35) “O que vamos deixar para nossos antecedentes?” (dicionários)

junho 19, 2009

5 mil exigem “Fora PM e Suely da USP”

Passeata organizada nesta quinta-feira (18 de junho) pelo Fórum das Seis – que congrega as entidades representativas de professores, servidores e estudantes da USP, Unesp e UNICAMP – levou mais de cinco mil pessoas às ruas no centro da capital. Os manifestantes se concentraram no vão livre do MASP (na avenida Paulista) a partir do meio dia e seguiram em passeata pela avenida Brigadeiro Luiz Antônio até o Largo de São Francisco, na Faculdade de Direito da USP. O prédio histórico, no entanto, estava fechado por determinação do diretor e postulante ao cargo de reitor, Grandino Rodas – o mesmo que chamou a tropa de choque em 2007 para reprimir uma ocupação pacífica realizada por estudantes e militantes de diversos movimentos sociais.


Com fitas amarelas amarradas nos braços ou camisetas também amarelas, vários manifestantes lembravam a campanha das “Diretas já!”. Simbolicamente a manifestação foi encerrada no mesmo largo onde, em 1977, centenas de professores e estudantes da Faculdade de Direito lançaram a “Carta aos Brasileiros” – documento que denunciava as atrocidades da ditadura militar e exigia democracia no país.

O jurista e professor aposentado da Faculdade de Direito, Fábio Konder Comparato, um dos signatários da carta de 1977, fez um discurso que emocionou os presentes. “A universidade pública pertence ao povo porque é mantida, sobretudo, com o dinheiro arrecadado fundamentalmente dos pobres: o ICMS – um imposto regressivo, pois quem ganha mais paga menos e quem ganha menos paga mais. Mas a universidade pública está servindo aos ricos. É contra isso que precisamos nos levantar. Se a universidade pública pertence ao povo, não pode fechar as portas ao povo”, disse.
Comparato também lembrou que “os estudantes foram qualificados de bandidos e subversivos [quando ocuparam a reitoria da USP, também em 2007]. E quem fecha a Faculdade de Direito, como deve ser classificado?”. O jurista defendeu ainda as eleições diretas para escolha do reitor da Universidade de São Paulo e a composição paritária do Conselho Universitário, denunciando que “há sempre um grupelho que domina essa ou aquela unidade”. E foi efusivamente aplaudido ao afirmar ainda que “quando não há confiança entre os dirigentes e os dirigidos, os dirigentes devem sair da direção”.

Os deputados eleitos pelo PSOL Carlos Giannazi (estadual) e Ivan Valente (federal). A Conlutas, a Intersindical, a Apeoesp, o Sinsprev, e dezenas de entidades do movimento sindical também manifestação apoio à luta pela saída imediata da PM da USP, a destituição da reitora Suely Vilela e a reabertura das negociações do CRUESP (conselho de reitores) com o Fórum das Seis.

O diretor da Fasubra (Federação dos Sindicatos de Servidores Técnico Administrativos nas Universidades Brasileiras) Rogério Marzola, lembrou ainda a greve dos trabalhadores do INSS. “A política da reitora da USP não é isolada. É parte da política que o governo Serra quer implantar no Estado, que substitui o ensino de qualidade por cursos virtuais com manuais copiados do Banco Mundial. É parte da política de criminalização dos movimentos sociais, como vem acontecendo com a greve dos trabalhadores do INSS, iniciada na última terça-feira, que teve uma liminar concedida pelo judiciário ao governo antes mesmo do início da greve”.

Na próxima segunda-feira (22 de junho), acontece a reunião do CRUESP na reitoria da USP, às 14 horas. No mesmo horário, haverá um novo protesto com o lema “Fora a PM e Suely Vilela da USP”.
FONTE: SINSPREV 18/06/2009 21:09:23

As mensagens tóxicas de Wall Street


A análise é de Joseph Stiglitz.

Uma outra greve é possível



O artigo é de Flávio Aguiar.

junho 13, 2009

Epitáfio para Luís de Camões, By José Saramago

Que sabemos de ti, se versos só deixaste,

Que lembrança ficou no mundo que tiveste?

Do nascer ao morrer ganhaste os dias todos,

Ou perderam-te a vida os versos que fizeste?

Estas quatro perguntas foram retiradas do livro “Os Poemas Possíveis”, publicado em 1966. Até hoje, mais de quarenta anos passados, ainda não lhes encontrei resposta. Talvez nem a tenham. Escrevo isto em 10 de junho, aniversário da muerte do autor de Os Lusiadas, livro fundamental da literatura portuguesa. Camões morreu pobre e esquecido, embora hoje os escritores em língua portuguesa vivam como uma honra única receber o Prémio que leva o seu nome.

A coisa Berlusconi, By José Saramago

Este artigo, com este mesmo título, foi publicado ontem no jornal espanhol “El País”, que expressamente mo havia encomendado. Considerando que neste blogue fiz alguns comentários sobre as façanhas do primeiro-ministro italiano, estranho seria não recolher aqui este texto. Outros haverá no futuro, seguramente, uma vez que Berlusconi não renunciará ao que é e ao que faz. Eu também não.

