Reflexões

"Instruí-vos, porque precisamos da vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo.

Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força".
(Palavra de ordem da revista L'Ordine Nuovo, que teve Gramsci entre seus fundadores)

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dezembro 31, 2008

Cisjordânia cairá depois


Com o sítio, Israel visa a dois principais objetivos. Um, reforçar a idéia de que os palestinos são problema exclusivamente humanitário, como pedintes, mendigos sem qualquer identidade política e, portanto, sem reivindicações políticas. Segundo, impingir a questão de Gaza, ao Egito.
Por isso, os israelenses toleram as centenas de túneis que há entre Gaza e o Egito, pelos quais começou a formar-se um setor comercial informal, embora cada vez mais regulado. A muito grande maioria dos habitantes da Faixa de Gaza vive em condições de miséria, com 49,1%, estatísticas oficiais, de desempregados. De fato, os habitantes de Gaza já sabem que está desaparecendo rapidamente, para todos, qualquer possibilidade real de emprego.
Dia 5/11, o governo de Israel fechou todas as vias de entrada e saída de Gaza. Comida, remédios, combustível, peças de reposição para as redes de energia, água e esgoto, adubo, embalagens, telefones, papel, cola, calçados e até copos e xícaras não entram nos territórios ocupados em quantidade suficiente, ou absolutamente não há.
Conforme relatórios da Oxfam, apenas 137 caminhões com alimentos entraram em Gaza no mês de novembro de 2008. Em média, 4,6 caminhões/dia; em outubro de 2008, entraram em média 123; em dezembro de 2005, 564. As duas principais organizações que levam comida a Gaza são a UNRWA, Agência de Ajuda Humanitária da ONU para os Refugiados Palestinos e o Oriente Médio; e a WFP, "Programa Alimento para o Mundo". A UNRWA alimenta aproximadamente 750 mil palestinos em Gaza (cerca de 15 caminhões/dia de alimentos). Entre 5/11 e 30/11, só chegaram 23 caminhões, cerca de 6% do mínimo indispensável; na semana de 30/11, chegaram 12 caminhões, 11% do mínimo indispensável.
Durante três dias, em novembro, a UNRWA esteve totalmente desabastecida e 20 mil pessoas não receberam a única comida com que contam para matar a fome. Nas palavras de John Ging, diretor da UNRWA em Gaza, praticamente todos os atendidos pela organização dependem completamente do que recebem, seu único alimento. Dia 18/12, a UNRWA suspendeu completamente a distribuição de alimento, dos programas regulares e dos programas de emergência, por causa do bloqueio israelense.
A WFP enfrenta problemas semelhantes; conseguiu enviar apenas 35 caminhões, dos 190 previstos para atender as necessidades da Faixa de Gaza até o início de fevereiro de 2009 (mais seis caminhões conseguiram chegar a Gaza, entre 30/11 e 6/12). E não é só: a WFP é obrigada a pagar pelo armazenamento dos alimentos que não podem ser enviados a Gaza. Só em novembro, pagou 215 mil dólares. Se Israel mantiver o sítio a Gaza, a WFP terá de pagar mais 150 mil dólares pelo armazenamento dos alimentos, no mês de dezembro, dinheiro que deveria ser usado para auxiliar os palestinos, mas está entrando nos cofres de empresas israelenses de armazenamento.
A maioria das padarias comerciais em Gaza (30, de 47) foi obrigada a fechar as portas por falta de gás de cozinha. As famílias estão usando qualquer tipo de combustível que encontrem, para cozinhar. Como a FAO/ONU já informou, o gás é indispensável para manter aquecidos os criadouros de aves. A falta de gás e de rações, já levou à morte milhares de galinhas e frangos. Em abril, conforme a FAO, já praticamente não haverá galinhas e frangos em Gaza e para 70% dos palestinos, carne e ovos de galinha são a única fonte de proteína.
Bancos, impedidos por Israel de operar nos territórios ocupados, fecharam as portas dia 4/12. Num deles há um aviso, em que se lê: "Por decisão da Autoridade das Finanças na Palestina, o banco permanecerá fechado hoje, 4/12/2008, 5ª-feira, por falta de numerário. O banco só reabrirá quando voltar a receber moeda."
O Banco Mundial já antecipara que o sistema bancário em Gaza entraria em colapso se as restrições continuassem. Todo o fluxo de dinheiro para os programas foi suspenso, e a UNRWA suspendeu a assistência financeira a outros subprogramas, para os mais necessitados, dia 19/11. Também está paralisada a produção de livros didáticos e cadernos, porque não há papel, tinta de impressão e cola, em Gaza. Com isso, 200 mil estudantes serão afetados, ano que vem, no início das aulas.
Dia 11/12, o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, enviou 25 milhões de dólares para o sistema bancário na Palestina, depois de um apelo do primeiro-ministro palestinense, Salaam Fayad; foi a primeira remessa, desde outubro. Não bastará nem para pagar o mês de salários atrasados dos 77 mil funcionários públicos de Gaza.
Dia 13/11, foi suspensa a operação da única estação de energia elétrica que opera em Gaza; as turbinas foram desligadas por absoluta falta de diesel industrial. As duas turbinas movidas a bateria 'caíram' e não voltaram a funcionar dez dias depois, quando chegou um único carregamento de combustível. Cerca de 100 peças de reposição, encomendadas para as turbinas, estão há oito meses no porto de Ashdod, em Israel, a espera de que as autoridades da alfândega israelense as liberem. Agora, Israel começou a leiloar as peças não liberadas, porque permanecem há mais de 45 dias no porto. Tudo feito conforme a legislação de Israel.
Durante a semana de 30/11, 394 mil litros de diesel industrial foram liberados para a estação de produção de energia: aproximadamente 18% do mínimo que Israel está legalmente obrigado a fornecer. Foi suficiente apenas para fazer funcionar uma turbina, por dois dias, antes de a estação ser novamente fechada. A Gaza Electricity Distribution Company informou que praticamente toda a Faixa de Gaza ficará sem eletricidade por períodos que variarão entre 4 e 12 horas/dia. Em vários momentos, haverá mais de 65 mil pessoas sem eletricidade.
Nem mais uma gota de óleo diesel (para geradores e para transporte) foi entregue essa semana (como já acontece desde o início de novembro); nem de gás de cozinha. Os hospitais em Gaza estão operando, ao que parece, com diesel e gás recebido do Egito, pelos túneis; ao que se diz, são produtos administrados e taxados pelo Hamás. Mesmo assim, dois hospitais em Gaza estão sem gás de cozinha desde 23/11.
Além dos problemas diretamente causados pelo sítio israelense, há os problemas criados pelas divisões políticas entre a Autoridade Palestina na Cisjordânia e a Autoridade do Hamás, em Gaza. Por exemplo, a CMWU, que fornece água para a região costeira de Gaza, que não é controlada pelo Hamás, é financiada pelo Banco Mundial via a Autoridade Palestina para a Água (PWA) em Ramállah; o financiamento destina-se a pagar o combustível para as bombas do sistema de esgotos de Gaza.
Desde junho, a PWA tem-se recusado a liberar o dinheiro, aparentemente porque entende que o funcionamento dos esgotos beneficiaria o Hamás. Não sei se o Banco Mundial tentou alguma intervenção nesse processo, mas, por hora, a UNRWA está fornecendo o combustível necessário, embora não tenha orçamento para essa finalidade. A CMWU também pediu autorização a Israel para importar 200 toneladas de cloro; até o final de novembro recebeu apenas 18 toneladas suficiente para o consumo de uma semana de água clorada. Em meados de dezembro, a cidade de Gaza e o norte da Faixa só tinha água por seis horas, a cada três dias.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, as divisões políticas entre Gaza e a Cisjordânia também têm tido sério impacto sobre o abastecimento de remédios em Gaza. O ministério da Saúde da Cisjordânia (MOH) é responsável por comprar e distribuir quase todos os produtos farmacêuticos e cirúrgico-hospitalares usados em Gaza. E todos os estoques estão perigosamente baixos. No mês de novembro, várias vezes o ministério devolveu carregamentos recebidos por via marítima, por não haver espaço para armazenamento; apesar disso, nada tem sido entregue em Gaza, em quantidades suficientes. Na semana de 30/11, chegou a Gaza um caminhão com remédios e suprimentos médios, enviado pelo MOH em Ramállah; foi o primeiro, desde o início de setembro.
Está acontecendo aí, ante nossos olhos, a destruição de toda uma sociedade e nenhum clamor se ouve, além dos avisos da ONU, que são ignorados pela comunidade internacional.
A União Européia anunciou recentemente que deseja estreitar relações com Israel, pouco depois de as autoridades israelenses terem declarado abertamente que preparam a invasão, em larga escala, da Faixa de Gaza e de terem apertado ainda mais o bloqueio econômico, com o apoio, já nada tácito, da Autoridade Palestina em Ramállah. Essa, vê-se, está colaborando com Israel, em várias medidas. Dia 19/12, o Hamás deu oficialmente por encerrada a trégua (que Israel declarou que estaria interessado em renovar), porque Israel não suspendeu (nem diminuiu) o bloqueio.
Por que, como, em que sentido, negar alimento e remédios à população de Gaza ajudaria a proteger os israelenses?
Por que, como, em que sentido, o sofrimento das crianças de Gaza - mais de 50% da população são crianças! - beneficiaria alguém?
A lei internacional e a decência humana exigem que essas crianças sejam protegidas. Se Gaza cair, a Cisjordânia cairá depois.