A Coisa Berlusconi

Não vejo que outro nome lhe poderia dar. Uma coisa perigosamente parecida a um ser humano, uma coisa que dá festas, organiza orgias e manda num país chamado Itália. Esta coisa, esta doença, este vírus ameaça ser a causa da morte moral do país de Verdi se um vómito profundo não conseguir arrancá-la da consciência dos italianos antes que o veneno acabe por corroer-lhes as veias e destroçar o coração de uma das mais ricas culturas europeias. Os valores básicos da convivência humana são espezinhados todos os dias pelas patas viscosas da coisa Berlusconi que, entre os seus múltiplos talentos, tem uma habilidade funambulesca para abusar das palavras, pervertendo-lhes a intenção e o sentido, como é o caso do Pólo da Liberdade, que assim se chama o partido com que assaltou o poder. Chamei delinquente a esta coisa e não me arrependo. Por razões de natureza semântica e social que outros poderão explicar melhor que eu, o termo delinquente tem em Itália uma carga negativa muito mais forte que em qualquer outro idioma falado na Europa. Foi para traduzir de forma clara e contundente o que penso da coisa Berlusconi que utilizei o termo na acepção que a língua de Dante lhe vem dando habitualmente, embora seja mais do que duvidoso que Dante o tenha utilizado alguma vez. Delinquência, no meu português, significa, de acordo com os dicionários e a prática corrente da comunicação, “acto de cometer delitos, desobedecer a leis ou a padrões morais”. A definição assenta na coisa Berlusconi sem uma prega, sem uma ruga, a ponto de se parecer mais a uma segunda pele que à roupa que se põe em cima. Desde há anos que a coisa Berlusconi tem vindo a cometer delitos de variável mas sempre demonstrada gravidade. Além disso, não só tem desobedecido a leis como, pior ainda, as tem mandado fabricar para salvaguarda dos seus interesses públicos e particulares, de político, empresário e acompanhante de menores, e quanto aos padrões morais, nem vale a pena falar, não há quem não saiba em Itália e no mundo que a coisa Berlusconi há muito tempo que caiu na mais completa abjecção. Este é o primeiro-ministro italiano, esta é a coisa que o povo italiano por duas vezes elegeu para que lhe servisse de modelo, este é o caminho da ruína para onde estão a ser levados por arrastamento os valores que liberdade e dignidade impregnaram a música de Verdi e a acção política de Garibaldi, esses que fizeram da Itália do século XIX, durante a luta pela unificação, um guia espiritual da Europa e dos europeus. É isso que a coisa Berlusconi quer lançar para o caixote do lixo da História. Vão os italianos permiti-lo?

junho 12, 2009

Vaticano e ensino público

Artigos dos professores Luiz Antônio Cunha (UFRJ) e Emerson Giumbelli (IFCS/UFRJ) colocam em pauta o acordo assinado entre o Brasil e a Santa Sé, que propõe regular o "estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil" e aguarda ratificação do Congresso Nacional.

“Concordata: a Educação Pública na mira do Vaticano” – por Luiz Antônio Cunha (UFRJ). Neste artigo, o educador e coordenador do Observatório da Laicidade do Estado afirma que a concordata vaticana almeja misturar uma vez mais a Igreja Católica ao Estado. “O acordo pretende garantir-lhe privilégios inéditos”, analisa. Clique aqui para ler


“Privilégio inapropriado” – por Emerson Giumbelli (IFCS/UFRJ). Para o antropólogo, acordo entre o Brasil e a Santa Sé, que estabelece "ensino religioso, católico e de outras confissões" é problemático ao legislar sobre outras confissões e insinuar maior pertinência de um modelo confessional de ensino religioso. Clique aqui para ler

Nota política do PCB sobre a invasão policial da USP

O Partido Comunista Brasileiro (PCB) vem a público manifestar seu mais veemente repúdio à ação brutal da Polícia Militar verificada ontem, dia 09 de junho, contra estudantes, professores e funcionários da USP. A invasão do campus universitário, com tropas de choque, tiros e bombas é uma violência insana que lembra os piores momentos da ditadura militar. O PCB entende que é inaceitável a presença da PM no campus universitário e que estas tropas devem se retirar imediatamente das dependências da USP.

Esta invasão é o reflexo de um gradual processo de criminalização dos movimentos sociais em nosso país, particularmente no Estado de São Paulo. Portanto, não há novidade nesse vergonhoso episódio. A emblemática invasão do Campus da Unesp de Araraquara, em 2007, inaugurou o “ciclo” da perseguição de estudantes, funcionários e professores das Universidades do Estado de São Paulo, do “prendo e arrebento” e do “diálogo acadêmico” com a tropa de choque. Os reitores das Universidades estaduais paulistas e o Cruesp, transformaram-se em gendarmes acadêmicos do governador Serra e de seus cacoetes autocráticos de pequeno Napoleão da Moóca.

A reivindicação dos funcionários, estudantes e professores das três Universidades é mais do que justa e pressupõe a defesa dessas importantes instituições agredidas constantemente pela fúria privatista do governador Serra e de seus aliados. Além das reivindicações salariais, os trabalhadores das Universidades públicas de São Paulo estão lutando por mais verbas para a educação, por melhoria das condições de trabalho e de estudo, por mais de pesquisa e, o que se constitui como ponto central: a contratação de professores e a ampliação de vagas.

O governo Serra, com a conivência do Cruesp, tenta implantar aceleradamente o programa de educação à distância, alegando a “democratização” do acesso às Universidades públicas do Estado. No entanto, especialistas e pedagogos têm criticado essa modalidade “educacional” porque o ensino presencial é fundamental para a formação de profissionais. Essa medida esconde a intenção de desmonte da Universidade pública, de reduzir a contratação de professores e de terceirizar as atividades docentes e funcionais dessas instituições de ensino e de pesquisa. O PCB repudia essa política de lesa-universidade, profundamente prejudicial à democracia, à sociedade e ao desenvolvimento científico do Estado de São Paulo.

Diante destes fatos, os comunistas entendem que é insustentável a permanência da senhora Suely Vilela na reitoria da USP, por sua conduta autoritária e arrogante e por sua opção pela truculência saudosista da ditadura militar. EXIGIMOS sua imediata renúncia e a eleição direta para o cargo de reitor, com a ampla e democrática participação de toda a comunidade acadêmica! Exigimos a imediata retirada das tropas policiais da USP. Exigimos a reabertura das negociações com o Fórum das Seis e a reintegração do companheiro Brandão nos quadros de funcionários da USP. Exigimos o fim das perseguições aos sindicalistas e estudantes.

Comissão Política Nacional do PCB

Junho de 2009

Nota da Conlutas e da Intersindical em repúdio à ocupação da USP por tropas da PM

A USP (Universidade de São Paulo) está ocupada com tropas da PM. Uma imagem que remete às cenas da época da ditadura militar. A repressão nas universidades.