* Sara Roy é professora do Harvard's Center for Middle Eastern Studies. Autora de Failing Peace: Gaza and the Palestinian-Israeli Conflict.

Artigo reproduzido da Agência Carta Maior

dezembro 28, 2008

Gaza: The Killing Zone - Israel/Palestine

"O que está acontecendo na Palestina, não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico."

Gandhi

dezembro 27, 2008

Grécia: a história é a história das lutas de classes ou não?

Grécia: palco das lutas de classes

Lutas de classes: Grécia

Investidores ou vigaristas?

O último escândalo financeiro envolveu o investidor norte-americano Bernard L. Madoff, um dos mais admirados gestores de fundos e investimentos financeiros, para não dizer o mais. Centenas de multimilionários e de bancos investiam nos seus fundos, dedicados principalmente a mobilizar os chamados hedge funds (valores muito arriscados e precisamente por isso muito rentáveis). Entre eles, e em grandes quantidades, o Banco Santander.

Nos últimos anos, Madoff proporcionou ganhos multimilionários em forma de taxas de juro muito elevadas, mas soube-se agora que o fazia tendo por base a criação de uma "pirâmide" das que geralmente se crê que só enganam os tontos e poucos mais. Com o dinheiro dos novos investidores, pagava os lucros aos anteriores e agora tudo foi descoberto.

Nada melhor do que esta experiência (que não vai ser a última, pois há muitas mais entidades que realizaram este tipo de atividade, de forma mais ou menos sibilina) para mostrar que as grandes finanças da nossa época não são senão uma grande burla, um jogo de casino em que todos fazem artimanhas entre si e que, em si mesmas, se baseiam num mero embuste. Consistem em movimentar virtualmente os fundos para cobrir umas operações com outras e gerar lucros de forma puramente contabilística, sem que pelo meio haja alguma atividade produtiva que gere valor real

E nessas operações, não estão envolvidos apenas os corruptos da especulação, os multimilionários fastidiosos e dedicados apenas a ganhar dinheiro. Não. Os que investem nesses fundos, os que dedicam os recursos a essas finanças vazias e intrinsecamente fraudulentas são os grandes bancos, as grandes companhias multinacionais, os fundos de investimento... ou seja, os chamados investidores "institucionais", que em vez de gerarem recursos para a actividade produtiva, para os empresários e para os consumidores, dedicam-nos a realizar apostas de casino a favor deles mesmos ou dos seus clientes mais privilegiados.

Agora, uma vez mais, ocorreram quebras patrimoniais nestes bancos, tal como tem vindo a suceder nos últimos meses. E de novo reclamaram o socorro e a ajuda dos poderes públicos: eles perdem o nosso dinheiro no casino e nós pomos o nosso dinheiro para que voltem a fazer o mesmo e possam continuar a repartir os lucros.

Querem-nos fazer acreditar que o caso de Madoff é isolado, mas não é. A fraude deste é particular devido à sua imensa envergadura, mas há mais, houve mais, de uma forma ou de outra, mas sempre com a mesma natureza básica. O que agora se acaba de descobrir é a versão extrema da fraude financeira dos nossos dias, a vigarice palpável e elementar.

Mas o fato de os banqueiros mais poderosos do planeta, e os que precisamente por isso têm os melhores analistas, terem caído numa elementar pirâmide mostra um dado essencial: não se trata de um acidente, mas sim da consequência da generalização de uma estratégia constantemente orientada para tirar rendimento de onde quer que seja, sem parar para pensar, nem nas consequências na economia e na sociedade, nem nos seus riscos para os próprios investidores. Bancos gigantescos como o Santander deixaram-se levar pela mesma avareza que arruína as vítimas do de uma simples burla.

A sociedade não pode continuar a aceitar uma situação como esta, em que a cada dois por três se destapa uma fraude e, sobretudo, em que já não é possível dissimular por mais tempo que os bancos estão à deriva por irresponsabilidade, má gestão e ganância desmedida. Há que desmascarar. Temos o direito de pedir contas, de saber o que fizeram com o nosso dinheiro os grandes bancos e qual é o volume de risco que acumularam e aonde. E não podemos consentir que se continue a dar dinheiro público aos bancos para que os bancos, primeiro o tenham em depósitos mais rentáveis e, logo, quando quiserem, nos emprestem a juros. É uma desfaçatez inaceitável, e temos de exigir decência aos governos para que ponham ordem e assegurem que os efeitos da gestão gananciosa e irresponsável sejam pagos por que a levou a cabo, não pelos contribuintes.

Juan Torres López é catedrático de Economia Aplicada na Universidade de Sevilha.

Quem são os verdadeiros vândalos?

No primeiro dia da 28ª Bienal de São Paulo, um grupo formado por cerca de 40 pessoas invadiu o pavilhão no Parque do Ibirapuera e pichou parte de seu segundo andar (o andar “vazio”), durante o horário de visitação. Os pichadores preencheram as paredes com frases do tipo: “Isso que é arte” “Abaixa a ditatura” “Fora Serra.” Além dos nomes das gangues, como eles mesmo se denominam, Susto, 4 e Secretos. Vários grupos estavam envolvidos na invasão e esta foi uma continuidade das ações de protesto que ocorreram neste ano na Faculdade Belas Artes e na galeria Choque Cultural, lideradas pelo artista Rafael Guedes Augustaitiz, o PixoBomb.

Alguns visitantes aplaudiram a pichação, mas seguranças e pichadores trocaram socos e pontapés. A segurança fechou as portas do prédio e prendeu alguns jovens até que a polícia chegasse. Uma vidraça acabou quebrada. Logo depois as pichações foram cobertas com o banal custo de algumas latas de tinta e tudo permaneceu como antes.

Alguns pichadores foram presos e liberados em seguida. Apenas Caroline Pivetta da Mota, de 23 anos, permaneceu presa, pois não tinha como comprovar residência e trabalho. Caroline está presa há 53 dias...

Este é mais um fato que escancara tanto a justiça quanto o sistema de arte, cada dia mais reacionário. Vejam a nota da Bienal sobre o fato: "Trata-se de um ato criminoso, previsto em lei, contra um patrimônio público, o edifício da Bienal, o meio ambiente, a área preservada do Parque Ibirapuera (...)
Causa-nos profunda surpresa e pesar, ver que no momento em que a exposição Bienal se propõe como um espaço democrático, aberto ao público, hospitaleiro, recebamos uma manifestação completamente contrária a esse espírito. O vandalismo causado pela atitude autoritária e agressiva desses jovens representa uma ameaça à constituição de um espaço público coletivo, que respeite a integridade de cada cidadão e o patrimônio material e simbólico da nossa cultura. (...)"

A nota, além de expressar uma postura extremamente conservadora em relação à Arte, é uma grande contradição com a própria proposta desta Bienal. Os burocratas e intelectuais envolvidos na Bienal sempre tentam cobrir suas fracas e estéreis idéias de arte elitizada com um discurso de abertura, democratização e coletivização dos espaços da Arte, como podemos ver no texto de abertura da 28ª Bienal, que chega a ser cômico: “A transformação do andar térreo numa praça pública sugere uma nova relação da Bienal com o seu entorno – o parque, a cidade –, que se abre como a ágora na tradição da polis grega, um espaço para encontros, confrontos, fricções.”

Uma coisa é o discurso outra coisa é a prática. Na prática, quando a Bienal acionou a polícia e registrou o boletim de ocorrência (e ainda não retirou a acusação), todo o discurso de “praça pública, espaço para encontros, confrontos e fricções” desmoronou, mostrando ser mais uma estratégia de marketing do que uma proposta cultural.

Ao manter Caroline presa durante mais de 50 dias por aplicar tinta na parede em um espaço de arte “aberto” ao público o sistema de arte, de cultura e justiça só demonstram mais uma vez como são extremamente reacionários. “Se o vazio fosse de fato o espaço aberto para discutir a instituição, essa extraordinária grafitagem teria sido incorporada ao projeto ético e político da 28ª Bienal”, escreveu Paulo Herkenhoff, crítico de arte e curador da 24ª Bienal de São Paulo, ao jornal Folha de S. Paulo.

A polêmica aqui não é se pichar é ou não é arte, é ou não vandalismo. A burguesia que determina o que é ou não é arte. As Bienais, os intelectuais de plantão, os galeristas e o mercado funcionam como um carimbo de “é realmente arte”. A burguesia incorpora sempre qualquer forma de expressão artística por mais radical, antagônico e polêmico que seja. Foi assim com o movimento Punk, com o Grafite, o Hip Hop etc.

Ou seja, para a burguesia, pichar ou não pichar não é a polêmica. Uma pichação com assinatura de Jean Michel Basquiat em Nova Iorque ou um grafite da dupla Os Gêmeos em um viaduto em São Paulo custa alguns milhões de dólares e sendo assim a burguesia sorri chamando a pichação e o grafite de arte e não de “ato criminoso”.

O absurdo completo que é a prisão de Caroline só reflete o tipo de sociedade que estamos vendo surgir no Brasil.

Enquanto a burguesia esbalda-se distribuindo livros de arte como brinde de final de ano, pagos com dinheiro do povão, o ensino e os espaços de arte seguem elitizados. Faltam funcionários, instalações, equipamentos e verbas em todas as instituições públicas de arte do país. O ensino de Arte encontra-se totalmente abandonado, da creche à universidade. As artes visuais, o cinema, o teatro e a música dependem de esmolas para não desaparecem.

Parodiando, a nota divulgada pela Bienal poderia ficar assim: "Uma burguesia criminosa que age contra o patrimônio público, o edifício da Bienal, o meio ambiente, a área preservada do Parque Ibirapuera, contra a saúde, a educação, a justiça e todas as formas autênticas de expressão.
O vandalismo causado pela atitude autoritária e agressiva da burguesia brasileira (ministério da Cultura, ministério da Justiça, polícia de são Paulo, Governador José Serra, Fundação Bienal de São Paulo e o curador Ivo Mesquita) representa uma ameaça à constituição de um espaço público coletivo, que respeite a integridade de cada cidadão e o patrimônio material e simbólico da nossa cultura."
do site do PSTU

dezembro 22, 2008

Uma mensagem de natal ... Roupa Nova

Olá pessoal, essa mensagem eu copiei do blog da Mendi, espero que gostem".

"A saúde para dar e vender.
A paz para entregar e acolher.
O carinho para doar e receber.
A ternura para brotar e ceder.
A paciência para acalmar e convencer.
A tranqüilidade para conservar e converter.
A consciência para constatar e compreender.
A solidariedade para despertar e oferecer.
A esperança para desdobrar e alvorecer.
A lembrança para recordar e entender.
O dinheiro para ganhar e precaver.
A coragem para enfrentar e combater.
O sucesso para alcançar e engrandecer.
O otimismo para elevar e transparecer.
A fé para acreditar e permanecer.
O sonho para determinar e percorrer.
A saudade para lembrar e não perder.
O amor para cativar e bem querer.
A amizade para emanar e florescer.
E um tudo de melhor para viver...".

São meus desejos para vc!!

''Blindados'' por amigos e familiares, estudantes de medicina se formam na UEL

"Blindados" por familiares e pelos colegas do curso, os 14 estudantes de medicina da UEL (Universidade Estadual de Londrina) que haviam sido suspensos após promoverem uma farra no hospital universitário se formaram nesta sexta-feira em uma cerimônia rápida, que terminou com gritos de protesto.
Antes mesmo do ingresso dos estudantes no anfiteatro do Hospital Universitário, onde ocorreu a diplomação, a preocupação em "blindar" os formandos era evidente.
A coordenadora do Colegiado de Medicina, Evelin Muraguchi, se desculpava com amigos e parentes dos estudantes pela presença da imprensa. "É um cerimônia pública. Vamos tentar que seja a mais indolor possível'', dizia aos estudantes.
Outra estratégia, que foi defendida por um dos 14 alunos suspensos, foi a de que a beca não fosse usada na formatura, já que os alunos que haviam se formado uma semana antes não estavam com suas becas. A maioria dos 82 formados no dia 12 compareceu ao ato em solidariedade aos 14 formandos.
A cerimônia de formatura durou menos de 15 minutos. No momento do juramento, parentes, amigos e estudantes já diplomados se levantaram junto com os 14 formandos na tentativa de evitar que os punidos pela reitoria fossem identificados pelos jornalistas.
Na entrega dos diplomas, um médico, não identificado, chamou parentes e amigos para uma aglomeração. "Vamos embolar. Todo mundo embola junto", gritava. Outros parentes se colocavam na frente das câmeras dos cinegrafistas para impedir imagens.
Constrangido com o comportamento dos formandos e dos familiares, o reitor Wilmar Marçal encerrou o ato na entrega dos diplomas. A turma de formandos resolveu comemorar aos gritos de "justiça".
A comemoração irritou o reitor. "Houve justiça na ótica deles, mas não na da sociedade que condenou e condena atitudes desse tipo", disse Marçal.
O reitor afirmou que a decisão do juiz Mário Nini Azzolini, da 5ª Vara Cível, de permitir a colação acabou com o processo administrativo disciplinar contra os estudantes. "Mas que os 14 identificados fiquem alertas. Se ingressarem em residência médica ou em pós-graduação na UEL, os processos serão automaticamente reabertos."
Marçal aumentou o tom de voz ao falar com a imprensa para ser ouvido pelos estudantes --reunidos em um canto do anfiteatro com amigos e parentes. Ele reiterou que ainda há um boletim circunstanciado registrado pelo diretor-clínico do Hospital Universitário, Marcos Camargo, na Polícia Civil.
"Acabou o processo administrativo, mas a queixa na Polícia pode virar inquérito policial. Espero que a vida os ensine a serem profissionais. Espero também que eles reflitam sobre o que fizeram. Falta ainda o arrependimento público e o pedido de perdão aos pacientes do HU, coisa que nenhum deles ainda fez", disse Marçal.
No dia 20 de novembro, para comemorar o fim do curso, um grupo de estudantes invadiu o saguão do HU. Com rojões, sprays de espuma e bebidas alcóolicas, os alunos causaram pânico no local. No fim, 14 foram identificados por câmeras do hospital.
Marçal disse que uma auditoria interna, determinada por ele, irá investigar denúncias contra professores do curso de medicina por deixarem internos sob supervisão de médicos residentes. "Mas a auditoria vai investigar também o corporativismo de profissionais que passam a mão na cabeça quando devem punir."
Nenhum dos formandos quis falar com a reportagem.
JOSÉ MASCHIO
da Agência Folha, em Londrina

Vinte anos sem Chico Mendes:

Há exatos vinte anos, ou seja, em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado a tiros por fazendeiros da região por defender os povos da floresta. Chico Mendes era mais do que um ecologista, ele via a luta dos trabalhadores e a luta por um desenvolvimento sustentável como lutas indissociáveis para a libertação do homem da selva.

Fica aqui a sua mensagem a juventude, escrita por ele poucos dias antes de morrer:

“ Atenção jovem do futuro;

6 de setembro de 2120, aniversário ou 1º centenário da revolução socialista mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista, e pos fim a todos os inimigos da nova sociedade.

Aqui ficou somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte.

Desculpem.

Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos, que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado.

Chico Mendes ”.

dezembro 20, 2008

Do socialismo científico ao socialismo utópico

Sob os escombros do socialismo ainda jaz a única esperança para que a humanidade não se destrua. O que jaz sob esses escombros é, sobretudo, a mensagem ética da construção de uma melhor página para a história humana, com suas contradições e limites.

“O Capital”, de Karl Marx, compartilha com a Bíblia, além de questões de estilo, editoração, exegeses interpretativas e até propósitos, um destino peculiar: é livro muito citado e pouco lido. Os da minha geração que começamos a sua leitura fomos muito poucos; os que, além disso, passamos do primeiro volume, menos ainda. Explica-se: o primeiro livro foi o único de fato aprontado e revisto pelo próprio Marx. Os outros foram publicados postumamente. Apesar do nobre esforço editorial de Engels, os livros posteriores ao primeiro são mais descosidos e de leitura mais árdua.

O nosso catecismo doutrinário, o nosso Vade-Mecum, foi o pequeno livro de Engels, “Do socialismo utópico ao socialismo científico”. Ele era um excerto de outro, o Anti-Dühring, mas continha informação suficiente para dele se extrair uma visão geral do processo histórico de formação do proletariado e da burguesia da Europa, de como se chegou às grandes revoltas operárias do século XIX, e de como se forjaram as propostas do socialismo marxista.

Tínhamos uma tendência a ler tudo em preto e branco, e com um mínimo de nuances. Assim fizemos uma leitura algo positivista (na melhor tradição brasileira) do livro. Esse modo de lê-lo começava por tomar suas descrições como a da linha civilizatória por excelência. A formação da moderna luta de classes na Europa era “a” formação histórica por excelência, algo assim como na nossa infância, ao brincarmos com aqueles tijolinhos coloridos com que montávamos um burgo de aspecto europeu e medieval, construíamos sem querer nas nossas almas um modelo ideal de cidade. Durante muito tempo tudo o mais em estilo urbano nos pareceria necessariamente um desalinho do modelo original. Estendendo a metáfora, podemos entender por que até hoje existe uma resistência muito grande, tanto aí como aqui, na Europa, a aceitar o atual processo latino-americano como algo de fato original que está levantando desafios e propostas não previstos nos modelos originais.