Funcionários, estudantes e professores da USP, Unesp e Unicamp realizaram um ato em frente à reitoria da USP nesta terça-feira para denunciar a ação repressiva da direção da universidade que convocou a PM para lidar com os funcionários em greve. Quando o ato já estava se encerrando e os manifestantes retornavam para frente da reitoria, foram disparadas bombas de gás lacrimogêneo pela tropa de choque, deixando feridos e três presos.

Cerca de 200 policiais militares estão na Cidade Universitária desde o último dia 1º, após a solicitação da reitora da USP, Suely Vilela, de intervenção policial para “conter” os piquetes dos funcionários.

É inaceitável a atitude da reitoria da USP. Em vez de negociar, de dialogar, chama a polícia para reprimir. A presença da polícia no campus causou indignação na comunidade, e isso expressa um projeto que vem sendo implementado pelo governo Serra. Projeto que inclui terceirização, arrocho salarial, apropriação do conhecimento produzido nas universidades por empresas e não a serviço da sociedade, precarização do ensino e o fim do ensino público, gratuito e de qualidade.

Além disso, vem sendo desfechado um ataque sem precedentes à organização dos trabalhadores da USP. A demissão do diretor do Sintusp Claudionor Brandão por justa causa é um exemplo disso. Na tarde desta segunda, mais dois diretores do sindicato foram intimados a responder processos administrativos por terem realizado piquetes: os funcionários Anibal Ribeiro Cavali e Zélito Souza dos Santos.

É preciso esclarecer à população que nesses anos as lutas travadas por funcionários, docentes e alunos da USP não foram só salariais ou de interesses específicos, mas em defesa da universidade, pela educação pública para todos e pela liberdade, questões que interessam a toda a sociedade.

Por isso, as Centrais Sindicais Conlutas e Intersindical vêm manifestar seu repúdio à invasão da USP por tropas de choque e manifestar seu apoio incondicional à luta dos trabalhadores, professores e alunos e repudiar atitude repressiva do governo do Estado de São Paulo.

- Pela desocupação imediata da tropa de choque da PM!

- Pela reabertura das negociações com os trabalhadores, professores e estudantes!

Conlutas e Intersindical

junho 11, 2009

Imagens da ação da Polícia Militar na Universidade de São Paulo








tropa de choque na USP

Prezados colegas,

Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia
> havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas). Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário. Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.

Cordialmente,

Prof. Dr. Pablo Ortellado
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo

MARIATEGUI

Documentário sobre a vida e exemplo do intelectual e dirigente comunista José Carlos Mariátegui. Peruano e universal, gostava de afirmar que o processo revolucionário não era 'ni calco ni copia' e sim criação heróica das massas.

Repúdio ao massacre no Peru

Um grupo de ONGs e entidades manifestaram, nesta quarta-feira, seu "repúdio" ao "massacre" de indígenas ocorrido na semana passada na Amazônia peruana. As organizações brasileiras entregaram uma carta à Embaixada do Peru em Brasília, após protagonizarem um ato de protesto em frente à sede.

A carta foi assinada por várias organizações religiosas e sociais, como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o Conselho Indigenista Missionário e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.

De acordo com o rexto, as informações oferecidas por representantes da etnia peruana Awajun indicam que os conflitos ocorridos durante o final da semana passada deixaram mais de 60 mortos, incluindo 30 indígenas.

Os confrontos começaram na sexta-feira, quando agentes policiais tentaram retirar os nativos de uma estrada que tinham bloqueado, em protesto contra decretos do Governo que consideram prejudiciais a seus interesses.

Os indígenas peruanos começaram os protestos no início de abril, em rejeição a uma série de leis aprovadas pelo Governo e que, segundo ele, permitem a prospecção petrolífera e gasística de suas terras.

"A convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho garante aos povos indígenas a consulta prévia, livre e informada sobre qualquer tipo de projeto que afete seus territórios tradicionais", alegam as organizações.

Segundo a carta, para justificar a "covarde agressão", o Governo de García se disse vítima de uma "agressão subversiva contra a democracia e a política nacional", frente à qual precisava "responder com firmeza".

"A severidade e a firmeza resultaram no assassinato de 60 pessoas, além da perseguição e da detenção de dezenas de líderes indígenas", disseram.

"Os índios foram executados por defender a terra mãe, por crer que não deve ser explorada até a morte. Foram executados, em último, por proteger o equilíbrio climático, fundamental para a vida da Terra e, consequentemente, para a vida de todos na Terra", acrescentaram.

Os signatários da carta se comprometeram a lutar para que os responsáveis do massacre sejam julgados e punidos, e anunciaram que já apresentaram um requerimento à Corte Interamericana de Direitos Humanos.


Partidos


O PCdoB e o PT também se manifestaram, hoje, em repúdio ao confronto da semana passada. Na nota do PT, assinada pela sua executiva nacional, a legenda expressa sua solidariedade com as famílias das dezenas de vítimas, feridos e assassinados durante o confronto. Também reivindica uma investigação completa dos fatos, a punição para os responsáveis e justiça para as vítimas.

A agremiação solicita ao governo peruano que cesse todo ato de repressão e violência e abra imediatamente o diálogo e negociação com o movimento indígena amazônico. "(O PT) vem a público para (...) demandar respeito aos direitos dos povos indígenas, especialmente os estabelecidos pela Convenção 169 da OIT e pela Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos Coletivos dos Povos Indígenas, em particular o mecanismo da consuta prévia sobre qualquer norma estatal que os afete. E condenar a política de criminalização do movimentos sociais"

Já o PCdoB manifesta sua indignação com a política do presidente Alan Garcia e sua solidariedade com o povo daquele país, em mensagem dirigida ao Partido Comunista do Peru – Pátria Roja. A mensagem, assinada pelo secretário de Relações Internacionais, José Reinaldo Carvalho, diz que Garcia “faz o triste papel de porta-voz da direita em nossa América do Sul”.

"Esperamos que vossa luta possa resultar na derrubada do decreto que ameaça as terras e os recursos naturais dos povos indígenas e na criminalização dos autores dos bárbaros crimes", afirma o texto
Por Augusto Buonicore

junho 10, 2009

MST faz jornada em 11 estados em defesa da educação nas áreas de Reforma Agrária

Estudantes de escolas do campo – filhos de pequenos agricultores e assentados da reforma agrária do MST – fazem jornada nacional de lutas com manifestações em todo o país em defesa da educação pública e contra o corte de 62% no orçamento do Programa Nacional de Educação em Áreas da Reforma Agrária (Pronera), nesta segunda-feira (08/06).