O segundo passo daquela leitura era o de fazermos uma leitura, por assim dizer, em linha reta. Víamos o livro apenas a partir de seu ponto de chegada, a inevitabilidade do processo histórico que levava à grande revolução proletária e à liderança pelo socialismo que (até de um modo um tanto positivista...) reivindicava sua própria cientificidade. Tudo o mais que o livro continha era levado de roldão por esse verdadeiro turbilhão da história, nele se dissolvendo como uma espécie de bagaço cujo sumo fora entregue para a nova garapa de onde sairia o melaço que, fermentado e destilado, daria origem à nova sociedade. Literalmente nos embriagamos com tais visões; os mais ousados, os mais generosos até, chegaram a ofertar suas vidas nessa espécie de embriaguez coletiva, uma vez que tudo era inevitável, e apocalipticamente a história socialista nos redimiria.

Foi um porre. Generoso, inesquecível, quem nele bebeu jamais se esquecerá. Mas foi um, afinal, um porre, de onde muitos, na ressaca, saíram arrependidos pela culatra de suas armas mentais, aderindo ao vai-da-valsa que se instalou quando o socialismo desabou no mundo inteiro, exceto em Cuba e em muitos corações e mentes sobreviventes.

Naquela leitura em que se via a história como um ciclone que tudo arrebatava e redimia, nos escaparam (a mim pelo menos) certas finuras do texto do Engels em que, revisitado anos depois, rebrilham com intenso e inusitado fulgor.

Assim em toda a primeira parte do texto, que líamos apenas como a cabal demonstração da pobre insuficiência dos proclamados “utópicos”, refulge hoje a comovente homenagem ética que Engels faz a Robert Owen, Charles Fourier e ao Conde Saint-Simon. Querendo demonstrar que eles não tinham condições materiais ou espirituais para imaginar a cientificidade do socialismo, Engels põe em destaque as extraordinárias pilastras éticas que levaram esses “precursores do marxismo” a enveredar pelos caminhos que escolheram, movidos pela generosidade, pelo espírito cívico, por acreditar de fato nos valores levantados pelas grandes revoluções européias dos séculos XVII e XVIII como patrimônio da humanidade, e não apenas como arrimo do assalto ao poder por uma determinada classe emergente, a burguesa.

Essa releitura hoje é obrigatória, tanto quanto a outra o era 40 ou 50 anos atrás. A cientificidade de índole positivista, grudada no marxismo como chicle na sola do sapato, caiu, junto com a inevitabilidade do rumo socialista. Derrubou-a não só a queda do Muro de Berlim e o desmembramento da União Soviética. Derrubou-a também a falência interna do mundo comunista na construção daquilo que seria a sua quintessência: o novo homem, o homem do futuro. O socialismo de resultados que emergiu da práxis do socialismo científico pariu ratos que hoje devoram, como máfias organizadas, o que restou entre os escombros dos sonhos mais generosos que a humanidade já ergueu e destruiu. Deu muita outra coisa também, é certo, pois sem aquele socialismo o nazi-fascismo não teria sido derrotado, e isso é apenas um exemplo. Sem sua alavanca Cuba não existiria, nem o povo vietnamita teria derrotado a maior potência imperial do mundo.

Mas hoje, a partir do arraso que contemplamos, aqueles primeiros “socialistas utópicos” nos lembram do compromisso ético (que Marx, Engels e tantos outros tinham) indispensável na construção de qualquer nova proposta socialista. Não se trata apenas de uma ética ou de uma questão acadêmicas. Olhemos para os horizontes. Que compromisso ético tinham os jovens que invadiram Mumbai na Índia, atirando a esmo?

Em que eles se diferenciam, do ponto de vista ético, dos adoradores do Mercado? É difícil dizer. Parece que nessa vala comum da destruição da política o único compromisso ético que interessa é aquele com a própria corporação. Na neblina contemporânea é difícil ver além do próprio nariz? Então façamos dele nosso farol, limite e também baluarte ético.

Como se posicionar diante dos acontecimentos na Tailândia, em que grupos se digladiavam misturando posições de um governo corrupto, de um exército que só não assalta de novo o poder porque caiu em descrédito e agentes avançados de um líder midiático, em cujas hostes pululavam desde reivindicações de puros favores pessoais até saudades da fanada monarquia?

A lista de perplexidades é longa, enquanto o tirocínio disponível é curto. É verdade que sob os escombros do socialismo ainda jaz a única esperança para que a humanidade não se destrua, como atesta a presente crise financeira que, mutatis mutandis ao revés, está prevista nas páginas do nosso opúsculo preferido, “Do socialismo utópico ao socialismo científico”. Mas o que jaz sob esses escombros é, sobretudo, a mensagem ética da construção de uma melhor página para a história humana, com suas contradições e limites. Por isso, fica o convite para se reler o livro de Engels, mas de fato dialeticamente, isto é de trás para diante mas também de diante para trás, para que nas contradições que o socialismo científico nos deixou como legado possamos encontrar o perdido, mas não desaparecido, veio da utopia socialista.

Renda básica universal é direito a escolher própria forma de vida

A concepção republicana de liberdade é muito exigente. Liberdade e igualdade são dois fatores indissociáveis. Hoje, grandes fortunas convivem com milhões de miseráveis. As desigualdades sociais são causa da falta de liberdade para milhões de pessoas. A proposta de uma renda básica universal não se reduz à invocação de um direito humano a uma subsistência mínima. Ela se baseia numa concepção de justiça que assegure a cada pessoa não apenas a possibilidade de consumir, mas também de escolher sua forma de vida.

A existência material garantida como condição de liberdade ou a justificação republicana (7)

Muitas são as diferenças que os autores republicanos – desde Aristóteles a Robespierre, desde Cícero a Marx, desde Marsilio de Padua a Adam Smith, desde Maquiavel a Kant (8) – apresentam entre si. Sejam quais forem as diferenças, todos eles compartilham ao menos duas convicções:

Ser livre significa não depender de outro particular para viver, não ser arbitrariamente violado por esse outro particular; quem depende de outro para viver não é livre. Quem não tem assegurado o “direito à existência” por carecer de propriedade não é sujeito de direito próprio – sui iuris -, vive à mercê dos outros e não é capaz de cultivar – e menos ainda de exercitar – a virtude cidadã; e o é assim porque esta dependência com respeito a outro particular o converte num sujeito de direito alheio, um alieni iuris, um “alienado”.

A liberdade republicana pode alcançar a muitos (democracia plebéia, como defendem os republicanos democráticos) ou a poucos (oligarquia plutocrática como defenderam os republicanos oligárquicos), mas sempre está fundada na propriedade e na independência material que dela deriva. E esta liberdade não poderia se manter se a propriedade estivesse tão desigual e polarizadamente distribuída, de modo que uns poucos particulares pudessem desafiar a república e lutar com êxito contra a cidadania para impor sua concepção de bem público. Quando a propriedade está distribuída muito desigualmente, há pouco espaço, se há algum, para a liberdade do resto, dos que estão dela privados.

A independência, a existência material, a base autônoma (aqui, expressões perfeitamente permutáveis) que a propriedade confere é condição indispensável para o exercício da liberdade. Recordemos que imediatamente depois de declarar, no artigo 17.1 que “toda pessoa tem direito à propriedade individual e coletivamente”, o artigo 17.2 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 diz: “Ninguém será privado arbitrariamente de sua propriedade”. Também o artigo 17 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 dizia de forma meridiana: “Sendo a propriedade um direito inviolável e sagrado, ninguém pode ser dela privado, salvo quando a necessidade pública legalmente comprovada o exija de modo evidente, e sob a condição de uma justa e prévia indenização”. Aqui são decisivas as palavras “quando a necessidade pública legalmente comprovada o exija de modo evidente(9).

Também a Constituição vigente do Reino de Espanha diz em seu artigo 33 de forma bastante similar: “1. Reconhece-se o direito à propriedade privada e à herança. 2. A função social desses direitos delimitará seu conteúdo, de acordo com as leis. 3. Ninguém poderá ser privado de seus bens e direitos, senão por causa justificada de utilidade pública ou interesse social, mediante a correspondente indenização e em conformidade com o disposto nas leis”. Partindo de pontos parecidos, alguns defensores republicanos da renda básica sugeriram a idéia de “universalizar a propriedade”. Universalizar a propriedade deve entender-se de forma metafórica. Não se trata literalmente de repartir a propriedade de um dado país, ou do mundo, entre os habitantes do país em questão, no primeiro caso, ou do mundo inteiro, no segundo. Universalizar a propriedade deve ser entendido aqui de forma equivalente a garantir a todos a existência material.