Estão sendo realizados protestos em 11 estados, com a ocupação de oito superintendências do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), responsável pelo Pronera, que tem a missão de promover o acesso à educação formal em todos os níveis aos trabalhadores das áreas de Reforma Agrária, desenvolvendo ações de alfabetização; ensino fundamental e médio; cursos profissionalizantes de Nível Médio, Superior e Especialização (leia abaixo o manifesto da jornada).

"O corte no orçamento do Pronera é um grande retrocesso e caminha na contramão das necessidades dos trabalhadores rurais. Precisamos fortalecer o programa, que atende justamente aos camponeses, que foram historicamente excluídos do acesso a educação no nosso país", afirma a integrante da direção nacional do MST, Edgar Kolling, que coordena o setor de educação.

Em São Paulo, cerca de 400 Sem Terra ocuparam o prédio da superintendência regional do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), na capital do estado. No Pontal do Paranapanema, também acontece protesto em defesa da educação do campo.

Em Goiânia, 400 trabalhadores rurais ocuparam a superintendência regional do Incra em Goiana.

No Ceará, 400 trabalhadores rurais ocuparam a superintendência regional do Incra em Fortaleza.

No Piauí, 350 trabalhadores rurais ocuparam a superintendência do Incra, em Teresina.

Em Santa Catarina, 250 estudantes das escolas de ensino médio e fundamental dos assentamentos da Reforma Agrária fizeram uma caminhada da praça central da
cidade de Chapecó até o Incra, que foi ocupado. Os estudantes solicitam uma audiência para apresentar os pontos de reivindicação.

Na Bahia, cerca de 200 estudantes de movimentos sociais do campo ocuparam a superintendência regional do Incra, em Salvador. A ocupação está prevista para durar três dias.
Em Pernambuco, estudantes e formados em cursos do Pronera ocuparam as sedes do Incra em Recife e Petrolina

No Paraná, cerca de 500 trabalhadores rurais fazem uma mobilização em frente à superintendência Regional do Incra em Curitiba.

Em Minas Gerais, 200 educandos fazem manifestação na superintendência regional do Incra em Belo Horizonte.

No Rio Grande do Sul, filhos de pequenos agricultores e assentados da reforma agrária fizeram protesto em frente à superintendência do Incra, em Porto Alegre.

No Mato Grosso, estudantes do Pronera fazem vigília em frente ao Incra em Cuiabá.

Sobre o Pronera

O Pronera é uma conquista dos movimentos sociais do campo que lutam pela Reforma Agrária no Brasil, resultado da demanda desses movimentos pela efetivação do direito constitucional a uma educação de qualidade, que atenda as suas necessidades sócio-culturais.

De 1998 a 2002, o Pronera foi responsável pela escolarização e formação de 122.915 trabalhadores (as) rurais assentados (as). De 2003 a 2008, promoveu acesso à escolarização e formação para cerca de 400 mil jovens e adultos assentados.

Por meio de metodologias específicas, que consideram o contexto sócio-ambiental e as diversidades culturais do campo, bem como o envolvimento das comunidades onde estes trabalhadores rurais residem, o Pronera buscar fortalecer o mundo rural como território de vida em todas as suas dimensões: econômicas, sociais, ambientais, políticas culturais e éticas.

Segundo estudo da organização Ação Educativa ("Programa Nacional de Educação em Reforma Agrária em Perspectiva - dados básicos para uma avaliação"), em pleno século XXI as populações do campo permanecem marginalizadas do processo de escolarização, com acesso restrito mesmo
à educação básica.

Quando existe, a escola do campo é, na maioria das vezes, uma escola isolada, de difícil acesso, composta por uma única sala de aula, sem supervisão pedagógica, e que segue um currículo que privilegia uma visão urbana da realidade. "A má qualidade da educação produzida nessas condições reforça o imaginário social perverso de que a população do campo não precisa conhecer as letras ou possuir uma formação geral básica para exercer seu trabalho na terra", diz o estudo.

Polícia joga bombas contra manifestantes da USP; protesto pede retirada da PM do campus‏

da Folha Online
da Folha de S.Paulo
Policiais militares que tentam reprimir um protesto na USP (Universidade de São Paulo) lançaram por volta das 17h50 desta terça-feira mais bombas de efeito moral contra os manifestantes, que bloquearam o acesso à universidade. Ainda não há informações sobre feridos ou sobre quantas pessoas participam do protesto.
Segundo informações preliminares da reitoria da USP, os manifestantes jogaram pedras e paus contra os PMs, que reagiram. Antes da confusão, estudantes e funcionários já haviam se reunido em frente à reitoria. Conforme o Sintusp (sindicato dos funcionários) , o ato envolveria alunos, funcionários e professores da USP, Unesp e Unicamp, convocados pelo Fórum das Seis --que representa funcionários, professorese estudantes das três universidades paulistas. A reitoria informou que o confronto com a PM envolve apenas estudantes.
Os manifestantes protestam contra a presença da Polícia Militar no campus da USP. Em resposta à permanência da PM, professores e alunos, que não haviam aderido à paralisação, decidiram entrar em greve na últimaquinta-feira.
Nesta terça, o governador José Serra (PSDB) afirmou que o governo cumpre uma ordem judicial e, por isso, mantém a PM na universidade. "A questão é a seguinte: o governo está cumprindo ordem judicial. A reitora pediusegurança e o governo não tem outra alternativa se não cumprir a ordem judicial dada por um juiz", disse. De acordo com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) o portão 1 deacesso à USP --localizada na rua Alvarenga-- foi bloqueada pelos manifestantes, mas não há informações sobre quantos estudantes participam do ato.
Os manifestantes pedem a reabertura das negociações com o Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) e a retirada da PM do campus da USP. Desde o dia 1º, policiais militares permanecem na USP para evitar que funcionários, em greve desde 5 de maio, bloqueiem a entrada de prédios, incluindo o da reitoria, impedindo a entrada dos que não apoiam a greve.
Os grevistas querem reajuste salarial de 16%, mais R$ 200 fixos, além do fim de processos administrativos contra servidores e alunos que participaram de greves anteriores.
As negociações entre o Cruesp e o Fórum das Seis -- que representa funcionários, professores e estudantes das três universidades paulistas-- estão paradas desde 25 de maio.
Na ocasião, um grupo de estudantes invadiu a reitoria após os reitores impedirem parte dos alunos e um sindicalista de participar da reunião.

Mariátegui, a Apra e a questão do indígena amazônico

No dia 14, José Carlos Mariátegui completaria 115 anos. Um grande tributo em sua memória tem sido as propostas ''criativas e heroicas'' dos socialismos contemporâneos que se tornam realidade na América Latina, sem ser “nem imitação, nem cópia” de algum sistema social, econômico e político, nem mesmo dos socialismos que existiram no século XX.

Ainda melhor homenagem lhe brindam os indígenas amazônicos com suas jornadas em defesa da terra e do regime de vida comunitária, prejudicada pelo entreguismo da Aliança Popular Revolucionária Americana (Apra), sob a presidência de Alan García.

Como nos anos 1920, o Peru enfrenta o dilema sobre o modelo econômico dominante. Mariátegui embasou seus argumentos na análise da estrutura econômica (feudal e semicolonial) da realidade peruana e sua expressão correspondente na luta de classes e propôs o socialismo baseado no coletivismo indígena. Um argumento não socialista com toque “pequeno-burguês”, afirmou Víctor Raúl Haya de la Torre, fundador do Apra. Enquanto aquele debate trazia ideias e discursos sólidos, acompanhados de formas de ação social e política novas, o Peru de hoje está submergido no obscurantismo pragmático, vítima da cultura oligárquica dominante.

No início, em 1926, Mariátegui aderiu à ideia de formar uma frente única antiimperialista de trabalhadores e intelectuais, materializada na Apra, partido fundado com o fim de transformar o Peru oligárquico. Quando Haya de la Torre converteu a Apra em partido único a ser dirigido pela classe média e orientado pelo modelo democrático-burguês, Mariátegui percebe o perigo e rompe, em abril de 1928. Para Mariátegui, um marxista heterodoxo, o socialismo peruano tinha que ser dirigido pela classe operária, tendo como principal aliado o campesinato indígena. Este, em sua forma de vida, reproduz ''os elementos práticos do socialismo'' que a opressão servil feudal não havia destruído, tampouco superado. Daí que, o fim do feudalismo e do centralismo burocrático do Estado oligárquico constituíam tarefas políticas de primeira ordem. Logo, “a questão indígena começa da nossa economia [e tem] suas raízes no regime de propriedade da terra”, dizia Mariátegui.

Presente
As insurreições que os indígenas amazônicos do Peru protagonizam desde meados de 2008 são lideradas pela Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep). Para seu presidente, Alberto Pizango, além de resistir aos decretos de García, a luta é em defesa de um modelo de vida que a extração de gás e petróleo, o corte da madeira e a degradação de rios em busca de ouro está destruindo. Ele se refere à milenar economia indígena amazônica, de caráter predominantemente comunitário e tradicional, que tem resistido ao maior embargo histórico – o desprezo e o esquecimento – e que por isso mesmo mostra a vigência de sua eficácia e funcionalidade para a vida dos povoados.

O regime de propriedade da terra, por outro lado, é mais que uma mera expressão jurídica, um título de propriedade. É o conjunto de mecanismos políticos que garantem a integridade da posse. Esses mecanismos compreendem as formas de uso da terra, do usufruto das riquezas que ali se encontram e que dali se extraem e do poder de decisão que têm seus verdadeiros proprietários. Esses mecanismos estruturam o poder que têm as comunidades, mas podem ser atacados pelas pressões adversas e externas de outros grupos econômicos e/ou do próprio Estado burocrático centralista. É essa estrutura de poder autônomo e comunal dos indígenas amazônicos que o governo aprista desconhece e busca desmantelar.

Anacrônico
Quando o presidente responde que ''as terras da Amazônia são de todos os peruanos e não de um pequeno grupo que vive ali” e que “o Peru não é uma terra de ninguém”, mostra uma atitude que relembra a dos civilistas dos anos 1920. Sua mentalidade é a-histórica, pois desconhece que em cada região do território nacional habitam, vivem e se reproduzem grupos concretos de peruanos que se relacionam social e economicamente entre si e com o meio ambiente. Ninguém melhor que os indígenas para compreender o significado, apreciar o potencial e defender a integridade do habitat amazônico onde sobrevivem por séculos. É algo que um peruano de Tacna ou de Chacarilla (distrito limenho onde mora García) jamais poderia imaginar. Para o presidente, parece que os indígenas amazônicos são seres sem história, que podem ser ignorados e apagados sem escrúpulo.

Ele encobre a verdade sobre o atual conflito. Se é como diz, se os indígenas são ''egoístas'', quem são os “bondosos”? A mão invisível do mercado sempre teve um rosto visível: a dos grupos sociais e econômicos poderosos. Quem são esses grupos que, segundo o presidente, procuram o “interesse nacional” na região amazônica? As transnacionais do petróleo, etanol e gás, as madeireiras, as mineradoras, as empresas de alimentos e os laboratórios químicos? Com a luta pela anulação dos decretos, os indígenas amazônicos revelam os interesses corporativos e sua vocação destrutiva tanto das formas sociais de vida amazônica como dos recursos naturais ali localizados. Quem são, então, os “egoístas”?

Desrespeito à lei
A resposta do Apra recorda também o gamonalismo do século XX, um sistema de dominação social e política que se baseou no divisionismo territorial herdado do vice-reinado espanhol e se reproduziu com o apoio do centralismo burocrático do Estado oligárquico. O gamonalismo precede o Estado Nacional moderno porque desaprecia suas próprias leis quando estas são adversas aos interesses que representa. Quando os indígenas amazônicos acusam o governo aprista de violar a Convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre os povos indígenas (número 169) e editar decretos supremos inconstitucionais, põem em evidência o gamonalismo de García.