A instauração de uma renda básica suporia uma independência socioeconômica, uma base autônoma de existência muito maior que a atual para boa parte da cidadania, sobretudo para os setores mais vulneráveis da cidadania e mais dominados nas sociedades atuais (boa parte dos trabalhadores assalariados, pobres em geral, desempregados, mulheres, etc.). Em resumo, a introdução de uma renda básica faria com que a liberdade republicana, para alguns grupos de vulnerabilidade, vissem suas possibilidades alargadas. Vejamos isso mais de perto. Por grupo de vulnerabilidade aqui se vai entender aquele conjunto de pessoas que têm em comum serem suscetíveis à interferência arbitrária por parte de outros conjuntos de pessoas ou de alguma pessoa em particular.

da Carta Capital.

A análise é de Daniel Raventós.

dezembro 16, 2008

"Banco Central é um banco. Devia prover o crédito; não agir como governo paralelo"

Para o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor do Instituto de Economia da Unicamp, recusa do Banco Central em baixar os juros é a "reafirmação algo infantilizada de um princípio de independência que não hesita em colocar suas supostas prerrogativas à frente das prioridades da economia nacional num momento grave como esse". O BC, acrescenta, deveria ter uma ação enérgica para prover o crédito e impedir a passagem da crise financeira para uma crise da economia real.

Crise ataca país de forma inesperada: mas saída de capitais era previsível

Realmente drástica é a reversão no fluxo dos chamados investimentos em carteira, capital para especulação na bolsa de valores ou para aproveitamento dos juros mantidos excepcionalmente altos pelo Banco Central. Neste caso, saímos de um superávit US$ 41 bilhões, de janeiro a outubro de 2007, para um déficit de US$ 7,5 bilhões no mesmo período de 2008.
A análise é de Fernando J. Cardim de Carvalho.

dezembro 13, 2008

Nathalie Cardone - Hasta Siempre (Che Guevara)

Memória do PCdoB‏

A história do Partido Comunista do Brasil ainda está para ser escrita. As dificuldades desta empreitada sempre estiveram ligadas ao longo período de repressão a que fomos submetidos. Repressão que atingiu este partido de maneira particularmente dura. Seus dirigentes e militantes foram obrigados a viverem longos períodos na mais dura clandestinidade. Periodicamente se viam na contingência de destruir livros e documentos - e os órgãos de repressão cuidavam de roubar e destruir o que, por ventura, tivesse ainda sobrado.
Assim, desapareceram pedaços importantes do nosso passado. Uma situação bastante diferente da existente na maioria dos países da Europa, no qual os partidos comunistas conheceram largos períodos de legalidade, pelo menos desde 1945.
Entre outras coisas, a ditadura militar foi responsável por um atentado monstruoso à memória do movimento social brasileiro que nenhuma anistia será capaz de restituir plenamente. Por tudo isso, urge que as organizações interessadas no resgate e na conservação da memória da luta do nosso povo se apressem na coleta, organização e divulgação destas informações que, em grande parte, ainda se encontram nas mãos e na memória dos velhos militantes.
No início do ano de 1972, quando da passagem de meio século da fundação do Partido Comunista do Brasil, João Amazonas e Maurício Grabóis escreveram o importante documento – “50 anos de Lutas”. Redigiram-no em condições de trabalho extremamente difíceis, em plena selva do Araguaia, utilizando-se da própria memória. O texto foi levado para São Paulo e aprovado numa reunião clandestina do Comitê Central. Neste mesmo momento iniciava-se a resistência guerrilheira no Araguaia e uma violenta repressão se desencadeou sobre o PCdoB. Quase uma centena de dirigentes e militantes foi assassinada nas cidades e no campo.
No interior do outro Partido Comunista (o brasileiro) foi também ganhando força a idéia de que era necessário escrever uma história do Partido Comunista. No entanto, ele teve as mesmas dificuldades que o seu co-irmão. A situação brasileira, sob uma ditadura feroz, não oferecia condição alguma para a realização vitoriosa dessa tarefa.
O historiador Nelson Werneck Sodré, então militante do PCB, escreveu: “os que viveram aquela fase tenebrosa devem recordar que entre as providências mais urgentes das pessoas passíveis de incorrer nas iras da ditadura estava a da destruição de tudo o que fosse passível de ser apresentado como ‘material subversivo’. Isso incluía, evidentemente, livros, jornais, revistas, para não falar em documentos. Bibliotecas inteiras foram destruídas por seus possuidores”. Outra dificuldade, relatada por Sodré, era que “toda e qualquer pesquisa relacionada ao tema, a reunião de pessoas para discuti-lo e repartir tarefas, apresentava o risco de ser considerada conspirativa”.
Diante de tantas dificuldades o projeto de construção das histórias dos partidos comunistas teve que ser congelado. “Tornou-se claro, continuou Sodré, que uma história do PCB só poderia ser elaborada quando vigorasse no país um regime autenticamente democrático. Naqueles dias do jubileu, entretanto, o que se pedia era o possível: um balanço histórico, mais analítico que descritivo”. Esta foi a mesma saída encontrada pelo PCdoB na ocasião.
Mesmo após o início da “abertura política” dos generais Geisel e Figueiredo, as estripulias da polícia política e dos terroristas de direita não pararam. Eles continuaram apreendendo e destruindo parte importante dos arquivos ainda existentes. Lembramos apenas da Chacina da Lapa em dezembro de 1976 e o atentado terrorista à sede do jornal Tribuna da Luta Operária, ocorrido nas vésperas da votação das diretas já. Devido a ele perdeu-se um acervo importantíssimo, especialmente de fotos da fase semi-clandestina (pós-1979), que deixou um rombo na memória visual do PCdoB.
Infelizmente, mesmo nos anos que se seguiram ao fim da ditadura, os próprios partidos comunistas fizeram poucos esforços para preservar a sua própria história – montar arquivos adequados e gravar depoimentos de seus antigos militantes. Naquela fase, outras tarefas se faziam mais urgentes.
No entanto, existiram alguns esforços memoráveis para preservar a memória dos comunistas brasileiros. Um deles foi a operação montada por militantes do antigo PCB – como José Salles, Marly Vianna, Zuleide Faria Melo, Dora Henrique da Costa e José Luís Del Roio – para salvar parte do riquíssimo arquivo de Astrojildo Pereira que estava sendo ameaçado pela ditadura militar e conserva-lo em local seguro. O material foi enviado clandestinamente para a Europa na segunda metade da década de 1970 e passou a compor o Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro da Fundação Giangiacomo Feltrinelli de Milão. Mais tarde voltaria ao Brasil e seria alojado na UNESP.
Estas tentativas de preservar e divulgar a sua história estavam ligadas à luta que se travava no país pela direção política do movimento democrático e popular nos estertores da ditadura militar. O PCB era criticado duramente pelo PCdoB – que se dizia o verdadeiro herdeiro de 1922 –, pelas dissidências armadas e, depois, pelo PT. Este último partido, por sua vez, fez todos os esforços para impor a falsa idéia de que a luta operária autêntica começou no ABC paulista entre 1978-1979. Todas estas organizações sabiam que a luta pela memória também fazia parte da sua luta pela hegemonia.
O PCdoB e sua memória
Por decisão do 9º Congresso do PCdoB, realizado em 1997, foi criada um comissão específica para a redação da História do Partido Comunista do Brasil. Esta comissão realizou coisas importantes como as entrevistas com João Amazonas – que trouxeram importantes subsídios para a construção da história do Partido e a de seu principal dirigente –, um seminário nacional sobre o a história do PCdoB e a produção de uma série de artigos autorais que foram publicados na revista Princípios e que agora sairão na forma de um livro. Outro resultado foi a publicação de uma coletânea com os principais documentos partidários, elaborados entre 1961 e 2002. Todo este esforço contribuiu para elaboração do sintético documento “80 anos do Partido Comunista do Brasil”, aprovado em 2002 pelo Comitê Central.
O trabalho realizado foi importante, mas ainda bastante insuficiente. O conjunto das direções e os militantes não se conscientizaram para a necessidade da preservação da memória comunista. Os arquivos partidários continuaram desorganizados, quando não eram destruídos graças à falta de cuidado. Antigos militantes – que foram importantes na nossa história – são relegados ao descaso.
Visando superar estas lacunas, a direção nacional do PCdoB resolveu constituir um Centro de Memória e Documentação que funcionará na nova sede nacional e estará vinculado a Fundação Maurício Grabois. Ele comportará uma biblioteca especializada em história do Partido, coleções de periódicos comunistas (revistas teóricas como Problemas e Princípios, jornais como A Classe Operária e Tribuna da Luta Operária etc.); documentos produzidos pelo Comitê Central e demais comitês partidários; vídeos (programas institucionais, filmes e documentários); as transcrições de entrevistas realizadas com antigos militantes; fotos e cartazes, selos, crachás, broches etc. O Centro será aberto ao público em geral, especialmente aos pesquisadores.
Num primeiro momento, ele voltará suas atenções para coletar e organizar o acervo relativo ao período posterior à crise do PC do Brasil em 1956, que levou a cisão definitiva do movimento comunista brasileiro. A principal razão para esta opção é que já existem bons acervos sobre a história do Partido Comunista nas décadas de 1920, 1930, 1940 e 1950 tanto no Cedem-Unesp como no AEL-Unicamp.
Assim, O Centro de Documentação e Memória se constituiria numa espécie de centro de referência para a história do PC do Brasil desde o final dos anos 1950 até a atualidade. Isto é claro, sem abrir mão de se estar recebendo documentos de um período anterior da história do Partido. Ele estabelecerá convênios com outras instituições de pesquisa visando ter a melhor orientação técnica, a troca de experiências, reprodução e intercâmbio quanto aos acervos, além de realizar atividades conjuntas de estudo e divulgação da história do PC do Brasil..
Sua existência criará melhores condições para o desenvolvimento de uma consciência e um movimento preservacionista no interior do Partido, incentivando que os comitês municipais e estaduais estabeleçam projetos próprios de conservação e divulgação da memória em suas localidades. Isso cumprirá um importante papel na formação ideológica dos militantes e das direções de base. Ela incentivará que os estudantes comunistas e simpatizantes, especialmente nas áreas de ciências humanas, se dediquem à pesquisa sobre a história do Partido e a realidade brasileira.
Por fim, para darmos conta dessas tarefas devemos criar uma comissão especial ligada ao Centro de Memória e Documentação e que deverá ser composta por pesquisadores do PCdoB e não vinculados a ele. Caberá a esta comissão detalhar o funcionamento do Centro e desenvolver, entre outras coisas, projetos de coleta de documentos e de depoimentos a partir das prioridades estabelecidas. Ela será um núcleo permanente de discussão e divulgação de assuntos relativos à história do Partido Comunista no Brasil. Para isso se utilizará de meios variados, como seminários, debates, palestras e publicações.
Preservar a divulgar a história dos comunistas brasileiros é defender o direito à memória de parte importante dos melhores lutadores do nosso povo ao longo do século 20 e neste início de século 21. É necessário, como diz a canção, “entrelaçar a bandeira vermelha do socialismo com a bandeira verde-amarela da emancipação nacional”.
Augusto Buonicore, historiador, é membro do Comitê Central do PCdoB.