Mas não apenas isso. A Apra parece “[nutrir-se] do mais envelhecido repertório de ideias imperialistas”, diria Mariátegui. Seu desdém em relação aos indígenas, a quem criminaliza e persegue, por exercerem o direito constitucional de protestar em defesa da soberania nacional, assemelha-se àquele “conceito das raças inferiores [que] serviu ao Ocidente branco para sua obra de expansão e conquista”, agregaria Mariátegui.

Socialismo prático
Consequentemente, a questão dos indígenas amazônicos trata do presente e do futuro do Peru e as teses socialistas de Mariátegui têm vigência estratégica. “[Não] nos contentemos em reivindicar [e outorgar] o direito do indígena à educação, à cultura, ao progresso, ao amor e ao céu. Comecemos por reivindicar, categoricamente, seu direito à terra”.

A sobrevivência da comunidade e dos elementos de socialismo prático na agricultura e na vida dos indígenas, hoje multiplicadas em diversas formas em todo país, são elementos concretos de uma alternativa original que não será imitação, mas criação heroica das lutas do povo peruano, excluído pela oligarquia e espoliado pelo imperialismo. Sustentar o contrário, como faz a Apra e García, que afirmam que o problema dos indígenas amazônicos é de caráter local (região amazônica), moral (são “egoístas”), étnico (são “caipiras”) e policial (são “criminosos”), é argumentar a favor do status quo e opor-se à historia e à possibilidade que tem o Peru de transformar-se em uma nação inclusiva, democrática, participativa, coletiva e solidária.

Alejandro F. Loarte, peruano radicado em Nova York, é bacharel em Sociologia e mestre em Ciências Políticas Internacionais.

Tradução: Dafne Melo

junho 06, 2009

Serra e a tropa de choque

A Universidade de São Paulo se tornou, novamente, alvo de uma repressão desmedida do governador José Serra (PSDB). A Cidade Universitária amanheceu, nesta segunda-feira (1), completamente sitiada pela polícia. Em cada unidade, há pelo menos uma viatura, e em frente ao prédio da reitoria há uma concentração de dezenas de policiais.

Tudo isso devido a um movimento de greve de professores e funcionários da instituição. Os trabalhos da USP estão paralisados desde o dia 5 de maio e levantam a bandeira pelo aumento salarial, contra a ameaça de demissão de 5 mil trabalhadores, pelas demandas do hospital universitário e outras pautas específicas, além da reintegração de Claudionor Brandão, diretor do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP).
A demissão de Claudionor é produto da perseguição política aos trabalhadores e ao sindicato, protagonizada pela reitoria e pelo governo do estado. Trata-se de uma política marcada pela prática anti-sindical e antidemocrática, que abre um gravíssimo precedente para todos os trabalhadores brasileiros. É inegável a expedição tucana contra a legítima mobilização em defesa da democracia na universidade sofram esta coerção policial.
"Os policiais estão com uma atitude provocativa frente aos trabalhadores, arrancando as faixas dos grevistas, buscando abertamente causar incidentes. Isso se dá justamente após a reitoria, apoiada pelo governo do estado, ter suspendido as negociações com os trabalhadores de maneira completamente arbitrária", relata a Comissão de greve.
Histórico de repressão
Essa personalidade ditatorial vem se desenvolvendo na gestão do governador há um bom tempo — vide o caso do Largo São Francisco, onde, em um ato truculento, a tropa de chope foi enviada para retirar os cerca 400 manifestantes que dormiam no pátio da faculdade. Na época, o movimento ocupou pacificamente a reitoria do campus e publicou a sua posição em permanecer simbolicamente no local por 24 horas.
No entanto, a ordem de reintegração partiu de uma determinação do governo tucano requerida pelo diretor da faculdade, João Grandino Rodas. O Centro Acadêmico XI de Agosto, ocupado por cerca de 30 estudantes, também foi encurralado pela Tropa de Choque e resistiu à reintegração por cerca de quatro horas.
Segundo lideranças estudantis, em nenhum momento houve negociação — eles apenas eram ameaçados de prisão. Tampouco houve a invasão do local porque o Centro Acadêmico é uma propriedade particular, que pertence aos alunos.
Como forma de protesto, o professor José Sérgio Carvalho ministrou aula na rua ao lado do edifício onde os policiais se concentram na Cidade Universitária, na Zona Oeste de São Paulo. O professor da disciplina, filosofia da educação, discutia o conceito de autoridade em voz alta, que competia com o som alto do microfone vindo do carro de som dos grevistas, postados em frente à reitoria.
Da Redação, com informações do EstudanteNet

Hobsbawm: a Era das Incertezas

Por Verena Glass
Em entrevista exclusiva à Revista Sem Terra, o historiador Eric Hobsbawm apresenta ao leitor sua avaliação das origens, efeitos e desdobramentos da crise mundial.

Revista Sem Terra - O planeta vive hoje uma crise que abalou as estruturas do capitalismo mundial, atinge indiscriminadamente atores em nada responsáveis pela sua eclosão, e que talvez seja um dos mais importantes "feitos" da moderna globalização. Na sua avaliação, quais foram os fatores e mecanismos que levaram a esta situação?

Eric Hobsbawm - Nos últimos quarenta anos, a globalização, viabilizada pela extraordinária revolução nos transportes e, sobretudo, nas comunicações, esteve combinada com a hegemonia de políticas de Estado neoliberais, favorecendo um mercado global irrestrito para o capital em busca de lucros. No setor financeiro,
isto ocorreu de forma absoluta, o que explica porque a crise do desenvolvimento capitalista ocorreu ali. Apesar do fato de que o capitalismo sempre - e por natureza - opera por meio de uma sucessão de expansões geradoras de crises, isto criou uma crise maior e potencialmente ameaçadora para o sistema, comparável à Grande Depressão que se seguiu a 1929, mesmo que seja cedo para avaliarmos todo o seu impacto. Um problema maior tem sido que a tendência de declínio das margens de lucro, típico do capitalismo, tem sido particularmente dramática porque os operadores financ eiros, acostumados a enormes ganhos com investimentos especulativos em épocas de crescimento econômico, têm buscado mantê-los a níveis insustentáveis, atirando-se em investimentos inseguros e de alto risco, a exemplo dos financiamentos imobiliários "subprime" nos EUA. Uma enorme dívida, pelo menos quarenta vezes maior do que a sua base econômica atual foi assim criada, e o destino disso era mesmo o colapso.