Gastos para combater crise já passam de R$ 250 bilhões no Brasil

FABRÍCIA PEIXOTO
da BBC Brasil, em Brasília
A equipe econômica anunciou nesta quinta-feira uma série de medidas de combate à crise que vão afetar diretamente o caixa do governo brasileiro. A estimativa é de que o país deixe de arrecadar R$ 9 bilhões.
Com isso, o volume de recursos mobilizados no combate à crise no Brasil já ultrapassa R$ 250 bilhões. O montante foi colocado à disposição do mercado por meio de linhas de crédito, liberação do compulsório e incentivos fiscais. Nem todo esse dinheiro, porém, foi efetivamente utilizado.
10 questões para entender o tremor na economia
Entenda a evolução da crise que atinge a economia dos EUA
Veja as medidas do pacote anticrise do governo federal
A maior parte desse valor --cerca de R$ 135 bilhões-- foi colocada à disposição por meio da liberação do compulsório (dinheiro dos bancos que fica retido pelo Banco Central). Outra medida que envolveu uma soma significativa foi a regra que possibilitou a troca de moedas entre o Banco Central brasileiro e o americano (Fed), em um valor equivalente a R$ 72 bilhões.
As linhas de crédito liberadas pelo BNDES e pelo Banco do Brasil para empresas exportadoras e para produtores agrícolas somaram R$ 30 bilhões. Outras medidas perfazem mais R$ 15,8 bilhões.
Tamanho do problema
As medidas anunciadas nesta quinta-feira, no entanto, têm uma característica diferente, de acordo com o economista Cláudio Gonçalves, do Corecon-SP. "É dinheiro que sai do bolso do governo diretamente para a classe média", diz.
Entre as medidas anunciadas estão mudanças nas alíquotas do Imposto de Renda e descontos no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na compra de carros novos. Além disso, o Banco Central está autorizado a usar parte das reservas internacionais para financiar empresas brasileiras no exterior.
Para Gonçalves, o pacote coloca o Brasil em uma nova fase do combate à crise. "Agora, de fato, o governo está começando a enxergar o tamanho do problema", diz.
Segundo ele, o foco até então vinha sendo a liquidez do mercado, ou seja, a falta de recursos para financiamentos, sobretudo para as empresas..
Com o agravamento da crise e os sinais de desaquecimento no consumo, o governo brasileiro partiu para uma nova etapa. "Faltava o governo abrir mão de receita, o que está sendo feito agora", diz.
Mundo
As principais economias do mundo vêm adotando pacotes para amenizar os impactos da crise. Nos países ricos, o foco tem sido a ajuda direta a instituições financeiras e o estímulo ao consumo.
Nos Estados Unidos, epicentro da crise, a estimativa é de que já tenham sido colocados à disposição do mercado cerca de US$ 7,3 trilhões. O cálculo é da rede de TV americana, CNBC.
O Reino Unido anunciou um plano de resgate a instituições financeiras no valor de US$ 75 bilhões, além de outros US$ 300 bilhões em linhas de crédito para empresas. Mais recentemente, o país concedeu descontos em impostos no valor de US$ 30 bilhões.
No Japão, estima-se que as medidas anticrise já tenham mobilizado US$ 275 bilhões. Entre elas está a concessão de "mesadas" a famílias com no mínimo quatro pessoas, somando US$ 2 bilhões.
Conta-gotas
No Brasil, o governo não precisou ajudar ou recuperar instituições financeiras à beira da falência. No país, as conseqüências da crise ficaram mais evidentes na falta de recursos para financiamentos às empresas e no encarecimento do crédito. Por isso as medidas tinham como foco a injeção de liquidez no sistema financeiro.
O economista da PUC-SP, Antônio Correa de Lacerda, diz que as medidas anunciadas nesta quinta-feira pelo governo brasileiro "chegam atrasadas".
"O grande desafio dos governos nesse momento é agir antecipadamente, ajustando a embarcação aos novos mares", diz.
Segundo ele, enquanto a maioria dos países demonstra um esforço em estimular o consumo, no Brasil a política macroeconômica "não foi ajustada para lidar com a crise".
"As medidas têm sido tímidas. A política monetária, por exemplo, com juros altos, não colabora".
De acordo com Lacerda, o governo tem margem para fazer uma renúncia fiscal mais agressiva. "É melhor abrir mão de alguma receita agora do que perder tudo lá na frente", diz.
Já o economista do Corecon, Cláudio Gonçalves, diz que o governo brasileiro vem adotando as medidas no tempo certo. "O governo tem demonstrado prudência ao tomar iniciativas de acordo com cada estágio da crise", diz.
De acordo com Gonçalves, a carga tributária brasileira é muito complexa, o que dificulta a decisão por uma renúncia fiscal. "Até temos certa gordura para gastar, mas isso tem que ser muito bem costurado", diz..
Além disso, diz, o Brasil tem um histórico "ruim" de mudanças nas regras do jogo e só recentemente conquistou a confiança do mercado. "No nosso caso, é melhor uma política mais conservadora, a conta-gotas", diz.

dezembro 11, 2008

A batalha que incendiou o Oriente Médio

Quarenta anos depois, um retorno “Guerra dos Seis Dias” revela: o conflito que envenenou as relações entre Israel e Palestina não teve como origem a disputa entre os dois povos. Seria um sinal de que a paz é possível?

Henry Laurens

No início de 1967, observadores e alguns "experts" – categoria tão mal definida... – não previam um maior risco de retomada de um conflito armado entre árabes e israelenses. Era sabido que, desde 1964, a tensão não cessara de crescer em razão do "desvio" do rio Jordão por Israel e do "contra-desvio" de seus afluentes para a Síria, teoricamente apoiada pelo Líbano e pela Jordânia. Mas esses países haviam se limitado a fornecer um apoio verbal, e os bombardeios israelenses obrigaram Damasco a suspender o início das obras.

Era verdade, também, que a República Árabe Unida (RAU) [1] de Gamal Abdel Nasser e Israel dedicavam-se a uma corrida armamentista que pesava consideravelmente sobre suas economias. Mas tudo levava a crer que os israelenses superestimavam publicamente a ameaça egípcia, com o intuito de obter suas primeiras remessas importantes de material de guerra norte-americano e uma garantia de segurança, em caso de ataque árabe.