RST - Como resposta à crise econômica, governos e instituições financeiras estão concentrados em salvar os sistemas bancário e financeiro, opção que tem sido considerada uma tentativa de cura do próprio vetor causador do mal. No que deve resultar este movimento?

EH - Um sistema de crédito operante é essencial para qualquer país desenvolvido, e a crise atual demonstra que isso não é possível se o sistema bancário deixa de funcionar. Nesse sentido, as medidas nacionais para restaurá-lo são necessárias. Mas o que é preciso também é uma reestruturação do Estado por exemplo, através das nacionalizações, a "desfinanceirização" do sistema e a restauração de uma relação realista entre ativos e passivos econômicos. Isso não pode ser feito simplesmente combinando vastos subsídios para os bancos com uma regulação futura mais restrita. De toda forma, a depressão econômica não pode ser resolvida apenas via restauração do crédito. São essenciais medidas concretas para gerar emprego e renda para a população, de quem depende, em última instância, a prosperidade da economia global.

RST - Antes de se agudizar o caos econôm ico, o mundo começou a sofrer uma sucessão de abalos sociais e ambientais, como a falta global de alimentos, as mudanças climáticas, a crise energética, as crises humanitárias decorrentes das guerras, entre outros. Como você avalia estes fatores na perspectiva do paradigma civilizatório e de desenvolvimento do capitalismo moderno?

EH - Vivemos meio século de um crescimento exponencial da população global, e os impactos da tecnologia e do crescimento econômico no ambiente planetário estão colocando em risco o futuro da humanidade, assim como ela existe hoje. Este é o desafio central que enfrentamos no século 21. Vamos ter que abandonar a velha crença - imposta não apenas pelos capitalistas - em um futuro de crescimento econômico ilimitado na base da exaustão dos recursos do planeta. Isto significa que a fórmula da organização econômica mundial não pode ser determinada pelo capitalismo de mercado que, repito, é um sistema impulsionado pelo crescimento ilimitado. Como esta transição ocorrerá ainda não está claro, mas se não ocorrer, haverá uma catástrofe.

RST - O capitalismo tem adquirido, cada vez mais, uma força hegemônica na agricultura com o crescimento do agronegócio. Muitos defendem que a Reforma Agrária não cabe mais na agenda mundial. Como vê este debate e a luta pela terra de movimentos sociais como o MST e a Via Campesina?

EH - A produção agrícola necessária para alimentar os seis bilhões de seres humanos do planeta pode ser fornecida por uma pequena fração da população mundial, se compararmos com o que era no passado. Isso levou tanto a um declínio dramático das populações rurais desde 1950, quanto a uma vasta migração do campo para as cidades. Também levou a um crescente domínio da agricultura por parte não tanto do grande agronegócio, mas principalmente de empreendimentos capitalistas que hoje controlam o mercado desta produção. Da mesma forma, têm aumentado os conflitos entre agricultores e iniciativas empresariais na disputa pela terra para propósitos não agrícolas (indústrias, mineração, especulação imobiliária, transporte etc.), bem como pela sua posse e pela exploração dos recursos naturais. A Reforma Agrária sem duvida não é mais tão importante para a política como foi h� � 40 anos, pelo menos Insustentável: crescimento econômico e da população colocam em risco o futuro da amizade na América Latina, mas claramente permanece uma questão central em muitos outros países. Na minha opinião, a crise atual reforça a importância da luta de movimentos como o MST, que é mais social do que econômica. Em tempos de vacas gordas é muito mais fácil ganhar a vida na cidade. Em tempos de depressão, a terra, a propriedade familiar e a comunidade garantem a segurança social e a solidariedade que o capitalismo neoliberal de mercado tão claramente nega aos migrantes rurais desempregados.

RST - Na virada do século, um novo movimento global de resistência social tomou corpo através do que ficou conhecido como altermundialismo. Surgiu o Fórum Social Mundial, e grandes manifestações contra a guerra e instituições multilaterais, como a OMC, o G8 e a ALCA, na América Latina, ganharam as ruas. Na sua avaliação, o que resultou destes movimentos? E hoje, como vê estas iniciativas?

EH - O movimento global de resistência altermundialista merece o crédito de duas grandes conquistas: na política, ressuscitou a rejeição sistemática e a crítica ao capitalismo que os velhos partidos de esquerda deixaram atrofiar. Também foi pioneiro na criação de um modo de ação política global sem precedentes, que superou fronteiras nacionais nas manifestações de Seattle e nas que se seguiram. Grosso modo, logrou formular e mobilizar uma poderosa opinião pública que seriamente pôs em cheque a ordem mundial neoliberal, mesmo antes da implosão econômica. Seu programa propositivo, porém, tem sido menos efetivo, em função, talvez, do grande número de componentes ideologicamente e emocionalmente diversos dos movimentos, unificados apenas em aspirações muito generalistas ou ações pontuais em ocasiões específicas.

RST - Principalmente na América Latina, os anos 2000 trouxeram uma série de mudanças políticas para a região com a eleição de governadores mais progressistas. A sociedade civil organizada ganhou espaço nos debates políticos, mas os avanços na garantia dos direitos sociais ainda esperam por uma maior concretização. Como analisa este fenômeno?

EH - O fator mais positivo para a América Latina é a diminuição efetiva da influência política e ideológica - e, na América do Sul, também econômica - dos EUA. Um segundo fator muito importante é o surgimento de governos progressistas - novamente mais fortes na América do Sul - , inspirados pela grande tradição da igualdade, fraternidade e liberdade, que comprovadamente está mais viva aí do que em outras regiões do mundo neste momento. Estes novos regimes têm se beneficiado de um período de altos preços de seus bens de exportação. Quão profundamente serão afetados pela crise econômica, principalmente o Brasil e a Venezuela, ainda não está claro. Suas políticas têm logrado algumas melhorias sociais genuínas, mas até agora não reduziram significativamente as enormes desigualdades econômicas e sociais de seus países. Esta redução deve permanecer a maior prioridade de governos e movimentos progressistas.

RST - Diante da crise civilizatória, do fracasso do capitalismo e da inoperância dos sistemas multilaterais, que não foram aptos a enfrentar as grandes questões mundiais, as esquerdas têm se debatido na busca de alternativas; mas nem consensos nem respostas parecem despontar no horizonte. Haveria, em sua opinião, a possibilidade real da construção de um novo socialismo, uma nova forma de lidar com o planeta e sua gente, capaz de enfrentar a hegemonia bélica, econômica e política do neoliberalismo?

EH - Eu não acredito que exista uma oposição binária simples entre "um novo socialismo" e a "hegemonia do capitalismo". Não existe apenas uma forma de capitalismo. A tentativa de aplicar um modelo único, o "fundamentalismo de mercado" global anglo-americano, é uma aberração histórica, que potencialmente colapsou agora e não pode ser reconstruída. Por outro lado, o mesmo ocorre com a tentativa de identificar o socialismo unicamente com a economia centralizada planejada pelo Estado dos períodos soviético e maoísta. Esta também já era (exceto talvez se nosso século for reviver os períodos temporários de guerra total do século 20). Depois da atual crise, o capitalismo não vai desaparecer. Vai se ajustar a uma nova era de economias que combinarão atividades econômicas públicas e privadas. Mas o novo tipo de sistemas
mistos tem que ir além das várias formas de "capitalismo de bem estar" que dominou as economias desenvolvidas nos trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.
Deve ser uma economia que priorize a justiça social, uma vida digna para todos e a realização do que Amaratya Sen chama de potencialidades inerentes aos seres humanos. Deve estar organizada para realizar o que está além das habilidades do mercado dos caçadores-de-lucro, principalmente para confrontar o grande desafio da humanidade neste século 21: a crise ambiental global. Se este novo sistema se comprometer com os dois objetivos, poderá ser aceitável para os socialistas, independente do nome que lhe dermos. O maior obstáculo no caminho não é a falta de clareza e concordância entre as esquerdas, mas o fato de que a crise econômica global coincide com uma situação internacional muito perigosa, instável e incerta, que provavelmente não estabelecerá uma nova estabilidade por algum tempo. Entrementes, não há consenso ou ações comuns entre os Estados, cujas políticas são dominadas por interesses nacionais possivelmente incompatíveis com os interesses globais.

RST - Conceitos como solidariedade, cooperação, tolerância, justiça social, sustentabilidade ambiental, responsabilidade do consumidor, desenvolvimento sustentável, entre outros, têm encontrado eco, mesmo de forma ainda frágil, na opinião pública. Acredita que estes princípios poderão, no futuro, ganhar força e influenciar a ordem mundial? Vê algum caminho que possa aproximar a humanidade a uma coabitação harmoniosa?

EH - Os conceitos listados estão mais para slogans do que para programas. Eles ou ainda precisam ser transformados em ações e agendas (como a redução de gases de efeito estufa, encorajada ou imposta pelos governos, por exemplo), ou são subprodutos de situações sociais mais complexas (como "tolerância", que existe efetivamente apenas em sociedades que a aceitam ou que estão impedidas de manter a intolerância). Eu preferiria pensar na "cooperação" não apenas como um ideal generalista, mas como uma forma de conduzir as questões humanas, como as atividades econômicas e de bem estar social. Me entristece que a cooperação e a organização mútua, que eram um elemento tão importante no socialismo do século 19, desapareceram quase que completamente do horizonte socialista do século 20 - mas felizmente não da agenda do MST. Espero que esta lista de conceitos continue conquistando o apo io e mobilize a opinião pública para pressionar efetivamente os governos. Não acredito que a humanidade alcançará um estado de "coabitação harmoniosa" num futuro próximo. Mas mesmo se nossos ideais atualmente são apenas utopias, é essencial que homens e mulheres lutem por elas.

RST - O senhor, que estudou com profundidade a história do mundo e as relações humanas nos últimos séculos, o que espera do futuro?

EH - Se a crise ambiental global não for controlada, e o crescimento populacional estabilizado, as perspectivas são sombrias. Mesmo se os efeitos das mudanças climáticas possam ser estabilizados, produzirão enormes problemas que já são sentidos, como a crescente competição por recursos hídricos, a desertificação nas zonas tropicais e subtropicais, e a necessidade de projetos caros de controle de inundações em regiões costeiras. Também mudarão o equilíbrio internacional em favor do hemisfério Norte, que tem largas extensões de terras árticas e subárticas passíveis de serem cultivadas e industrializadas. Do ponto de vista econômico, o centro de gravidade do mundo continuará a se mover do Oeste (América do Norte e Europa) para o Sul e o Leste asiático, mas o acúmulo de riquezas ainda possibilitará às populações das velhas regiões capitalistas um padrão de vida muito su perior às dos emergentes gigantes asiáticos. A atual crise econômica global vai terminar, mas tenho dúvidas se terminará em termos sustentáveis para além de algumas décadas. Politicamente, o mundo vive uma transição desde o fim da Guerra Fria. Se tornou mais instável e perigoso, especialmente na região entre Marrocos e Índia. Um novo equilíbrio internacional entre as potências - os EUA, China, a União Européia, Índia e Brasil - presumivelmente ocorrerá, o que poderá garantir um período de relativa estabilidade econômica e política, mas isto não é para já. O que não pode ser prevista é a natureza social e política dos regimes que emergirão depois da crise. Aqui as experiências do passado não podem ser aplicadas. O historiador pode falar apenas das circunstâncias herdadas do passado. Como diz Karl Marx: a humanidade faz a sua própria história. Como a fará e com que resultados, muitas vezes inesperados, são questões que ultrapassam o poder de previsão do historiador.

Ilha das flores

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