A evidente superioridade militar de Israel e a divisão reinante no mundo árabe, em plena guerra fria, entre "progressistas" e "conservadores" (reacionários, segundo os progressistas), levam os "experts" a julgar que, segundo a fórmula consagrada, se a paz era impossível, a guerra parecia improvável.

texto completo em: http://diplo.uol.com.br/2007-06,a1589


Assim se colonizou a África negra

No século 16, as invasões portuguesa e marroquina iniciaram a desestruturação dos reinos e impérios ao sul do Saara — onde havia cidades de mais de 100 mil habitantes. Após três séculos de guerras, e escravidão ocidental e árabe, a população estaria reduzida a um quarto da original e as sociedades, arrasadas

Louise Marie Diop-Maes

No século 16, na maior parte das regiões da África subsaariana, existiam cidades de tamanho considerável para a época (de 60 mil a 140 mil habitantes ou mais), aldeias grandes (de mil a 10 mil habitantes), parte de reinos e impérios notavelmente organizados, territórios de habitat disperso denso. É isso que revelam os vestígios e escavações arqueológicas, bem como as fontes escritas, tanto externas (árabes e européias, anteriores a meados do século 17) como internas (autóctones, escritas em árabe, língua da religião, ou no latim da Europa). A agricultura, criação de animais, caça, pesca, artesanato muito diversificado (tecidos, metais, cerâmica etc.), navegação fluvial e lacustre, comércio local e distante, com moedas específicas, eram bem desenvolvidos e ativos.

O nível intelectual e espiritual era análogo ao do Norte da África na mesma época. O grande viajante árabe do século 14, Ibn Battuta, louva a segurança e a justiça encontrada no império do Mali. Antes da utilização de armas de fogo, o comércio árabe permanecia secundário em relação à atividade econômica e ao volume da população. Leão, o Africano (início do século 16), menciona que o rei de Bornu (região chadiana) organizava apenas uma expedição por ano para capturar escravos [1].

A partir do século 16, a situação modifica-se radicalmente. Os portugueses penetram ao sul da foz do rio Congo, conquistam Angola, destróem os principais portos da costa oriental e alcançam o atual território de Moçambique. Os marroquinos atacam o império songai, que resiste durante nove anos. Os agressores dispõem de armas de fogo; os subsaarianos, não. Milhares de habitantes são mortos ou capturados e condenados à escravidão. Os vencedores se apossam de tudo: homens, animais, provisões, objetos preciosos e o que mais possam pegar.

Reinos e impérios são pulverizados em principados — levados a guerrear com freqüência cada vez maior, a fim de ter prisioneiros que possam ser trocados, principalmente por fuzis, indispensáveis na defesa e no ataque. Populações são deslocadas — provocando novos choques, campos de refugiados, a propagação de um estado de guerra latente até o coração do continente. As investidas militares multiplicam-se, ao ponto de atingir, no nordeste da África Central do início do século 19, o número de 80 por ano, segundo o erudito tunisiano Mohamed el Tounsy, que viajou por Darfur e Ouaddaï (atual Chade) nessa época [2]. A porcentagem de cativos em relação ao conjunto da população aumenta continuamente, entre o século 17 e o fim do 19. “Distritos outrora densamente povoados foram reconquistados pelo mato” ou pela floresta [3].

texto completo em: http://diplo.uol.com.br/2007-11,a1992.


Palestina: catorze anos de trágica divisão

Marwan Bishara

Os palestinos nunca estiveram tão divididos e fracos como após os combates fratricidas do último verão em Gaza. Os conflitos internos minam a solidariedade internacional, reduzem a pressão sobre os ocupantes israelenses e transformam os territórios palestinos em um barril de pólvora capaz de explodir a qualquer momento.

O Hamas acusa o Fatah de ter conspirado contra seu governo, às vezes com a cumplicidade de Israel. O Fatah denuncia a incapacidade do partido islâmico de governar eficazmente e seu “golpe violento”, de junho de 2007, contra a presidência e a Constituição. Os independentes criticam os dois movimentos por colocarem seus interesses de facção acima do interesse nacional.

Pouco depois da assinatura dos acordos de Oslo, em 1993, fui testemunha de acusações recíprocas durante uma mesa-redonda sobre o futuro da Palestina, da qual tomava parte um número significativo de dirigentes e militantes da Intifada. Para minha surpresa, o espírito de camaradagem e união que reinou ao longo das primeiras horas deu lugar a uma confrontação verbal a partir do momento em que os anfitriões anunciaram que os soldados israelenses havia evacuado a base e que o toque de recolher seria suspenso naquela mesma noite.

Os líderes do Fatah ameaçaram quem quer que criasse obstáculos para sua tentativa de transformar um processo de paz, cujas imperfeições reconheciam, no processo de construção de um Estado. Os representantes do Hamas, por sua vez, exprimiam suas dúvidas e desconfianças em relação a uma via diplomática injusta cujo futuro era, de saída, pouco promissor.

Ainda que todos esses argumentos tivessem sua parcela de verdade, o Fatah e o Hamas, como o restante do povo palestino, foram desde o início, mais do que ninguém, as vítimas de um acordo que prometia liberdade e união, mas que gerou desesperança e divisão, ao encerrá-los em uma política de soma zero, na qual o sucesso de uma facção depende do fracasso da outra.

texto completo em http://diplo.uol.com.br/2007-11,a1996

dezembro 09, 2008

Grécia: Os maiores protestos sociais dos últimos 20 anos

Por Redação [Segunda-Feira, 8 de Dezembro de 2008 às 17:28hs], Revista Fórum

Na sequência da morte de um jovem de 15 anos, assassinado pela polícia, estão a verificar-se na Grécia os maiores protestos sociais dos últimos 20 anos. Sábado e Domingo grupos de jovens manifestaram-se em revolta contra a polícia, que intervém violentamente.

Nesta segunda - feira, 8, aconteceram diversas manifestações, os professores universitários convocaram greve de três dias e na quarta-feira, 10, está convocado pelos sindicatos uma greve geral.

O assassinato a tiro pela polícia do jovem Andréas Grigoropoulos de 15 anos provocou uma imensa revolta juvenil na Grécia.

Durante o fim de semana jovens enfrentaram a polícia, que intervém sempre violentamente, queimaram carros e partiram montras de lojas. A juventude do Siriza, coligação de partidos de esquerda, denuncia que: "Durante anos a policia grega foi deixada sem qualquer regulamentação e controle apesar das inúmeras acusações de detenção e tortura de jovens, trabalhadores e imigrantes".

Nesta segunda, 8, aconteceram diversas manifestações nas cidades gregas, convocadas por partidos de esquerda. Os professores universitários convocaram uma greve de três dias para protestar contra as circunstâncias da morte do jovem assassinado pela polícia. 15 pessoas ocuparam o consulado grego em Berlim e colocaram uma faixa com a frase "O Estado assassina".

Toda a oposição critica e denuncia o governo pela responsabilidade no assassinato do jovem e pela política que tem agravado as desigualdades sociais. As sondagens apontam que se houvessem eleições neste momento, o partido do governo, Nova Democracia - direita, teria apenas cerca de 20%.

A inteligência militar do Paquistão é o Cavalo de Tróia dos EUA

Os media apontam, em coro, para o envolvimento da inteligência militar do Paquistão, o Inter Services Intelligence (ISI), mas não dizem que o ISI opera sempre em estreita ligação com a CIA.

Os media estado-unidenses servem permanentemente os interesses do aparelho de inteligência dos EUA. As implicações dos seus relatos distorcidos são que:

1- Os terroristas são ligadas a Al Qaeda. Os ataques de Mumbai são uma operação "patrocinada pelo Estado" que envolve o ISI do Paquistão.

2- Os pistoleiros de Mumbai têm laços com grupos terroristas em áreas tribais do Paquistão e na Província da Fronteira Noroeste.

3- O contínuo bombardeamento das áreas tribais pela US Air Force, violando a soberania do Paquistão, é consequentemente justificado como parte da "Guerra global ao terrorismo".

O ISI é o Cavalo de Tróia dos EUA, um procurador (proxy) de facto da CIA. A inteligência paquistanesa tem trabalhado, desde o princípio da década de 1980, em estreita ligação com os seus congéneres da inteligência dos EUA e da Grã-Bretanha.

Se o ISI esteve envolvido numa grande operação encoberta contra a Índia, a CIA teria conhecimento prévio quanto à natureza precisa e o cronograma da operação. O ISI não actua sem o consentimento da sua congénere de inteligência dos EUA.

Além disso, a inteligência dos EUA é bem conhecida por ter apoiado a Al Qaeda desde o princípio da guerra soviética no Afeganistão e durante a era pós Guerra Fria. (Para mais pormenores ver Michel Chossudovsky, Al Qaeda and the War on Terrorism , Global Research, 20/Janeiro/2008)

Os campos de treino da guerrilha patrocinados pela CIA foram estabelecidos no Paquistão para adestrar os Mujahideen. Historicamente, a inteligência dos EUA tem apoiado a Al Qaeda, utilizando o ISI do Paquistão como um intermediário.

"Com a CIA a apoiar e a canalizar quantidades maciças de ajuda militar dos EUA, o ISI paquistanês desenvolveu-se numa "estrutura paralela que exerce enorme poder sobre todos os aspectos do governo". (Dipankar Banerjee, "Possible Connection of ISI With Drug Industry", India Abroad, 02/Dezembro/1994).

Na sequência do 11/Set, o ISI do Paquistão desempenhou um papel chave na invasão do Afeganistão em Outubro de 2001, em estreita ligação com o alto comando militar dos EUA e da NATO. Ironicamente, em Outubro de 2001, tanto a imprensa estado-unidense como a indiana publicaram relatos citando fontes do FBI e da inteligência a sugerir que o ISI estava a proporcionar apoio aos alegados terroristas do 11/Set. (Ver Michel Chossudovsky, Cover-up or Complicity of the Bush Administration, The Role of Pakistan's Military Intelligence (ISI) in the September 11 Attacks , Global Research, 02/Novembro/2001)
por Michel Chossudovsky

Washington promove divisões políticas entre a Índia e o Paquistão

Hotel Taj Mahal.Os ataques terroristas de Mumbai faziam parte de uma operação cuidadosamente planeada e coordenada que envolvia várias equipes de pistoleiros experimentados e treinados.

A operação tem as impressões digitais de uma actividade paramilitar de serviços de inteligência. Segundo um perito russo em contra-terrorismo, os terroristas de Mumbai "utilizaram as mesmas tácticas que militantes chechenos [treinados no Paquistão] empregaram nos ataques ao Norte do Cáucaso em que cidades inteiras foram aterrorizadas, com o apresamento de lares e hospitais". ( Russia Today, 27/Novembro/2008).

Os ataques de Mumbai são descritos como "o 11/Setembro da Índia".

Eles foram executados simultaneamente em vários locais, a poucos minutos uns dos outros.

Mapa de Mumbai. O primeiro alvo foi o átrio principal da Estação Ferroviária Chatrapati Shivaji de Mumbai, onde pistoleiros dispararam indiscriminadamente sobre a multidão de passageiros. Os pistoleiros "saíram a seguir da estação e penetraram em edifícios vizinhos", incluindo o Hospital Cama".

Ataques de grupos separados de grupos de pistoleiros tiveram lugar em dois hotéis de luxo de Mumbai – o Oberoi-Trident e o Taj Mahal Palace, localizado no centro da área turística, nas proximidades do monumento "Gateway of India".

Os pistoleiros também abriram fogo sobre o Café Leopold, um restaurante fino na área turística. O terceiro alvo foi o Nariman House, um centro de negócios que aloja o Centro Judeu de Mumbai, Chabad Lubavitch. Seis reféns, incluindo o rabi e sua esposa, foram mortos.

O aeroporto interno em Santa Cruz, o Metro Adlabs com vários pisos e o Estaleiro Mazgaon também foram alvejados.

"Os ataques verificaram-se nos lugares mais ocupados. Além de hotéis e hospitais, os terroristas atacaram estações ferroviárias, o Crawford Market, Wadi Bunder e a Auto-estrada Ocidental próxima ao aeroporto. Foram atacados sete lugares com armas automáticas e granadas. ( Times of India, 26/Novembro/2008),

Tropas indianas cercaram os hotéis. Foram enviados comandos das Forças Especiais Indianas para enfrentar os terroristas. Testemunhas nos hotéis disseram que os pistoleiros estavam a separar pessoas com passaportes estado-unidenses e britânicos.

As baixas, segundo relatos, ultrapassam os 150 mortos. A maior parte deles eram indianos, muitos dos quais morreram no ataque à estação ferroviária de Chhatrapati Shivaji.

Pelo menos 22 estrangeiros foram mortos nos ataques. Catorze oficiais da polícia, incluindo o chefe do esquadrão anti-terror, foram mortos nos ataques.

por Michel Chossudovsky


Evo: "É preciso salvar o planeta do capitalismo"

dezembro 03, 2008

Nos Estados Unidos,muitos presídios, grandes negócios

Com características de escravidão, mão-de-obra carcerária nos presídios privatizados do país é barata até para padrões chineses

Com características de escravidão, mão-de-obra carcerária nos presídios privatizados do país é barata até para padrões chineses
03/12/2008

Memélia Moreira

de Orlando (EUA)

Quando se pensava que o sistema capitalista havia esgotado todas as suas formas de exploração, descobre-se mais uma: o uso da mão-de-obra carcerária nos presídios privatizados. Essa mão-de-obra, que tem características de escravidão, é barata até mesmo para os padrões chineses. Sem direitos trabalhistas e cuja e única forma de protesto é a rebelião, é largamente usada nos Estados Unidos, país campeão mundial de presídios no mundo, com 8.700 unidades espalhadas dentro do território, além dos 17 cárceres flutuantes, nos navios de guerra da Marinha dos EUA. E mais ainda com as inúmeras prisões em suas bases militares, sendo Guantánamo a mais notória de todas.

E há presídios para todos os gostos. Públicos e privatizados, onde se registram os mais ignominiosos desrespeitos contra os direitos humanos. Diga-se de passagem, o Brasil vem adotando, quase em surdina esse mesmo sistema de prisões privatazads, num drible à Constituição e sob o rótulo de "PPP" (parcerias público-privadas). Em janeiro deste ano, o governo de Pernambuco abriu licitação para construir mais um cárcere privatizado. Desta vez, em Itaquitinga. E outros estão em pleno funcionamento nos Estados de São Paulo, Bahia, Minas e Ceará.

Em 19 de novembro, quando o Brasil comemorava o Dia da Bandeira, o vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Chenney, um dos homens que mais lucra com a guerra do Iraque, e o ex-procurador geral, Alberto Gonzalez, eram notificados pelo tribunal de Willacy, condado no Estado do Texas, perto da fronteira com o México, para se defenderem da acusação de "atividades do crime organizado relacionado ao abuso de detentos em prisões privadas".

O chamado, generosamente, de "abuso" são torturas contra presos que se recusam a se submeter às regras trabalhistas dos presídios. E a tortura contra presos, assunto muito debatido na campanha presidencial, é crime previsto na 8ª emenda da Constituição dos Estados Unidos.

Os leitores estão livres para comparar Chenney e Gonzalez a Joseph Mengel ou Goebbels. Não a Hitler porque o criador do nazismo gostava de música. Chenney e Gonzalez não têm o menor interesse pelas artes e defendem abertamente a tortura, a pena de morte e qualquer outro método que atente contra a dignidade humana. Gonzalez, que sempre assessorou o presidente George W, Bush, quando procurador do Texas, o Estado bateu recordes de condenações à morte.

8.700 presídios

Com uma população de pouco mais de 300 milhões de habitantes, os EUA mantém nos seus 8.700 presídios 2,5 milhões de presidiários dentro do seu território. Isto é, bem mais presos do que os países de grandes populações. Mas o número total de prisioneiros sob a responsabilidade do governo dos Estados Unidos é um segredo.

A estatística é desconhecida não apenas por causa das prisões clandestinas dos navios mas, principalmente porque o governo dos EUA não informa quantos prisioneiros mantém nas bases militares. Argumentam com a velha frase "questões de segurança". Os números portanto, cobrem apenas os presos dentro do território, incluindo Havaí e Alaska. Quantos em em Abu-Ghraib? Ou em Guantánamo? Talvez só mesmo o Departamento de Defesa saiba responder. Mas, mesmo assim, não deixa de ser impressionante o fato de que há 750 presos para cada cem mil estadunidenses. O percentual é assustador quando se sabe que na Inglaterra são 148 para cada cem mil, na França 85, na Líbia 217 e na China, 119.

Prisão típica

Nada que lembre os depósitos de presos dos cárceres brasileiros. Numa prisão típica, oito pessoas por cela já é considerada superlotação. As celas das prisões-modelo medem 2,5 m por 1,8 m e contam com uma cama de metal, pia e vaso sanitário. Algumas chegam ao "luxo" de ter janelas com vista para fora do presídio.

Mas isso não significa que todos os presídios obedeçam os mesmos parâmetros. A mais temida e odiada prisão dos Estados Unidos é a de Sing-Sing, localizada no luxuoso condado de Westchester, a 40 km de Nova York e onde o ex-presidente Bill Clinton comprou uma casa. Lá, de acordo com relatório da organização não governamental Human Rights Watch – que recentemente foi expulsa da Venezuela depois de uma polêmica com o presidente Hugo Chávez – "proliferam ratos, baratas e aranhas venenosas".

No item "alimentação", a ONG que é vista com suspeitas não apenas por Chávez mas, também pelo Departamento de Estado dos EUA, denuncia a "falta de higiene" das refeições oferecidas, causa principal de muitas das rebeliões que já agitaram e continuam agitando os presídios do país.

Para completar o quadro de horrores apresentados pela Human Rights Watch, essa organização jogou na cara da sociedade estadunidense a notícia sobre a disseminação da tortura contra os presos, não apenas contra os chamados "terroristas" presos no Iraque, Afeganistão e em Guantánamo mas, dentro dos Etsados Unidos. Sem se referir especificamente a essa denúncia, o presidente eleito Barack Obama se comprometeu a mandar investigar a veracidade da informação tão logo tome posse. (Leia mais na edição 301 do Brasil de Fato).

dezembro 02, 2008

Imagens de uma tragégia


A solidariedade do brasileiro, juntamente com o trabalho de todos os catarinenses, devolverá a Santa Catarina seu brilho.

Ilha das flores

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